Imperador Tirânico



Edigles Guedes

Langue em ampulheta o Tempo virginal; singra
Os mares dos minutos; os oceanos chora
Dos segundos; transpõe montanhas de clãs horas.
Tempo caçado e acuado das paredes na engra…

Que andas a avelhantar os risos dos cajueiros;
Que andas a avelhentar os pisos dos casebres;
Que andas a brincar com humanos seres, lebres
A correr desenfreadas da mira certeiro

Caçador que és… Não perdoas tua marcha lúgubre:
Avante sempre; estilhaças, tal qual fúnebre
Funeral, todos que perpassam teu caminho…

Imperador tirânico, que avassalador
Assola o solo da juventude, sol no albor…
No entanto, não sabes o valor do carinho!…

11-9-2011.

Dor Estrangeira



Edigles Guedes

Punge-me a Dor sem dó de mim: incendeia grandes
Labaredas de gelo no arrebol da face
Minha – inundada judas por beijos; clímace
De desairoso ocaso que se vai aos Andes.

Aconcágua é portal do céu que estonteia a vista…
Oh! Dor que me levou aos confins do terrestre
Globo, para purgar do meu íntimo sedestre
Essas rochas delgadas de osso anatomista.

Rochas é esse sentimento esnobe, chamado
(Por línguas doutas) de Amor; quando, na verdade,
Causa mais dor que a dor de amar sem ser amado!…

Osso anatomista é o que se rói, pois, amiúde;
Duríssimo de roer – quebra geral saudade.
Oh! Dor estrangeira… Que animal nudicaude!…

11-9-2011.

Noite sã com Pera na Alcova



Edigles Guedes

A pera de pele verdoenga, de paisagem
Estúrdia, dentro de si proclama a incongruência
Entre a aresta e de seu grão o vértice volume;
Entre a superfície e o perímetro do sabor.

Sua sombra violão desdenha (suave visagem)
Da luz que brilha sua felicidade, anuência
De físico corpo e alma de cio vaga-lume,
Ou da formiga e da cigarra o duro labor.

Extática; larga a tatuagem de seu cheiro
Tão invulgar quanto o odor de vulva, qual válvula
Desabrochada, cola no peito faceiro.

Faz curva de buraco negro; e inda que chova
O dia inteiro, eu já não a quero do cão que ulula.
Eis que venha a noite sã com pera na alcova!

11-9-2011.

Tardio Desencanto


Edigles Guedes

A vela enfuna o vento marítimo e parco.
Ôndulas brandas sussurram melífluo canto
No casco robusto da embarcação serena.
Sargaços flutuam lentamente por túrgida água.

Sopra o leme as espumas musicais de lira,
Dedilhada por dedirrósea manhã solar.
Em portando armas bélicas, tais como de arco
E flecha na mão… lanço o tardio desencanto

No rochedo côncavo e na rocha terrena.
Chuva serôdia, fúria de tufões, desagua
Em minha nau a esmo, barquinho que delira

Ao sabor meigo do baloiçar no seixo lar.
A bonança aportou em mátrio solo, súdita
Fiel do Amor, que traiu tempestade por desdita!

10-9-2011.

Policasta e Telêmaco


Edigles Guedes

Acolhido por Nestor, a prole de Neleu,
Rei de Pilo, Telêmaco descinge a roupa,
Após atravessar com arte e engenho os mares,
Ilustrados nos vasos gregos de sua Ítaca.

A caçula Policasta esfrega mão ao léu
No dorso do herói… Então, sonha estar na garupa
Do navio, sequestrada pelos braços pares
De Amor, que aprisiona sem ginete ou faca;

Não por força, mas bem me quer: tendão aquileu!…
Enquanto Policasta banha em catadupas
De perfumes, que evolam cisnes pelos ares,

O jovem ditoso, ele a si mesmo se culpa
Por não encontrar Odisseu tão caro; e cantares
De Amor casto afagam seus pesares em cloaca!…

10-9-2011.

Agra luz


Edigles Guedes

Cai uma gota de açúcar no café de poema.
Tal como o açúcar é branco refinado, fino
Ou extrafino, assim são algumas palavras mansas;
Ora existe açúcar pardo, o mascavo amargo,

Ora há palavras acres co’ ácaros na entranha.
Porém, o café (doce ou amargo) tem floema
Negro, esclerócitos, e sangue sem fio tino.
E, por mais que tenha cara de boba ou tansas

Tranças de Rapunzel, leva consigo embargo,
Estorvo que é essa via de mão dupla: a patranha
Do sentido e significante, tantas vezes

Esquecido e porto nas páginas de ilustre
Dicionário –– amigo das sirtes e revezes.
Deito a palavra incógnita, agra luz sem lustre.

10-9-2011.

Ser Transmudado


Edigles Guedes

Verte o cálice de angústia e dor, claro íntimo!…
Aponta-me o dedo indicador e acusa-me
De falta de Amor; de imprudentes e palavras
Gris à toa, lançadas à canoa sete ventos!…

Sinto-me haver coração frágil sem arrimo,
Num mar sem cabelos; barco nau sem velame;
Lavrador que, na seca, definhou boas lavras!…
Aflige-me vorazes e atrozes tormentos!…

Fico a imaginar: quem sabe Amor a molestar
Pode-se de tanto pensar; o pensamento
Faz curva por bairro errado, assaz afastado.

Eu pequei, e por haver pecado, eis deixo estar
O meu ser transmudado em arrependimento
Sincero; perdoa-me, ó Senhor, o meu vil estado!…

10-9-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...