Agra luz


Edigles Guedes

Cai uma gota de açúcar no café de poema.
Tal como o açúcar é branco refinado, fino
Ou extrafino, assim são algumas palavras mansas;
Ora existe açúcar pardo, o mascavo amargo,

Ora há palavras acres co’ ácaros na entranha.
Porém, o café (doce ou amargo) tem floema
Negro, esclerócitos, e sangue sem fio tino.
E, por mais que tenha cara de boba ou tansas

Tranças de Rapunzel, leva consigo embargo,
Estorvo que é essa via de mão dupla: a patranha
Do sentido e significante, tantas vezes

Esquecido e porto nas páginas de ilustre
Dicionário –– amigo das sirtes e revezes.
Deito a palavra incógnita, agra luz sem lustre.

10-9-2011.

Ser Transmudado


Edigles Guedes

Verte o cálice de angústia e dor, claro íntimo!…
Aponta-me o dedo indicador e acusa-me
De falta de Amor; de imprudentes e palavras
Gris à toa, lançadas à canoa sete ventos!…

Sinto-me haver coração frágil sem arrimo,
Num mar sem cabelos; barco nau sem velame;
Lavrador que, na seca, definhou boas lavras!…
Aflige-me vorazes e atrozes tormentos!…

Fico a imaginar: quem sabe Amor a molestar
Pode-se de tanto pensar; o pensamento
Faz curva por bairro errado, assaz afastado.

Eu pequei, e por haver pecado, eis deixo estar
O meu ser transmudado em arrependimento
Sincero; perdoa-me, ó Senhor, o meu vil estado!…

10-9-2011.

Cifrada


Edigles Guedes

A borboleta – atriz que desperta suspiros
Dos telespectadores da Natura tela –
Passeia de mala e cuia pela janela oblíqua
Do meu quarto, tão maldormido quanto noite

De  insônia, aturdida por pardais pesadelos.
O que vieste fazer cá, comigo deitado
Na cama preguiçosamente desforrada?
Medito com os botões agasalhadeiros.

Melancólica, macambúzia como só ela
E mais ninguém; olha para mim mui longínqua,
Co’ olhos e antenas agudos, fogos de açoite.

De súbito, deu à espinha, assentou os cabelos.
Demasiado rápido apanho o bicho alado,
E vejo que era uma mariposa cifrada!

8-9-2011.

No Fado meus Olhos eu Pasci


Edigles Guedes

Jaz-se na mesa, meu sonho, débil devaneio;
Entretanto, ao pesá-lo na reta balança,
Vejo que a jazzista moça de olhos vendados
Pouco me favoreceu com a soez espada.

Desculpe-me, gentil Dama, do que estou a falar?
Por uma linha, escapuli do afogamento
Na beira do mar; mas, marinheiro – que nasci
Sem saber – não padece em águas de veraneio.

Por um triz, tiro – perseverante em sua andança –
Alveja-me sem alarde de ases alados;
Cicatriza-se a alma de minha mão calada.

Tantas desventuras sem armas a açacalar;
Tantos reinos vistos, barões ou fingimentos…
Ah! Dama, alfim, no Fado meus olhos eu pasci!…

8-9-2011.

O Galhofeiro


Edigles Guedes

Fenecem as flores nos campos longínquos e brandos;
Frutos redondos, rechonchudos, quedam das umbrosas
Árvores, que sentam suas dúvidas na Primavera:
Será que vem ou não vem o ecúleo lhano, deveras?

Que tormento é esse, que aguardam todos os tais quejandos?
Eis o frenesi alheio do menino de asas fogosas.
O joão-de-barro, tonitruante, constrói seus cômodos;
A andorinha, felicíssima, brinca com os lodos;

O salgueiro, exemplar, despede-se de suas folhas,
E chora, desnudo, seu pejo, e vãmente ele sofre;
O sábio sabiá guarda tudo em mente, baú de cofre.

No lago azul, alguns galhos navegam como rolhas.
E a flecha do Cupido, galhofeiro, mira em alvo:
Inventa de acertar em cheio meu peito de Amor calvo!

7-9-2011.

Amores Alienígenas


Edigles Guedes

Torceu o nariz; arrepiou desprezo, contempto, desdém.
Passou por minha efêmera vida, como pássaro
Sonoro, cantando de galho em galho, cão sem faro,
Mulher faceira com balangandã, com berenguendém.

Destorceu o chafariz da praça; arrebentou pandeiro.
Passou por minha minúscula vida, como avaro
Vento pelo ar atmosférico; joelho genuvaro
Em busca da gravidade dorida; derradeiro

Tiro no escuro ou bala perdida no apartamento.
Passou por mim tão desgarrada da humildade fida,
Todavia tão próxima da alma ferida e brunida.

Passou feito furacão feroz de alucinamento.
Deixou-me chaga famigerada: alucinógenas
Algemas, que me agrilhoam a amores alienígenas.

7-9-2011.

Ao Dom Quixote


Edigles Guedes

Caro, Dom Quixote de la Mancha e cavalo
Esperto, o Rocinante, pangaré galhardo.
Vossemecê, preclaro cavalheiro, fardo
De intrepidez ímpar, invulgar, duro calo

No pé da atordoante realidade, mesura
Sua faz-me rir das minhas duras cabeçadas
De clown shakespeariano… Palavras aladas
Sem aplausos, sem palco, ou teatro sem ternura.

Confesso-te urgente, Vosmecê e eu precisamos
Aprender que moinhos não são dragões ou feras
Embrutecidas; que Damas – mesmo que ceras

Sejam feitas – jamais necessitam de tramos,
Príncipes encantados, a fim de salvá-las
Da bruxa má, ou sequer de ingentes almafalas.

7-9-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...