Estorvo

Edigles Guedes

Serve-me de estorvo esse coração contrito,
Cujo hábito antigo me enleio, como se prende
A tenra mosca na teia tênue, tal ataúde
Que miúde faz vezes de claustro inane. Fito,

Co'os olhos desenganados e hirtos, o fim
Da transitoriedade humana: laivos de Amor —
Padecer no crepúsculo do dia de marfim...
Dessarte, consente Amor acanho em dor, dor mor...

No seio de quem apetece, fugaz, distender
O céu de nuvens alvas. Minh'alma túrbida
De Amor, persegue: flecha nauseabunda, o entender

De tão graúde de dor por tão mísero e indigesto
Amor. Meus sapatos alígeros vão. Vida,
Precípite, aos abraços do dia profesto!...

11-3-2010.

Tardio, Chegas ao meu Pouso

Edigles Guedes

Tardio, caro Amor, chegas ao meu pouso...
Em paragens longínquas e tacanhas,
Tu perambulaste. Demais façanhas
Fizeste em périplo de Argonauta. Ouso

Dizer-te que mares extraordinários
Desbravaste, com tuas velas infandas...
O timoneiro do Amor (que sou) por rios
Infinitos naveguei. Nau enfunada

Dirigi por vagas que truculentas
Pelejaram em engolir-me. Bastos
Vendavais arrancaram-me o velame.

Tempestade, que ruda e suculenta,
Tragou-me o desassossego. Recato
Atroce achei nas palavras implumes...

11-3-2010.

A Fernando Pessoa

Edigles Guedes

Sagrou-te o Mar português infante
Das lágrimas salgadas. Um grifo,
Que por símbolo luso e sonante
Da língua tornaste. Teus áglifos

Versos inoculaste-os por papel
Almaço, na datilografia indez
De quem muitos dicionários comeu.
A tua pena etimológica, vez

A vez, sobrevive ao cotidiano
De tuas ânsias, e mágoas, e quadras.
Fazias à sestra mão Cancioneiro

Teu: inigualável arte! Anódino,
Com teu sobretudo em mil esquadras
Portuguesas, andas altaneiro…

10-3-2010.

Alma vil

Edigles Guedes

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Fernando Pessoa

Senhor, perdoe-me pela noite metafísica
Que há em mim! Eu sei que pequei! Fraco, esmorecido
Estou, porque calei o meu pecar à magnífica
Lei Tua. Perdoa-me, estou demasiado arrependido.

Embalde, como o filho pródigo, busquei alento
Em outros pastos. Ovelha perdida, prostrada
Longe de ti em algum abismo. Coração, lento
Pulsava em sirtes. Oh, que tão longínqua estrada

O Senhor encontrou-me desvalido!…E trapo
Humano! Mas, o Senhor estendeu a mão para mim,
Como o bom Pastor à ovelha combalida. Guapo

Coração esfarinhou-se ante a Tua benignidade.
Alma vil, não chores!… A Esp’rança despontou assim:
O Senhor salvou-me do abismo da iniquidade!…

10-3-2010.

Uma Cãibra

Edigles Guedes

O homem e a hora são um só.
Fernando Pessoa

Há uma cãibra que me afoga os pensamentos.
Não é cãibra qualquer; mas, cãibra de ser homem
E pisar de mansinho meus sentimentos
Tão descontentes de Amor. Assoma, que vem,

Uma nuvem a cavalgar o horizonte.
O Amor está tão longe quanto os sapatos
Absortos estão da terra fumegante.
Deveras, o Amor está-me assaz contorto.

A hora inunda a minha vida impérvia e breve.
Uma a uma, as pétalas da manhã acaecem.
Os ventos madrastos e ágeis emudecem

O frio da cãibra que me atola os tormentos
Na lama das horas bastas. Que almocreve
Levou o homem e a hora a tinir combustos?

10-3-2010.

Levei Minha nau

Edigles Guedes

Levei minha Nau ao recato de uma baía;
O que esses meus olhos, que há de comer
A terra, viram? Enxergaram a gaia
Sapiência de um isóptero a carcomer

A madeira de angústia e furta-cor
Do dia. A minha Nau há de velejar,
Salvaguardada por rocha de roncor
Do Mar. Essa rocha frágil a arrojar

O torpor da imensidão marítima.
Mar, ó Mar!… Quem levou minha Nau ao alto
Das vagas rábidas. Foi a tormenta má?…

Debalde, o mar me não respinga, esvelto
Em seu olhar rúbido, que descabido
Repreende-me. Eis que a Nau singra o bramido!…

9-3-2010

O Amor não Passa de Uma Pobre Cousa

Edigles Guedes

...[um grande amor] não passa duma pobre coisa banal
e incompleta, imperfeita e absurda, que nos deixa
iguais, miseravelmente iguais ao que éramos dantes,
ao que continuaremos a ser.
Florbela Espanca

O Amor não passa de uma pobre cousa banal e incompleta?
De tão sofrido e doloroso sofrer por Amor, cálido
Estou na aparência do dia. A lua, alvadia, atroz e braquígnata,
Uiva seu cântico de queijo coalho. Encontro-me ávido

De sentimentos sublimes de Amor. Espada de dois gumes
É o Amor; ele contigo porfia, vocifera, desgasta.
Desgasta o transitório da garrafa náufraga: que lume!…
O Amor não é de uma pobre cousa absurda e imperfeita?

Não sei se o Amor é imperfeito... Só sei que tem seus defeitos.
E quem não os têm? Atire a primeira pedra. Somos: pé e seta?
Seta que não atinge o alvo do Amor platônico, eleito

Por outro coração amado. Não sei se o Amor é absurdo;
Mas, sei que acalenta o meu pranto, pungindo-me mor lanceta
Na minh’alma infida e lúrida. Sim, o Amor é desabrido!...

9-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...