Apaga a Magra Loisa



Edigles Guedes

Escanhoa-se a face com muita perfeição
A contrapelo; pela segunda, a pele
Ecoa o espumar congruente da lâmina
Em atrito fundo do imo, que repele

A sujidade dos pelos semidoutos.
Barbeador torna-se vassoura de gari
– Nobre cavaleiro de facalhaz fina,
Mãos calejadas por pimentas cumbaris –,

Instrumento cirúrgico de incisivo
Corte no lixo das ruas e d’ almas coisas,
Que sobrevivem ao dilúvio dativo

De químicos dejetos e sua poluição.
Escanhoa-se qual se apaga a magra loisa,
De giz riscada, por lápis armidouto.

16-9-2011.

Lâmpada



Edigles Guedes

Cospe de sua fagulha o fogo incessante que
Incendeia de paixões canavial dos amantes,
Na praça enluarada por vaga-lumes guapos.
Dragão ou monstro moderno, avante, assim como antes,

Indomável, bipolar: de noite, príncipe;
De dia, feioso sapo, que carece de beijos
De uma princesa para desabrochar o ser
Que é, esconso na armadura rugosa. Pão e queijo,

Ou goiabada e queijo, saem os dois, casalzinho,
A passear pelo reinado em cavalo branco.
Lâmpada de Aladim ou gênio, de mansinho,

Arquitetando três desejos inconclusos?
A carruagem elétrica, aos sãos solavancos,
Percorre caminhos luminosos e lusos.

16-9-2011.

Amores de Dirceu



Edigles Guedes

Ruge, de palmo em palmo, o leão ferocíssimo,
Enjaulado em grades camonianas, sintaxes
De um domador com seu fiel banco, escudeiro, e som
De chicote voraz, azorrague de praxes

Ferinas… O estalido da garra sem mimo
Evoca bastantes arrepios na coluna
Vertebral dos ouvidos… Nem tapa-orelhas, com
Carinho, seria de serventia… Sequer duna

Fecharia o Sol com sua peneira de fina areia…
Domesticado, ameaçado chico das dores,
A fera pula círc’lo de fogo; fome feia

Esconde de farto público… Espetáculo
De graça e desgraça no picadeiro… Amores
De Dirceu sem Marília de sustentáculo!…

16-9-2011.

Fugir de mim



Edigles Guedes

Meu coelhinho branco, de patinhas túmidas;
De focinho inquieto, mexendo de cá para
Lá, a procura de caminhar por entre clara
Noite de frio e solidão das nuvens fúmidas…

Fúmeo nevoeiro devora-te tão guloso
Quanto tua gula perene por mil cenouras…
Dentro da plúmbea neve, mastigas louras
Sementes de girassóis; quando cafangoso

Inverno ira zumbe de tempestuoso Aquiles…
Martelas, tal qual prego no cruento martelo,
Teco a teco, teu dente em outros dentes brailes…

Multiplica-se o Fibonacci número atroz
Do tempo argiláceo, do minuto amarelo.
Quem me dera fugir de mim feito um albatroz!…

16-9-2011.

Reflexão Sobre a Ostra



Edigles Guedes

A ostra: compacta, amassada leseirice
De poeira e areia do mar, sem caspas moribundas;
Alice, singela, e sua tagarelice
De Chapeleiro Maluco, com cenas mudas

Do Gato Risonho, escondendo longa cauda
E, por último, seu sorriso matreiro.
Somos todos Daniel Defoe ou mosqueteiros?
Somos somente simples crianças com fraldas?

A ostra dorme (prazenteira) de milênios
Sonos que não despertam sonhos, que não acordam
Travesseiros ou fronhas em seus silêncios.

Bivalve, de quando em vez, ela resolve seu
Problema de aritmética: eis que engordam
As louvaminhas dos versos, como fariseu.

16-9-2011.

Um Gole de Carinho



Edigles Guedes

Por que existo sem os teus benditos
Olhares? Se há de penar que insisto
Em viver longe dos olhos vistos.
Que imprevisto me uniu a mim ao dito

De ver olhos tão castos, castanhos:
Meu existir de sorongo e pamonha?
Não sei se desisto… Há quem me ponha,
Rosto a rosto, com olhos de acanhos?

Deveras, os tortos foram meus pés,
Que me levaram para juntinho;
Fizeram-me sentar nos canapés.

Sim, se existir for fogo sem ninho,
Eu prefiro um tremendo pontapé
A viver sem gole de carinho.

13-9-2011.

Tucano


Edigles Guedes

Com seu bico oblongo, torce o rabo do olho contorto.
Desconfiado, ainda vive; de galho em galho, saltita
Alegrim e alegrim de sua gris desdita; palpita
Seu coração ortográfico; navega sem conforto.

O verde vê o laranja de sua cor, grita ametista
Com todo seu fulgor de pedra, embaralhada em ramos,
Que escondem o vistoso bicho à distância inaudita.
Mãos fotográficas almejam seus silêncios calmos,

Todavia não alcançam as alturas panorâmicas.
O animalzinho, pregado no papel de parede,
Lamenta-se ser somente uma lembrança idílica.

Enquanto eu - grudado na minha existência atrípede -
Não sei se rio, ou se choro, ou se chove, ou se esse Sol fica
Mais belo; porém, sei dessa existência que me prende!

13-9-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...