Fruto que se Come por Miúdo



Edigles Guedes

Se me apaixonei por teu ombro curvo…
A culpa, decerto, não fora minha;
Porém, sim, dessa curva, ora daninha,
Que faz o teu ombro baloiçar tão turvo.

É que paixão se sofre o sofrimento
À toa; como andorinha, sozinha, voa
Para longe… E muito distante ressoa
Seu uivo de dor e duro passamento…

É mítica a cadeira de balanço
De teu molejo: requebro, sem ranço,
De ombro que estonteia meu ser carrancudo!…

Pois, quer frígida, quer libidinosa,
Apaixonei-me, decerto, ó incendiosa
Paixão: fruto que se come por miúdo!…

2-10-2011.

Corações Engrinaldados



Edigles Guedes

Lembro-me do retrato na parede do nosso
Quarto de dormir. Nossos olhos enamorados clamam
Um pelo outro, em suspiros de desejos; declamam
Poemas eróticos às quatro paredes!… Que osso

É a vida!… Foi ontem que subimos, jungidos beijos,
A ladeira do tálamo. Tu estavas formosa;
Esplendias com todas as primaveras!… Oh! rosa
Do meu jardim de Amor e delícias… Onde queijos

De Lua se esconde do paladar da minha boca,
Fremente de prazer e gozo?… Sim, eis quão louca
Paixão me consome o íntimo meu ser… Quiçá ninguém

Me escute o dessegredo… Ó coelhinha na toca
De amores! acolhida nos meus braços de mouca
Libido, que pena! sou na alcova mais um alguém!…

2-10-2011.

Sereia dos meus Olhos



Edigles Guedes

Ai de mim! Pois, desde que pus meus olhos
Nos olhos teus, desfaleceu-me os cegos
Olhos meus… A escuridão de abodegos
Do dia é mais escura!… Noites aos piolhos

Dadas, que latejam nos meus pesares
Pensamentos de olhos quão lastimosos!…
Meditabundos olhos escumosos,
Que me levam por navegados mares!…

Mares abismosos que calam dores
De absíntio! que calam esses amores
Por alheia Dama ao meu querer!… Oh! sereia

De canto mavioso, e aleivoso, e tredo,
Em que ilha tu devoraste tão cedo
Meu coração marinheiro, que serpeia?…

2-10-2011.

Cabelos


Edigles Guedes

Lindos, mui lindos, esvoaçavam naquela tarde
De verão. Madeixas negras; e negras pérolas
De cabelos longos, pendurados nas espáduas
De Dama bela, cujos fulgores ainda me arde

No peito mancebil. Fulguras tal qual cometa,
Com sua cauda celeste de grãs madrepérolas…
Ágeis, escorrem lebres, tais línguas de tamanduás,
Que descem de tua cabeça – embarcação corveta…

Flexíveis, esfumaçam seu odor: flor de magnólia
Que se espraia pelo ar sereno. Luar de malencolia
Inunda o firmamento – aquele xadrez de estrelas…

Eis que, cá dentro, flui e punge-me as sensações várias
De quem ama esses cabelos, que me riscam co’ árias
De clássica valsa, que me fogem sem dar trelas!…

2-10-2011.

Malquerença



Edigles Guedes

Que malquerença é essa, semeada aos poucos
No teu peito inerme?… Pélagos loucos
De loucos beijos e desejos moucos,
Calados em grandes fossos, cavoucos!…

Ingentes esforços eu já fiz, faço
Para abrandar as procelas de mau aço;
Pois minha nau navega por vil sirte,
Que me beija ali, nem guart-te sem tir-te…

Que malquerença é essa, que dá asas-pipas
À imaginação para me censurar?…
Repreende-me, deveras, mete as ripas,

Pelas palavras de Amor jamais ditas…
Porém, sempre hei de (quem sabe?) procurar
E desfazer infortúnios, desditas…

1-10-2011.

Cárcere Celestino



Edigles Guedes

Bom e preto. De cheiro preto, que subindo
Pelas paredes escabrosas do intestino,
Vai ligeirinho, espalhando seu odor ladino,
Odor de joão-ninguém azedo e desavindo.

Embora leve, consigo, essa carantonha
De malquisto, ele tem o coração-tesouro
Do Brasil, pois vale mais do que muito ouro
Na boca de gente simples – lençol sem fronha.

Um mar de escumas, com bolhas a estourar moinhos
E redemoinhos, navega o açúcar límpido;
Tão límpido que dá asco alvo, velcro estampido.

Vergam os lábios murchos, de tortos caminhos,
Estrídulas vozes de gozo matutino.
Café: cachoeira de cárcere celestino.

1-10-2011.

Édipo que Jamais Existiu



Edigles Guedes

Pálida estava, como uma rosa anêmica,
Sem braços de jardineiro para colhê-la…
De súbito, ela desfalece – qual estrela
Ofuscada pela luz do Sol ou química

De solúvel com solvente. Sua boca flébil
Sorve o ar bastante lentamente, ritmo valsa
Lânguida, ao sabor fugaz de farsa falsa…
Encanto-me por seu canto de lábio débil.

Vejo-o e meus sentidos anuviam-se… Escurece
O dia – claro enigma de esfinge atroz; fenece
O Édipo que jamais existiu em mim?… Lépido,

Ergo a formosa Dama nos meus braços. Longo
Beijo, desesperado, eu disparo: milongo
Que nos afoga no rio de ensejo crépido!…

1-10-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...