O Fogão



Edigles Guedes

Arde com ardor de crepitantes pérolas,
Quando a Madrugada altaneira foge aos uivos
Das mendazes bocas, que comem abrasivos
Ares dentro de mim… Amanheço, de alfolas

Vestida está a Lua, desabrocha labaredas
No forno escaldante… Coruscantes fagulhas
Costuram, tecem, cortam, picam, como agulhas
De mosquitos vorazes… Céus com abóbedas

Côncavas de nuvens e corrupios infantis…
Ofuscam precipícios, píncaros, alcantis,
Cumes, o fogão co’ incandescentes caiçaras…

É num poema que minhas mágoas desafogo…
Quem me dera queimar em mil línguas de fogo
Todas as lembranças de Amor, que me são caras!…

24-9-2011.

Nefelíbata



Edigles Guedes

Ora, se andei nas nuvens?… Se as nuvens haverão
De ser o caminho por onde eu possa vagar…
Quer plúmbeas, co’ odor de bricabraque, devagar
Redemoinho girando girândolas, verão

Que voa mansinho em manhosice de coração…
Quer etéreas, frocos de doce algodão manco,
Claudicando de ar em ar, qual brando tamanco
Bêbedo, sem desforço; ou como quem faz menção

De seguir avante, porém recua, quando está
Face a face com o perigo de presente.
São digníssimas esculturas dessa gesta

Celestial, que celebra os feitos de valente
Guerreiro imortal… Pássaros… Natura em festa
Recorda a vitória – fio de nuvem! – chãmente.

24-9-2011.

Trompete



Edigles Guedes

Sopra o rural maracatu de instrumento
Cortante, como estrovenga em mãos canaviais,
Em festa de cores  multidoloridas
Ou de sons aturdidos – palavras triviais,

Que se multiplicam abundantemente.
Caracol metálico com retangular
Concha a envolver múltiplas curvas: tais idas
Sem voltas; jaguadarte juba jugular

De leonino dragão: o cospe-raios-e-trovões.
Acelerado ritmo de pés descalços...
Pistons movem-se de fróis clichês e chavões...


Sai melodiosamente orneio de jumento
Por estrada de chão: grandes seus percalços,
Antes de atingir o furacão demente.

24-9-2011.

A Manicure



Edigles Guedes

Mansa, de olhos humílimos, movimenta

Apurado pincel de gênero dúbio;
De gênio forte e rudo, cujo dilúvio
De esmaltes cobre milimetricamente

Cada unha da freguesa, com sua tormenta

E bife à sobremesa, a espiar o cantinho
De carne fresca que sobrou no dedinho.
Aliás, lava as mãos com carinho decente;

Livra-se, à saúde, dos micróbios nocivos.

Desenha, exímia, esses corações cativos,
Essas rosas obsoletas, esses cravos

De odores lírios, essas magras orquídeas...

Destarte, se enfeita flores trigonídeas
No jardim de unhas porcas, poucos centavos!...

21-9-2011.

Sapateiro


Edigles Guedes


Peleja com sua ferramenta de puro aço;
Pugna contra couro, antes que forno-chicote
Assopre sua víbora língua — chocolate
Sabor de suor e muito siso de palhaço;

Brinca de acrobacias na mão com o martelo,
Que faz caretas de mímico sorrateiro.
E, ribomba esse bombo bastante ligeiro,
Não dá pista de paradeiro ou perdido elo,

Que une o prego ao sapato inteiro — mero, outrora,
Trapo de couro ou parco pano: tapeçaria.
Melro de bico amarelo, finório; embora

Boa gente, de fala pouca, de má toleima?
Prossegue seu ofício de verme, solitária:
Sonda e cola a sola ao fundo de sobreteima!


21-9-2011.

Coração de Manteiga Derretida



Edigles Guedes

Bate que bate – relógio interior – com ponteiros
Compassados, pesados nas sobrancelhas largas;
De nariz empinado, como pipas amargas
Postas a voar no alpendre de casa. Conselheiros

Olhos olham para mim, absortos, tão longínquos!…
Freme! meu coração sondável pelo colossal
Navio; brame! de júbilo ou de pitada de sal
Pouquinha no muito feijão do dia a dia. Altíloquos

Soluços de Amor comovem, rubra, derretida
Manteiga na frigideira de mim. Neve álbida
De lágrimas gelam meu íntimo; porquanto sente

Os sentidos plangentes, de choros coloridos
Na gravura da Dama que se vai sem pruridos!…
Ah! molenga e mocorongo, coração demente!…

19-9-2011.

Batatas Fritas


Edigles Guedes

Crocantes rosas recendiam desse mastigar
Árido de terra sertaneja, tal como
O lento cavalgar dos carros de boi… Tomo
Destino contrário em minhas mãos a mitigar

O pão da sabedoria dos dias primaveris…
Crepitar insano, e constante, e concânico,
Jorra a flux da minha boca; som mecânico
Escancara as mandíbulas, tais quais esmeris

Polindo a faca de corte, rente ao cadáver
De horas mortas, em que o pio – estrênuo precaver
Da coruja – sobressalta arrepios cá dentro

De mim. Adrede, quebro matéria tudesca,
Esmago goma de mascar de eris batatas
Fritas, circunscritas na boca do epicentro.

19-9-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...