Amor a Cochilar

Edigles Guedes

Ah! Esquecer-te, eu? Jamais! Acaso, o Amor é edifício
Da memória rabugenta de um apaixonado?…
Como hei de esquecer-te? Se me ensinas tão completo
Pulo de gato à noite, com suores abafados?…

Se tens tuas mãos a blandícia branda por ofício?…
Se me pejo com tuas pernas amarfanhadas
Nas minhas, repleto de eflúvios — fluidos de aroma
Agradabilíssimo… Em nossas almas tatuadas

Estão as lágrimas, entrelaçadas por insuetos
Olhos invisíveis, que evocam as ignívomas
Tardes de grama, sol e piquenique na praça…

Ah! Esquecer-te, eu?… Quem me dera fosse fácil deixar
Pra trás o Amor em qualquer esquina, sem arruaça!…
Oh! gaiato Amor, que vive em mim tão bem a cochilar!…

28-10-2010.

Coração sem Embargo

Edigles Guedes

Chove deveras em mim pungente pavor
De Amor, pois é substantivo de poucos
Adjetivos, que possam qualificá-lo…
Se Amor inventa sorriso angelical

E com arco e flecha acerta demais Amor:
O coração exaltado faz-se aqualouco
Cupido — misto de menino anômalo
Com asas de canja de galinha abissal…

Se ele engenha mãos com luva de pelica;
Vestido prendado ou saia rodada; fita
Nos cabelos de carmesim; ombros largos,

Decotados de pudor; então, cá, fica
A adaga do mouro, cravada na desdita
De coração apaixonado e sem embargo!…

27-10-2010.

Ondas Quixotescas

Edigles Guedes

Tu abanavas o leque com as mãos de sabres…
Ele regozijava-se, balançando-se
De um lado ao outro, como as palmeiras pálidas
Balançam-se na cadeira de balanço do

Vento vívido… O leque, lúbrico, de lebre
Pele, acaricia a tua tez tão casta! Esse close
De câmara digital revela, sobremodo,
A dor de tua alma mitopoética e árida!…

Ó leque leucêmico! por que faz inveja
Esse teu langor de enganador letífico?…
Sinto-me que, debalde, eu coro de cereja

Cor, ao ver-te, bela Dama, refrescando-te
Nos braços desse leque cruel e terrífico!…
Ó leque! sopra-me em ondas de dom-quixote!…

26-10-2010.

Tolo Anelo

Edigles Guedes

Bate-me à porta essa memória adormecida:
Suores nos lençóis da cama de Amor náufrago,
Lágrimas de espera nunca dantes alcançadas,
Suspiros de saudade que apertam o peito

Inaudito, insônia de mente entorpecida
Pelo perfume de baunilha… Eu, que me afago
Com teus cabelos bastos, com mãos acanhadas,
Tateio o escuro à cata de ti… Corpo atreito

Ao teu aflato de flores, que bafeja esses
Sorrisos de doces de leite — caramelos,
Manhãs de domingo, guardas nos adereces

Teus… Já não sei se me deleito nesse sonho
Delicioso; ou, se me embriago com tolo anelo
De namorado merencório e enfadonho!…

26-10-2010.

Retrato na Parede

Edigles Guedes

Eis que o tapete convida-me para adentrar
A casa paterna: cenário de benignas
Lembranças de outrora… Quando eu era menino,
Empinava pipa no carpete da sala,

Com o ventilador ligado ao máximo
De consumo de energia elétrica. Minha
Mãe ralhava comigo, dizia que não tinha
Pena do bolso de meu pai. Então, acérrimo

Eu ficava… Fazia essa cara de bengala
Sem apoio à mão, que lhe acaricia. Ferino,
Escondia-me no quarto. Mamãe — fidedigna

À sua índole de pomba — vinha-me acalentar…
Hoje, crescido, bate-me uma saudade
Grande, ao olhar esse retrato na parede!…

25-10-2010.

A Contar Estrelas

Edigles Guedes

Deitei às mãos as madrugadas insones,
Enquanto o meu travesseiro sonhava
Com essas lágrimas de crocodilo…
Não sei o que te digo ao pé desse ouvido

De mercador, se o que te falo nada
Te comoves: vás partir! — aerofone
Lírico e musical, que se inflamava
Com teus lábios de ninfa sem asilo…

Destarte, nosso Amor de cão lambido
Não passa de uma farsa malfadada!…
Dama, de pilhéria comigo, dizes

Que eu sou um vagabundo a contar estrelas…
Quem me dera findar esses felizes
Cálculos, e contar tua história bela!…

24-10-2010.

Refrães Bucólicos

Edigles Guedes

Sua mão lívida fechou-me os vãos do coração;
Aterrou-me os poços, que eu, lamentavelmente,
Cavei para dessedentar-me a sede clara,
Como o sol do meio-dia, nessa terra de sertão…

Sua mão casta, com sorriso de marfim, sente
A textura da minha pele suave e avara
Por recrear-se consigo em delírios — gráficos
De Amor olvido e, hoje, relembrado no poema

Escrito na árvore do bosque das araras…
Embala-me sua mão rota com as lágrimas,
Que regaram o jardim de utopias e ricos

Dissabores do dia a dia… Que aljôfar (cítara
Da minh’alma) persiste em cantar, melancólico,
Essa cólica de meus refrães bucólicos!…

24-10-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...