Cerdo Lápis

Edigles Guedes

O lápis – esse operário bifronte –
Que desenha na folha em branco, letras
De minério e suor da mão brutamontes,
Persegue seu instinto, sua bilontra

Mania de embromar o rabisco lerdo
Nesta noite de ferro e aço nos olhos.
O lápis, cuja tinta se mistura
Com minhas lágrimas ou essa secura

De garganta álpica sem grito. Cerdo
Lápis!… Que me suja a alhos e bugalhos
Com grafite – rota de pedras gratas…

Lápis amigo, por que escrever dardos
Me custa?… Se eu não pedi esse agasalho
De fogo (que me queima) e a mão fragata!…

7-10-2010.

Mãos Panteras

Edigles Guedes

À tarde, ela veste-se de perfume e aroma
Silvestre à espera do amado, que tece sonhos
De uma noite de verão… Então, súbito, assoma
O amado à porta de seu banal armarinho!…

Sobressalta-se a Dama sem camélias. Ufa!…
O decote do ombro deixa-se cair, qual pena
De ave canora ao desabrochar de sua alcofa…
Seu leve olho de plumas ao amado acena.

Num fotográfico movimento de corpo
Felino, ela esconde o que escondido está. Suas mãos
Ágeis como pantera. Logo, o amado crespo

De vergonha e sem pudor encolhe-se ao mundo
De caracol. Coração navega sem timão
Nesse sonho descontente de tão cacundo!…

6-10-2010.

Acesa luz

Edigles Guedes

Não sei se valeu a pena apagar
A luz da sala, e desistir de esperar
No sofá férvido, que venha chegar
Você a mim, nesta noite a me alquebrar!...

Será que você desistiria de mim?...
Mas foram tantas noites de acesa
Luz... Tantas noites de agonia no jardim
De angústia e dor... Que não sei se a surpresa

De lhe ver novamente vale a pena
Mais uma noite de sono... Essa insônia
De ver madrugadas sem Helena,

Sem Troia, sem Homero para cantar
Com sua lira decrépita as velhas glórias
De guerreiros perdidos de tanto amar!...

5-10-2010.

O Relógio Cacareja

Edigles Guedes

Uma pausa no tempo anódino, que escorpião
Inocula em mim seu veneno de velhice…
Minha pele, como página carcomida,
Estraga a laranja de sol e sua pieguice…

Descasco a laranja bendita – aporrinhação
De suco e gomos extintos no cru mordiscar
Da boca simplória… Essa intuição carótida
Do tempo desperta em mim constante peniscar

De pensamentos. Destarte, a faca abiótica –
Eis que vai descascando a superfície estadual
Do estábulo da semente cor metálica!…

Minha pele, qual epiderme da laranja,
Deflagra a ação de corte rente à pausa bambual
Do tempo. O relógio cacareja sem franjas!…

12-9-2010.

Pardal Salobro

Edigles Guedes

Um pardal fez seu ninho nos caibros da
Área de serviço, agora, alegrinho,
Vive a pipilar sua canção antípoda:
Diametralmente contrário ao carinho

Da chuva esguia, ensimesmada e oblíqua;
Contrário ao hálito – que abraço do Sol
Rubicundo!… Uma flor, reta e longínqua,
Lamenta-se da sorte de girassol

De sua partida; pois, amanhã já não
Existirá névoa flor, mas sim como
Pó de fenecida flor na contramão

De sua história de vida!… Eu (que sou beliz)
Vivo a espiar o pardal salobro e acromo,
Que pousa na pétala da flor feliz!…

12-9-2010.

Pardal Cismático

Edigles Guedes

Somos um só corpo, abraçados
Na grama verde e verrugosa,
Nesta tarde de ensolarados
Pássaros e tão brumosas

Árvores, que se emperiquitam
De tais outonos, primaveras…
Corpos bastos, que se empelicam
Na grama à ventura e à vera!…

Tarde de peitica do verde
Com o azul do céu estrábico;
Tarde de sinfonias discordes…

Na grama auriverde, dois corpos
Distraem-se co’o astrolábio
Do pardal cismático, acarpo!…

8-9-2010.

Barquinho de Aulido

Edigles Guedes

Retenho a mão cálida sobre a água
Férvida de manhã e sua liquidez…
Concebo com minhas mãos esse mar
De procelas e labirintos,

Onde um barquinho afoga suas mágoas…
O barquinho de aulido e fluidez
Desata um choro – cólica a bramar!
Ó barquinho acérrimo (insisto),

Por que vives a chorar o leite
Derramado?… Eu posso, por acaso,
Colar os cristais acafobados?

Por que são essas lágrimas, deleites
Não consumidos?… Sim, são pégasos
Choros tão contritos e derreados!…

8-9-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...