Sol de Verão



Mádido Sol de verão que
Sonha e insufla a magra vela
Do velejar; não sei o quê!…
Será que dou a boa trela?…

Máximo Sol de verão que
Me desbarata aquelas tétricas
Horas de folga; para quê?…
Se são tais horas muito céticas?…

Cálido Sol de verão que
Já me apalerma os nervos brandos…
Grifos, charadas e porquês?…

Cândido Sol de verão que
Desfralda aves mui aos bandos;
E, deslumbrado fico: o quê!…

Autor: Edigles Guedes.


Vão os Anos



Nenhum grugrulho de Poema
Desata em minha mão tão lesta…
Nenhuma Cólera ou Dilema
Portou na brava e leve aresta

Do Dia torpe ou Noite finda…
A Lua — arauto a navegar…
Navio sou e navego, inda
Que os Mares tentem me afogar…

Não sei que cais ou porto vou
Parar; porém, antes que a bordo
Comigo venha albatroz, voo

Para tão longínquos Oceanos,
Da minh’alma dentro, a cisbordo…
Passam grãos os Dias, vão os Anos…

Autor: Edigles Guedes.



Cheiro de Goiabada e Mequetrefe Marisco

Edigles Guedes

Cheiro de goiabada sobe pelo ar,
Mas é só lembrança do antigo lar,
Em que maravilhosa doceira —
Minha mãe — fazia suas guloseimas…

A atmosfera transpirava seu suor
De fogo e fogão, calor e pudor…
Ela mexia o tacho co’uma colher
De pau; colhia nos braços de mulher

Uma porção da calda; provava-a,
Que sorria para mim seu sorriso
Transcendental. O quitute aprovava!…

Hoje, eu sou tão distante, magoado?…
Hoje, eu sou um mequetrefe marisco…
Longe e longe mar, coral salgado…

4-8-2012.

Névoa Nebulosa, Magra Mágoa

Edigles Guedes

Eu marco no calendário os dias de outono,
Não procuro os quânticos números nulos,
Os quais risquei com lápis e muito sono…
Procuro saudosamente pulcros pulos

De menino introspectivo, agarrado com
Seu coelhinho branco, na cadeira branda
De balanço… Que me embalava meu sonho
De caubói: botas e esporas que tresandam…

Laços nas mãos que nada enlaçam… A nódoa
Da calça desbotada desse xerife
De plástico, que brinco de forte Apache…

Tudo é névoa nebulosa, magra mágoa
Da infância que naufragou na urbe Recife:
Quem me procura que, vistoso, não me ache!…

3-8-2012.

Se sou Peixe, não sei em que Aquário Vivo

Edigles Guedes

Peixe sou de um Aquário vagabundo?…
Ou sou peixe vira-mundo sem rumo?…
Lastimavelmente, eu esqueci o prumo
Do meu pensamento assaz fremebundo!…

Quando o Peixe dorme no Aquário, as luzes
De neônio se calam: total silêncio…
As águas calmas fazem sinal de psiu…
A Noite adentra… Estrelas são ferozes

Olhinhos luminosos de um predador
Longínquo?… Sincero, não sei por qual via
Seguir… Repentinamente, o mundo e a dor

Ficaram tão minúsculos!… Cativo
Sou dos grilhões de Amor tredo?… Todavia,
Se sou Peixe, não sei em que Aquário vivo!…

31-7-2012.

O Cucular do Cuco

Edigles Guedes

Sim … Oh! sim… Cortei o crasso cordão umbilical,
Joguei-me (feto e lodo!) pelo mundo afora,
Com estas mãos estúpidas, com esta linda
Faca de sede sádica — que passeia, de hora

Em hora, por minha carne tão cansada em mim!…
Ó mundo fel!… Despeço-me com este corte
Nos meus pulsos!… Eu despeço-me, porque feri
Abruptamente o fraco coração tão forte!…

Eia! não há o cucular do cuco?… Ou meus ouvidos
Negam-me a memória do tempo que se esvaece?…
Eu aguardo, pacientemente, os fogos olvidos

De um merencório amanhecer, o qual se tece
Pelos meandros escabrosos (desenxabidos!),
Dessa banheira de sangue — que me enternece!…

29-7-2012.

Mar Pouco

Edigles Guedes

Mar mouco que se despede da noite
Com seu sorriso aquático de delfim…
O tabuleiro de xadrez é foice
Que corta o raciocínio trágico alfim…

Mar louco, cujas ondas pragmáticas
Levam-me para o fundo de mim mesmo …
Quem sou? De onde venho? Sou gramáticas
Desbotadas, que perambulam a esmo?…

Mar rouco, responde-me!… Vens! e estimas
O meu coração com praga ou achaque
De velho poeta sem lira, sem rimas…

Mar pouco, que se esvai à proporção que
Bebo tuas lágrimas… minhas lágrimas…
Nesse copo de cólera, no alfaque…

22-7-2012.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...