Névoa Nebulosa, Magra Mágoa

Edigles Guedes

Eu marco no calendário os dias de outono,
Não procuro os quânticos números nulos,
Os quais risquei com lápis e muito sono…
Procuro saudosamente pulcros pulos

De menino introspectivo, agarrado com
Seu coelhinho branco, na cadeira branda
De balanço… Que me embalava meu sonho
De caubói: botas e esporas que tresandam…

Laços nas mãos que nada enlaçam… A nódoa
Da calça desbotada desse xerife
De plástico, que brinco de forte Apache…

Tudo é névoa nebulosa, magra mágoa
Da infância que naufragou na urbe Recife:
Quem me procura que, vistoso, não me ache!…

3-8-2012.

Se sou Peixe, não sei em que Aquário Vivo

Edigles Guedes

Peixe sou de um Aquário vagabundo?…
Ou sou peixe vira-mundo sem rumo?…
Lastimavelmente, eu esqueci o prumo
Do meu pensamento assaz fremebundo!…

Quando o Peixe dorme no Aquário, as luzes
De neônio se calam: total silêncio…
As águas calmas fazem sinal de psiu…
A Noite adentra… Estrelas são ferozes

Olhinhos luminosos de um predador
Longínquo?… Sincero, não sei por qual via
Seguir… Repentinamente, o mundo e a dor

Ficaram tão minúsculos!… Cativo
Sou dos grilhões de Amor tredo?… Todavia,
Se sou Peixe, não sei em que Aquário vivo!…

31-7-2012.

O Cucular do Cuco

Edigles Guedes

Sim … Oh! sim… Cortei o crasso cordão umbilical,
Joguei-me (feto e lodo!) pelo mundo afora,
Com estas mãos estúpidas, com esta linda
Faca de sede sádica — que passeia, de hora

Em hora, por minha carne tão cansada em mim!…
Ó mundo fel!… Despeço-me com este corte
Nos meus pulsos!… Eu despeço-me, porque feri
Abruptamente o fraco coração tão forte!…

Eia! não há o cucular do cuco?… Ou meus ouvidos
Negam-me a memória do tempo que se esvaece?…
Eu aguardo, pacientemente, os fogos olvidos

De um merencório amanhecer, o qual se tece
Pelos meandros escabrosos (desenxabidos!),
Dessa banheira de sangue — que me enternece!…

29-7-2012.

Mar Pouco

Edigles Guedes

Mar mouco que se despede da noite
Com seu sorriso aquático de delfim…
O tabuleiro de xadrez é foice
Que corta o raciocínio trágico alfim…

Mar louco, cujas ondas pragmáticas
Levam-me para o fundo de mim mesmo …
Quem sou? De onde venho? Sou gramáticas
Desbotadas, que perambulam a esmo?…

Mar rouco, responde-me!… Vens! e estimas
O meu coração com praga ou achaque
De velho poeta sem lira, sem rimas…

Mar pouco, que se esvai à proporção que
Bebo tuas lágrimas… minhas lágrimas…
Nesse copo de cólera, no alfaque…

22-7-2012.

Errabundo Desenho



Edigles Guedes

Desenhei teu rosto numa folha de papel:
Não havia cravos ou espinhas para desmanchar
A tinta nanquim e teus contornos de céu.
Tu estavas límpida, qual carpinteira a rachar

Meu coração de madeira com duro enxó
De prata, por mãos tão curtas, curvas e frágeis.
Abraço-te com braços mansos: longo amplexo
Hercúleo!… Oh! meus braços, decerto menos ágeis,

Há muito sonhavam!… No momento em que me vias,
O Sol sorria amarelo, assim meio carrancudo;
E tudo era flores, girassóis e cotovias!…

Mas, desperto-me do sono surdo e profundo…
Procuro-te por quatro paredes tão vazias,
E encontro-me contigo: desenho errabundo!…

29-7-2012.

Sansão em dor


Edigles Guedes

Em lá chegando aos braços de Amor, almeja
Minh’alma, que combaliu as tuas esquivanças!…
Depois de renhida peleja por tuas tranças
De Rapunzel, sobeja o tão grave assim seja!…

Em acolá aportando em tentáculos de Amor,
Desejo usurpar o trono dos ósculos teus,
Como a mais sedutora Dalila e filisteus
Surrupiaram grandes forças de Sansão em dor!…


Maniatados pés por tranças longas, contigo
Galgarei castelos infandos, à procura
De antídoto para Amor: doença com secura!…

Cego e reprimido por atrozes imigos,
Assim é o homem sojigado por mãos ferozes
Da Bela a quem ama: vítima e seus algozes!…

25-3-2012.

Arqueiro Cego e nu

Ó crudelíssimo arqueiro cego e rústico!…
Que se disfarça em criança angelical com asas;
No intuito de engambelar o incauto acústico,
Que anda de Amor desatento, longe de casa…

Eis quando desperta do sonho inusitado —
Que é amar sem ser amado, sem nada em troca
Almejar por Amor pérfido e figurado...
A Desilusão — fiandeira sem fio ou roca

Nas mãos — tece-me tragédia de erros, engodos…
Logo, tu, arqueiro nu e vil! desfralda-me golpe
Sagaz de tua flecha tão malcriada e sem modos!…

Se, hoje, ó sofrida Alma! despeço-me a galope
Dos braços tredos de Amor é porque denodos
Não demovem esse lobo em pele de míope!…

24-3-2012.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...