Fútil Cerco


Edigles Guedes

Em cada ambívio — que passei — topei
Com a figura mansa de minha
Carne dolorida… Ó minha Sina!
Cujas entrelinhas reli e tresli…

Mas, nada, simplesmente nada sei
Da fogueira das vaidades que arde
No meu peito de pedra de jade!…
Sigo — como tinta desinfeliz

Dessa caneta esferográfica
No papel dúplex… Onça maligna
Que se afoga em seu próprio vômito!…

Ó meu corpo! por demais sofrido:
Tenha pena de mim, pois me perco
Em cada encruzilhada — fútil cerco!…

19-3-2012.

Dinamite crua



Edigles Guedes

Madrugada opaca dentro de mim…
Não sei se o navio da Desilusão
Resolveu partir do meu vil jardim
De frustrações mil!…Ando salvo e são

Dos meus pensamentos agônicos,
Por enquanto… Amanhã, a depressão
(Doença dos Desencantos fônicos)
Fará de mim um feto sem ventre!…

Sinto-me tal como mais um dentre
Milhares de corpos tardios, cuja
Gula — ou pecado pútrido — suja

A alma carente de luz e explosão!…
Sou uma dinamite crua sem pavio:
Perco-me em cada noiva de atavio!…

19-3-2012.

Um Reles trem e Fêmea Fumaça



Edigles Guedes

Um trem veio que veio: fumaça chegou.
A gare superlotou de mimos,
Paletós ambulantes, sorrisos
Transeuntes, cheiro forte de cobu!…

Um trem descarrilhou sua fumaça.
Narinas – civilizadamente
Sujas – limpam-se aos lenços. Desgraça
De trilhos que não passam: demente!…

Um trem e sua fumaça de maria.
Perfume que se evapora. Nuvens
Negras em branco dia: um quê sem ira!…

Um reles trem – só máquinas nas veias –
E fêmea fumaça de felugens
Rompem a manhã de teias tétricas!…

10-3-2012.

Meu Coração Duro


Edigles Guedes

Despeço-me do monstro marinho
Sem lenço na mão para acenar-lhe
Um adeus de longuíssima data!…
Não trago comigo esse carinho

De infância perdida ao saltar pipas,
Brincar de esconde-esconde… Fiz tripas
Meu coração duro, empedernido…
Eis que nem martelo com rugido

Quebra-lho em fagulhas!… Oh! desata
Esse cálice de mim na calhe
Que sigo por entre pulcras pedras!…
 
Quanto me pesa um adeus não dito!…
Levo na bagagem o olho fito
Na muralha: que pedras! mais medra!…

10-3-2012.

Esse rio


Edigles Guedes

Ah! esse rio – sem cabeçalho
Ou rodapé – atravessou-me
Braços largos o bandalho
Do homem que sou!… Entristeceu-me

Deveras. Frio e caudaloso
Rio que trafega no vácuo,
Que há fora de mim… Sinuoso
E frio, o rio assoma que inócuo!…

Eu não sei que névoa anuvia
Meus olhos – pavios tão cegos!…
Mas sei que o rio segue por via

Jamais vista na pradaria…
Moles, míticos morcegos
Sobrevoam rio, frio, calmaria!…

9-3-2012.

Quando me Roubaste



Edigles Guedes

Quando me roubaste o Coração brando…
A sequidão devorou-me, portanto.
Sofri calafrios de prantos; enquanto,
Pela estrada afora e sozinho, eu ando…

Quando me roubaste a Razão túrbida…
O deserto fez flor no sentimento…
O que era belo se tornou lamento…
Descida sem encontro de subida…

Quando me roubaste os pios pensamentos
Secretos, piíssimos, dentro da caixa
Da minh’alma: eu sorri contentamentos!…

Quando me roubaste, insana mocinha,
O meu sorriso d’alma com sua baixa
Autoestima: eu voei que voei bem asinha!…

9-3-2012.

Prometeu Acorrentado



Edigles Guedes

O passado devorou-me o futuro…
Nenhuma Mágoa pousou em meu coração?…
Quiçá uma Mágoa bruta me embotasse
O paletó da garganta!… Monturo,

Talvez, de ideias e amores tão fugazes!…
Ideias que padecem por sua inanição!…
Amores que se vão sem pingos esses!…
Eis minh’alma devorada, e vorazes,

Por abutres ferozes… Oh! mimosa
Alma que fenece com o fogo brio
Dos homens!… Existências lamentosas,

Pois não são deuses – tão cru somente pó
Das cinzas!… Somos sombras de um desvario…
Fênix sem cauda e sem asas: um cepo!…

9-3-2012.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...