Abraços Amargos


Edigles Guedes

Instantâneo segundo, que passo sem olhar
Fundo nos olhos de minha Dama, uma náusea
Bruta brota no meu peito de árvore pérsea!…
Mas, o outono chega: eis pungente esse desfolhar

De olhos castanhos, tão castos quanto suaves são;
Que seduzem e encantam límpido coração
Aventureiro, qual Xerazade com lábias
Mil na boca enganadora… Loucas e sábias

Palavras misturam-se em grão caldo de cana…
A Noite dadivosa vem pé de mansinho,
Com seu odor de blandícia, carícia e carinho…

Sem pedir licença, entra perfume de alfana
Nas minhas narinas; ouço os passos mui largos
De minha Flor: eis nossos abraços amargos!…

12-10-2011.

Coração Empedernido e a Túnica



Edigles Guedes

Trancaram a porta do meu coração,
E jogaram as chaves por rua afora.
Procuro-as embalde; resta-me, agora,
Amar a Senhora sem admoestação.

Que chaves são? De que metal a forjaram?
Pois, se cai, não fica no chão; se a pego
Em minha mão, já escorrega. Chamego
Imenso entre mim e você. Chegaram

Seus dedos miúdos, apalpando a carne
Magra de ossos moribundos. O farne
Ameaça-me com sua faca lúbrica.

Que indústria fabricou a porta que fecha
Esses dedos sem chaves, que me flecha
O coração empedernido e a túnica?

12-10-2011.

Procura-se um Tropeço


Edigles Guedes

Procurei um sentido no sem sentido que sente
A alma gemente da gente, que anda descontente
Com o Fado: artista arlequim, guizos de Lua algente,
Malcriada e fatal mulher de olho concupiscente.

De tanto procurar esqueci-me de achar o que
Procurava; como tenra criança com bilboquê,
A qual se esquece do tempo com terno brinquedo
Na mão cândida e venturosa. Sim, corro e quedo.

Almejo alcançar o infinito do pensamento,
Desbravar a aventura néscia do sentimento,
Destronar do meu coração trágico lamento.

Ó alma tremente! se logrei meu intento, conheço
O fim do fio da meada que procuro; o começo,
Mas é duro; por isso, quero lembrar… tropeço!  

8-10-2011.

Cerca Viva de Lábios


Edigles Guedes

Ilustra-te com a diária leitura
Dos meus lábios carnais e vacilantes…
O que a letra, dura e ruda, pendura
Nas frautas lábios teus tão delirantes?…

O preto e o branco da página calam
Sílabas mudas, escondidas – tidas
Como ocultas. Os tritongos que ocultam
Rebombos de beijos. Toque de Midas

Que muda teus lábios em ouro puro!…
Ditongos que falam da roda e furo
Do parafuso sem volta, ou muro

Sem cerca elétrica – essa cerca viva,
Com espinhos e tuas rosas, cativa
Tua língua acre em minha língua nativa…

8-10-2011.

A Vingança da Sédia


Edigles Guedes

Sentava-se naquela cadeira acolchoada.
E, confortavelmente, lia os jornais caducos
Da semana passada: lá, monges malucos,
Budistas, incendiavam almas desalmadas.

Impassível, nenhuma compaixão desagua
Em seu coração de touro bruto: reduto
De ignomínias, de opróbios; ele, pois, é fruto
Do leito de infortúnio e da incontida mágoa.

Triste e decepcionada, a sédia gela grito;
E escorregam pés ambulantes. Fez-se mito
A queda do homem por singela, porventura.

Mas, eu não sou herói algum de revista em quadrinhos;
Antes, ingente floresta sem passarinhos,
Porquanto compaixão se tornou desventura.

7-10-2011.

Amor Maduro em Caixa de Chumbo


Edigles Guedes

Tu inoculas teu veneno de serpe
Aleivosa, que me engana como Eva
Embrulhou Adão no Jardim do Éden. Treva
Logrou ambos com sua língua, trapuz, de erpe!

Mas, é doce a peçonha que me adoça
O Fado ingente. Louca, consomes chá
De meus passos, após receber crachá:
“Ando a servir ao próximo por troça!”

Tu és serpente tremente de ódio por mal
Que nunca fiz a ti, antes salvaguardei
Nosso Amor maduro em caixa de chumbo.

Se Amor adoeceu em profundeza abismal,
Certamente a ele jamais eu reservei
Maléficos intentos, sons de zumbo!

3-10-2011.

Moira


Edigles Guedes

Já era Noite pálida, quando Moira chegou,
E armou o bote de serpe maliciosa, e disse:
– Ó homem, por que caminhas? Pensas (iludido)
Que tu, reles mortal, fazes o teu caminho?

Aprendes co’o furibundo Aquiles. Apagou
Quem sua chama de vida por amar a misse
Briseida, escrava bela, que cativou o lido
Coração do guerreiro aquileu? Passarinho

Agoureiro eu fui, na Guerra de Troia. Quem sabe
Disso, deveras, foi o aedo Homero, pois cabe
Em sua Ilíada as teias que lancei em seus heróis gregos…

A desoras, exausto de ouvir Moira terna,
Retruco: – Ainda que escarneças de mim, ó eterna
Desventura, eu prefiro-te a viver morcegos!…

3-10-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...