A Vingança da Sédia


Edigles Guedes

Sentava-se naquela cadeira acolchoada.
E, confortavelmente, lia os jornais caducos
Da semana passada: lá, monges malucos,
Budistas, incendiavam almas desalmadas.

Impassível, nenhuma compaixão desagua
Em seu coração de touro bruto: reduto
De ignomínias, de opróbios; ele, pois, é fruto
Do leito de infortúnio e da incontida mágoa.

Triste e decepcionada, a sédia gela grito;
E escorregam pés ambulantes. Fez-se mito
A queda do homem por singela, porventura.

Mas, eu não sou herói algum de revista em quadrinhos;
Antes, ingente floresta sem passarinhos,
Porquanto compaixão se tornou desventura.

7-10-2011.

Amor Maduro em Caixa de Chumbo


Edigles Guedes

Tu inoculas teu veneno de serpe
Aleivosa, que me engana como Eva
Embrulhou Adão no Jardim do Éden. Treva
Logrou ambos com sua língua, trapuz, de erpe!

Mas, é doce a peçonha que me adoça
O Fado ingente. Louca, consomes chá
De meus passos, após receber crachá:
“Ando a servir ao próximo por troça!”

Tu és serpente tremente de ódio por mal
Que nunca fiz a ti, antes salvaguardei
Nosso Amor maduro em caixa de chumbo.

Se Amor adoeceu em profundeza abismal,
Certamente a ele jamais eu reservei
Maléficos intentos, sons de zumbo!

3-10-2011.

Moira


Edigles Guedes

Já era Noite pálida, quando Moira chegou,
E armou o bote de serpe maliciosa, e disse:
– Ó homem, por que caminhas? Pensas (iludido)
Que tu, reles mortal, fazes o teu caminho?

Aprendes co’o furibundo Aquiles. Apagou
Quem sua chama de vida por amar a misse
Briseida, escrava bela, que cativou o lido
Coração do guerreiro aquileu? Passarinho

Agoureiro eu fui, na Guerra de Troia. Quem sabe
Disso, deveras, foi o aedo Homero, pois cabe
Em sua Ilíada as teias que lancei em seus heróis gregos…

A desoras, exausto de ouvir Moira terna,
Retruco: – Ainda que escarneças de mim, ó eterna
Desventura, eu prefiro-te a viver morcegos!…

3-10-2011.

Fruto que se Come por Miúdo



Edigles Guedes

Se me apaixonei por teu ombro curvo…
A culpa, decerto, não fora minha;
Porém, sim, dessa curva, ora daninha,
Que faz o teu ombro baloiçar tão turvo.

É que paixão se sofre o sofrimento
À toa; como andorinha, sozinha, voa
Para longe… E muito distante ressoa
Seu uivo de dor e duro passamento…

É mítica a cadeira de balanço
De teu molejo: requebro, sem ranço,
De ombro que estonteia meu ser carrancudo!…

Pois, quer frígida, quer libidinosa,
Apaixonei-me, decerto, ó incendiosa
Paixão: fruto que se come por miúdo!…

2-10-2011.

Corações Engrinaldados



Edigles Guedes

Lembro-me do retrato na parede do nosso
Quarto de dormir. Nossos olhos enamorados clamam
Um pelo outro, em suspiros de desejos; declamam
Poemas eróticos às quatro paredes!… Que osso

É a vida!… Foi ontem que subimos, jungidos beijos,
A ladeira do tálamo. Tu estavas formosa;
Esplendias com todas as primaveras!… Oh! rosa
Do meu jardim de Amor e delícias… Onde queijos

De Lua se esconde do paladar da minha boca,
Fremente de prazer e gozo?… Sim, eis quão louca
Paixão me consome o íntimo meu ser… Quiçá ninguém

Me escute o dessegredo… Ó coelhinha na toca
De amores! acolhida nos meus braços de mouca
Libido, que pena! sou na alcova mais um alguém!…

2-10-2011.

Sereia dos meus Olhos



Edigles Guedes

Ai de mim! Pois, desde que pus meus olhos
Nos olhos teus, desfaleceu-me os cegos
Olhos meus… A escuridão de abodegos
Do dia é mais escura!… Noites aos piolhos

Dadas, que latejam nos meus pesares
Pensamentos de olhos quão lastimosos!…
Meditabundos olhos escumosos,
Que me levam por navegados mares!…

Mares abismosos que calam dores
De absíntio! que calam esses amores
Por alheia Dama ao meu querer!… Oh! sereia

De canto mavioso, e aleivoso, e tredo,
Em que ilha tu devoraste tão cedo
Meu coração marinheiro, que serpeia?…

2-10-2011.

Cabelos


Edigles Guedes

Lindos, mui lindos, esvoaçavam naquela tarde
De verão. Madeixas negras; e negras pérolas
De cabelos longos, pendurados nas espáduas
De Dama bela, cujos fulgores ainda me arde

No peito mancebil. Fulguras tal qual cometa,
Com sua cauda celeste de grãs madrepérolas…
Ágeis, escorrem lebres, tais línguas de tamanduás,
Que descem de tua cabeça – embarcação corveta…

Flexíveis, esfumaçam seu odor: flor de magnólia
Que se espraia pelo ar sereno. Luar de malencolia
Inunda o firmamento – aquele xadrez de estrelas…

Eis que, cá dentro, flui e punge-me as sensações várias
De quem ama esses cabelos, que me riscam co’ árias
De clássica valsa, que me fogem sem dar trelas!…

2-10-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...