Edigles Guedes
Deste-me um beijo de chocolate. A janela
Do tílburi estremeceu-se da sua cabeça
Aos pés do cocheiro, que chicoteava veloz
O cavalo baio… Tu coravas, amarela
De vergonha, diante do sobressalto à beça
Do pangaré… Enquanto eu agarrava-me co’ atroz
Esperança à ilusão de que Amor jamais fugia
A galope de seu destino — fado amigo!…
Enganei-me, como se deixa enganar todo
Caríssimo coração apaixonado… Rugia,
Então, em mim, esse desespero!… Cá comigo,
Eu que disse: — É melhor guardar no cofre da nau
Memória esse inseto momento que, a rodo,
Sofrer de Amor sem uma foto de nosso luau!…
22-10-2010.
Inspire-se. Surpreenda-se. Viva com leveza. Aproveite os sonetos. O romance. A desilusão. O amor. Leia e curta.
Pele de Carmesim
Edigles Guedes
Quando sentas nos meus joelhos,
A perna fica-te, sonsa,
Pendendo de cá para lá,
Como um pêndulo e aparelhos
De bom relojoeiro… Mansa
Voz afaga-me… Que opalas
São as tuas mãos!… Devagar, como
A caspa sem asma, eu fio-me
Nos teus cabelos tão louros
Para acudirem, sim, a mim
Os teus beijos flamívomos…
Susténs os chinelos, firmes,
Com os dedinhos calouros
E tua pele de carmesim…
22-10-2010.
Quando sentas nos meus joelhos,
A perna fica-te, sonsa,
Pendendo de cá para lá,
Como um pêndulo e aparelhos
De bom relojoeiro… Mansa
Voz afaga-me… Que opalas
São as tuas mãos!… Devagar, como
A caspa sem asma, eu fio-me
Nos teus cabelos tão louros
Para acudirem, sim, a mim
Os teus beijos flamívomos…
Susténs os chinelos, firmes,
Com os dedinhos calouros
E tua pele de carmesim…
22-10-2010.
Demovo-me
Edigles Guedes
Com sapatinhos de cristal, minha donzela
Dança co’o vento — esse cavalheiro invisível…
Rodopios e saracoteios de bailarina
Exímia na arte encantatória de gazela…
Eu perco-me ao olhar sua destreza de circo:
Baila, tal se estivesse a cavalo no vento;
E o vento fosse um potro azul e branco — aprisco
Desses sonhos e fantasias de tremulento?…
Todavia, tudo que é bom, dura muito pouco:
Acabas de redemoinho inacreditável
Nos meus braços de carinho… Eu, que cego e mouco,
Entonteço com seu sagaz charme de fera
E abóbora!… Foi-se como penicilina…
Demovo-me com sua carruagem de megera!…
21-10-2010.
Com sapatinhos de cristal, minha donzela
Dança co’o vento — esse cavalheiro invisível…
Rodopios e saracoteios de bailarina
Exímia na arte encantatória de gazela…
Eu perco-me ao olhar sua destreza de circo:
Baila, tal se estivesse a cavalo no vento;
E o vento fosse um potro azul e branco — aprisco
Desses sonhos e fantasias de tremulento?…
Todavia, tudo que é bom, dura muito pouco:
Acabas de redemoinho inacreditável
Nos meus braços de carinho… Eu, que cego e mouco,
Entonteço com seu sagaz charme de fera
E abóbora!… Foi-se como penicilina…
Demovo-me com sua carruagem de megera!…
21-10-2010.
Chove Deveras
Edigles Guedes
Eu encontro-me que deitado
Nessa verde grama enjoada…
Uma nuvem, que magoada,
Passa no céu despeitado
Diz para si mesma: — Eis que
Minha vida é ave sem graça,
Um desengonçado parque
De diversões nessa caça
Por passeios daqui pra acolá!…
O vento, que cavalgado
Anda, disse-lhe: — Carola
Nuvenzinha, inda hoje serás
Chuva… Aliás, de braços dados
Co’a grama, chove deveras!…
21-10-2010.
Eu encontro-me que deitado
Nessa verde grama enjoada…
Uma nuvem, que magoada,
Passa no céu despeitado
Diz para si mesma: — Eis que
Minha vida é ave sem graça,
Um desengonçado parque
De diversões nessa caça
Por passeios daqui pra acolá!…
O vento, que cavalgado
Anda, disse-lhe: — Carola
Nuvenzinha, inda hoje serás
Chuva… Aliás, de braços dados
Co’a grama, chove deveras!…
21-10-2010.
A Senha
Edigles Guedes
Um lenço de dama bela
Cai no atoleiro da bacia
De algodão doce!… Eu recolho-o
E guardo-o junto comigo.
Contudo, minha donzela,
Percebo que sua ventania
É de Amor por esse abrolho
De sentimento mui ázigo!…
Oh! não vês que ele não te ama…
Oh! não vês que ele desdenha
Da rosa que lhe quer tanto
Bem… Choras, porque te acalmas!…
Enquanto eu recolho a senha
Para o teu coração ingrato!…
21-10-2010.
Um lenço de dama bela
Cai no atoleiro da bacia
De algodão doce!… Eu recolho-o
E guardo-o junto comigo.
Contudo, minha donzela,
Percebo que sua ventania
É de Amor por esse abrolho
De sentimento mui ázigo!…
Oh! não vês que ele não te ama…
Oh! não vês que ele desdenha
Da rosa que lhe quer tanto
Bem… Choras, porque te acalmas!…
Enquanto eu recolho a senha
Para o teu coração ingrato!…
21-10-2010.
Pingos Tênues
Edigles Guedes
A chuva cai e canta, pasma,
O seu canto de pio sabiá,
Dependurado na gaiola,
Defronte ao chuveiro… Que asma
É essa de quem sequer sabia
Da respiração da viola?…
De seus medos a dedilhar
De chuva e Amor este meu ser
Tão pequeno e tão prudente…
Sinto-me como pimpolhar
De pingos tênues… Ah! tecer
As madrugadas sem dentes,
Tal qual ouvir de são ouvido
Canto de quem vai bem-ido!…
20-10-2010.
A chuva cai e canta, pasma,
O seu canto de pio sabiá,
Dependurado na gaiola,
Defronte ao chuveiro… Que asma
É essa de quem sequer sabia
Da respiração da viola?…
De seus medos a dedilhar
De chuva e Amor este meu ser
Tão pequeno e tão prudente…
Sinto-me como pimpolhar
De pingos tênues… Ah! tecer
As madrugadas sem dentes,
Tal qual ouvir de são ouvido
Canto de quem vai bem-ido!…
20-10-2010.
Esse Jardim com tuas Prosas
Edigles Guedes
Não se pode queixar de mim!…
Por que eu não sei do tanto
Que tu te queixas no jardim?…
Se há tantas rosas… e quantos
Cravos há à porta desse ente
Querido… Quem sou eu para
Duvidar de teu presente,
Amor?… Se vivo de aparas
Da minh’alma desgastada!…
Se eu respiro do próprio ser,
Quem sou, essa minha frustrada
Viagem ao interior da rosa
Ou do cravo!… Ah! Quiçá hei de ter
Esse jardim com tuas prosas!…
20-10-2010.
Não se pode queixar de mim!…
Por que eu não sei do tanto
Que tu te queixas no jardim?…
Se há tantas rosas… e quantos
Cravos há à porta desse ente
Querido… Quem sou eu para
Duvidar de teu presente,
Amor?… Se vivo de aparas
Da minh’alma desgastada!…
Se eu respiro do próprio ser,
Quem sou, essa minha frustrada
Viagem ao interior da rosa
Ou do cravo!… Ah! Quiçá hei de ter
Esse jardim com tuas prosas!…
20-10-2010.
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