Marionete Pícara

Edigles Guedes

De repente, tal qual elefante que agarra
Certo objeto de estimação pela tromba,
Eu lancei a ti o meu olhar comprido e pernas bambas…
Quedara-me da cadeira de balanço,

Quando percebi que teu braço franco amarra
O cadarço de teu lábio ao sapato atroz
De meu beijo!… Ah! eis que me senti tão veloz
Passarinho a correr frívolo em teu encalço…

Assim, pruridos de pensamentos estivos
Invadem-me a alma cativa de teus olhares…
O que fiz para merecer favor esquivo

De tua benevolência, de tua atenção para
Comigo?… Ah! quem me dera que pernas hílares
Tuas fizessem-me uma marionete pícara!…

16-10-2010.

Colher Cabelos

Edigles Guedes

Colhi os teus cabelos na palma da minha mão…
Eles eram tão suaves plumas, que adejaram
Serelepes; eis se vão, sem me pedir perdão…
Perdão de quê?… Logo, todos me perguntam.

Perdão por me machucarem com esperanças,
As quais — como onda de mar aberto — levam
E trazem saudades de Amor perdido… Crianças
Peraltas e traquinas são os teus cabelos!…

Ó cabelos rubros e ruivos! que me raivam
Com tuas plumas esvoaçantes, ao escarnecerem
De mim, nesta tarde de olhos brandos e belos!…

Ó cabelos! que os colhi com bastante zelo
Na palma da minha mão!… Eis que ao alvorecerem
Os tênues anos jamais verão igual anelo!…

16-10-2010.

Ave que Borbotoa

Edigles Guedes

Eu estou de emboscada na sala de estar,
Meus olhos rifles estão atentos às mãos
E pés de minha presa facínora…
Eu sorvo aos goles de sedento esse ar

De ansiedade ou de angústia. Na contramão
Do Destino, acuado em abóbora aurora,
De relance, eu vejo tuas mãos sensatas
Rogar-me um ósculo de pele a pele!…

Os rifles dos meus olhos desfalecem…
As tuas mãos sequestram, como piratas,
O meu fôlego de epiderme imbele…

Ah! doces tiros de beijos!… que tecem
A sala de estar com esse perfume
De mulher — ave que borbotoa implume!…

16-10-2010.

Tentáculos Víperos

Edigles Guedes

Tentar é inútil desvencilhar-se dos braços
Meus; eles são tentáculos miraculosos
Dalgum polvo que mora no mar assombroso,
E que não tem medo ou pejo de teus laços…

Ó tentáculos víperos! que me arrebatam
Suspiros do meu peito infante, quando chega
De mansinho a Dama dos meus sonhos… Ó cega
Paixão, que me abrasa!… Aos borbotões, desatam

Beijos na grama parida de borboletas…
Ó tentáculos viperinos! que me entrançam,
À boca da lua, os meus lábios nos lábios dela!…

Já não sei que estrela fulgura, agora, alerta,
Em meus braços bem-fadados!… Ah! em mim balançam
Essas tranças de cabelos com suas procelas!…

16-10-2010.

Sonhos e Nudez

Edigles Guedes

Pejada de sonhos e nudez, calma
E serena, olhas-me com teu semblante
Melancólico, como se consoante
Perdesse entre vogais as puras palmas!...

Suplico-te: — Me não olhes co’esses olhos
De caramelo, com vislumbre e sabor
De chocolate; pois, eu (por claro Amor)
Sou capaz de fazer porta e ferrolhos!...

Eu sei que teus lânguidos olhos passeiam
Pela nudez de teu ventre materno...
E quantos sonhos teus bons olhos refreiam!...

Há uma criança fogosa para nascer...
Há um verso de desencanto paterno,
Que, frouxamente, em mim virá a crescer!...

15-10-2010.

O Lago Pérfido e suas Águas

Edigles Guedes

Por que me trouxes a este lago de pérfidas
Ilusões?... Se sabias que sou homem de acanhadas
Palavras na boca mofina e desgrenhada...
Se sabias que boas conversações e fingidas

Juras de Amor me dizias tão placidamente,
Como as águas deste lago e suas correntes...
Ah! feroces águas, que prendem o meu jeito
Ao peito da minha amada... No meu leito

De Amor eu quero os teus beijos aleivosos...
Ah! atroces águas, que inundam o meu tão nobre
Ser com esse desejo assaz cobiçoso!...

Por que me trouxes a este lago?... Se me não crês,
Se eu sou para ti metal tão vil como o cobre…
Ah! veloce lago cândido, que me é cortês…

15-10-2010.

Canto de Moinho Monso

Edigles Guedes

Cada qual canta como lhe ajuda a garganta,
Diz o bom e velho provérbio popular...
Contudo, eu (que me desvaneço ao especular
Sobre as causas de minha pústula infanta)

Já não sei que padecimento é este, que me vai
N’alma assomando, assim devagarinho, sonso;
Já não sei porque tal falecimento se esvai
De meu legítimo canto de moinho monso...

Ó dolorosa garganta!... Que me não convém
Admoestar esta dor ladina no meu peito!...
Pois, os males de Amor não se espantam com cantar,

Inda que seja canto de sereias... Ai! que vem
Em mim o sofrer pérvio por Amor eleito!...
Pois, de males de Amor sentimos nau a navegar!...

15-10-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...