Edigles Guedes
Há um silêncio que se deliu na aurora…
Ázigos ventos brincam na varanda…
Uma folha fúcsia, pálida, ancora
Em meus pensamentos, numa ciranda
De crianças espevitadas, correndo
Pelo quintal afora, sem demora,
De pernas céleres. Vida tecendo
Seu ramerrão… A rotina vai-s’embora,
Quando um papagaio rabugento quebra
O silêncio em pedaços de mil vidros.
Acordo, e quase caio da boa cadeira
De balanço; suspiro: − Ufa! Que zebra!…
Quem me mandou olhar, ver navios anidros?…
A vida é uma madame alcoviteira?…
7-9-2010
Inspire-se. Surpreenda-se. Viva com leveza. Aproveite os sonetos. O romance. A desilusão. O amor. Leia e curta.
Anélito de Tarântula
Edigles Guedes
Trago comigo o seu hálito em boca alheia…
Que anélito é este que incendeia corpo
E tráfego aéreo de falas e suas teias?
Fôlego de tarântula – no escopo
Da linguagem rupestre e tão ríspida,
No espaço de um risco nas entrelinhas
De meus pensamentos vaus… Insípida
Pulga dúbia, débil, dúctil, se aninha
Minh’alma: − Quantas bocas esse bafo
Já beijou? Quantas vezes… prometeu-me
Ósculos de Amor e felicidades?
A pulga atrás da orelha – desabafo
Da consciência – tem razão. Hálito deu-me
De tarântula esse cuspe de grude!…
5-9-2010.
Trago comigo o seu hálito em boca alheia…
Que anélito é este que incendeia corpo
E tráfego aéreo de falas e suas teias?
Fôlego de tarântula – no escopo
Da linguagem rupestre e tão ríspida,
No espaço de um risco nas entrelinhas
De meus pensamentos vaus… Insípida
Pulga dúbia, débil, dúctil, se aninha
Minh’alma: − Quantas bocas esse bafo
Já beijou? Quantas vezes… prometeu-me
Ósculos de Amor e felicidades?
A pulga atrás da orelha – desabafo
Da consciência – tem razão. Hálito deu-me
De tarântula esse cuspe de grude!…
5-9-2010.
Estúrdio de Amor, Náufica nau
Edigles Guedes
Eu estúrdio estou, logo depois que a vi; atra
Dama camoniana, que me dilata
Amor sem cabeça com pé pilantra,
Que me faz pervagar noites leucantas!…
Eu estúrdio estou, tão estúrdio de mim eu ando,
Que o canto do colibri faneranto
Dói-me no acalanto d’alma… Seu pranto,
Meu pranto é: de quem perdeu o memorando
Dessa alma moça – abstêmia de sua aridez!…
Estúrdio, pois eu não me desvencilhei,
Das madeixas que são grilhões de minha
Alma; que me deixa na desenxabidez
De nau sem porto, sem farol. Eu encilhei
Minh’alma, sim, em náufica nau asinha!…
5-9-2010.
Eu estúrdio estou, logo depois que a vi; atra
Dama camoniana, que me dilata
Amor sem cabeça com pé pilantra,
Que me faz pervagar noites leucantas!…
Eu estúrdio estou, tão estúrdio de mim eu ando,
Que o canto do colibri faneranto
Dói-me no acalanto d’alma… Seu pranto,
Meu pranto é: de quem perdeu o memorando
Dessa alma moça – abstêmia de sua aridez!…
Estúrdio, pois eu não me desvencilhei,
Das madeixas que são grilhões de minha
Alma; que me deixa na desenxabidez
De nau sem porto, sem farol. Eu encilhei
Minh’alma, sim, em náufica nau asinha!…
5-9-2010.
Gato Cacófato
Edigles Guedes
Folga-me tarde branda de seu aflato!…
A lés-nordeste de mim, eu me encontro
Tão insular quanto um gato cacófato
Na manhã de setembro. Então, dentro
De mim para comigo, eu sei que a tarde
Inflama no meu peito sadio, engodo
De horas preclaras ao lado da sede,
Que me torna tão humano degredado!…
Trancado na jaula do corpo, minha
Alma sente-se como um carboidrato
Sem pulo efervescente de suas bolhas!…
Sente-se como gato que se aninha
Num salto solerte (que eu não desato);
Sente-se qual flutuante pia sem rolha!…
2-9-2010.
Folga-me tarde branda de seu aflato!…
A lés-nordeste de mim, eu me encontro
Tão insular quanto um gato cacófato
Na manhã de setembro. Então, dentro
De mim para comigo, eu sei que a tarde
Inflama no meu peito sadio, engodo
De horas preclaras ao lado da sede,
Que me torna tão humano degredado!…
Trancado na jaula do corpo, minha
Alma sente-se como um carboidrato
Sem pulo efervescente de suas bolhas!…
Sente-se como gato que se aninha
Num salto solerte (que eu não desato);
Sente-se qual flutuante pia sem rolha!…
2-9-2010.
Pingo Giganteu
Edigles Guedes
Pés mimeógrafos apalpam-me as chagas:
Pústulas − ginásios de Amor ferido.
Parcos sorrisos de anágua e babados
Esboroam em meus recurvos sentidos!…
Transborda em mim um sentimento: praga
De ametista e ameixa maldormida,
Noite de psitacídeo encabulado!…
Afogo-me de peixe sem guarida
Debaixo de tuas asas angelicais;
Escondo-me nos lençóis de teu rosto,
Como quem vai a seguro e lídimo cais!…
Estrôncio de mim, eu emendo-me co’o teu
Sorriso − sereia célere, sol-posto
Num pingo de paraíso tão giganteu!…
1-9-2010
Pés mimeógrafos apalpam-me as chagas:
Pústulas − ginásios de Amor ferido.
Parcos sorrisos de anágua e babados
Esboroam em meus recurvos sentidos!…
Transborda em mim um sentimento: praga
De ametista e ameixa maldormida,
Noite de psitacídeo encabulado!…
Afogo-me de peixe sem guarida
Debaixo de tuas asas angelicais;
Escondo-me nos lençóis de teu rosto,
Como quem vai a seguro e lídimo cais!…
Estrôncio de mim, eu emendo-me co’o teu
Sorriso − sereia célere, sol-posto
Num pingo de paraíso tão giganteu!…
1-9-2010
Olhar Casto do Amor
Edigles Guedes
Eis o vento, minha filha: você não
Pode colhê-lo com as mãos em concha
De oceano Atlântico das luzes, senão
O sargaço, enciumado, esse cangoncha,
Faz beicinho e cara feia para você,
Minha donzelinha de papai cheirar!…
Eis o vento, ele não fia, arrefece-se
Co’o clímax tanajura; vive a joeirar
As folhas saídas de baixo de árvores –
O vento, traquino, gosta apoquentar.
Eis que o vento mallarmaico, de odores
Selvagens, consigo carrega sua dor:
A dor de ver o que vejo e não tatear,
A dor de amar pelo olhar casto do Amor!…
31-8-2010.
Eis o vento, minha filha: você não
Pode colhê-lo com as mãos em concha
De oceano Atlântico das luzes, senão
O sargaço, enciumado, esse cangoncha,
Faz beicinho e cara feia para você,
Minha donzelinha de papai cheirar!…
Eis o vento, ele não fia, arrefece-se
Co’o clímax tanajura; vive a joeirar
As folhas saídas de baixo de árvores –
O vento, traquino, gosta apoquentar.
Eis que o vento mallarmaico, de odores
Selvagens, consigo carrega sua dor:
A dor de ver o que vejo e não tatear,
A dor de amar pelo olhar casto do Amor!…
31-8-2010.
Céus sem Alças
Edigles Guedes
Nenhuma arte na porta da sala de
Estar, nenhum caminhar de cágado
Com os passos rentes ao ser de alarde
Em mim, nenhum barulho endomingado,
Nenhum cheiro no meu rosto de abrolhos
E vácuo dos automóveis cortantes
Dentes, nenhum fungar de esbeltos olhos,
Nenhum dourado beijo de pé arfante…
Mas, vestida, qual Dama da Camélia,
Você desalinha da gravata o nó.
Você diz-me doces sem contumélia;
Você desata-me o cinto da calça;
Você deixa-me estarrecido, áfono;
Você transforma a terra em céus sem alças!…
31-8-2010.
Nenhuma arte na porta da sala de
Estar, nenhum caminhar de cágado
Com os passos rentes ao ser de alarde
Em mim, nenhum barulho endomingado,
Nenhum cheiro no meu rosto de abrolhos
E vácuo dos automóveis cortantes
Dentes, nenhum fungar de esbeltos olhos,
Nenhum dourado beijo de pé arfante…
Mas, vestida, qual Dama da Camélia,
Você desalinha da gravata o nó.
Você diz-me doces sem contumélia;
Você desata-me o cinto da calça;
Você deixa-me estarrecido, áfono;
Você transforma a terra em céus sem alças!…
31-8-2010.
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