Velha Ingrácia

Edigles Guedes

Rasga o verbo conosco. Corríamos
Pela cozinha de casa, brincando
De pique-cola. A gargalhar, sorríamos!…
Essa velha Ingrácia vociferando!

Ácido ascórbico em cápsulas alvas
Cheirando a roupa branca da saudosa
Negra Ingrácia. Ó quanta saudade fulva
Da negra Ingrácia!… Doméstica aftosa

Nos calos de meninos! E os seus doces?
Ela era doceira de mancheia!… Ímpares
Salgadinhos pulam na frigideira!…

Hoje, meus olhos passeiam bem veloces
Em casa, buscam os olhos ácares
Da velha Ingrácia. Por onde ela andará?…

15-8-2010.

Maré sem Chassi

Edigles Guedes

Sussurro duma brisa claudicante,
Murmúrio sem água potável, guapo
Peixe navegando a sirte do existir.
Doce páramo, lago aconchegante!…

Tarde sem verão de permeio, feio sapo
De cócoras em sua terra de fremir
O frio – que vem cavalgando esse monte!…
O mesmíssimo frio de pedra… Anteontem,

Uma estrela cadente veio “post mortem”
Passear na Terra, e escafedeu-se no mar.
A vida de astro é tão breve celeste

Quanto à morte da mariposa de Assis!…
Duro é recalcitrar co’agulhas, remar
Contra o ferro-velho – maré sem chassi!…

15-8-2010

Psiu sem Noite

Edigles Guedes

Um ventilador velho e vuco-vuco
Resfria o dia deitado na cama alada!
Um cansaço e bom relógio sem cuco
Discorrem sobre a álgebra da salada

De frutas na cozinha fantástica
De minha casa! Há um mundo prodigioso
Dentro da minha cachola rasa e esférica!
Um mundo de homem mudo e langoroso!

Um liquidificador persistente
Tritura as matérias (banana e maçã)
Em seu forno a jato e recalcitrante!

Um tetéu, na vigília do pernoite,
Canta seu cântico de ave ribaçã?
Tudo é abracadabrante psiu sem noite?

15-8-2010.

Céu Aliseu

Edigles Guedes

Madrugada incólume, em que o grilo canta
Seu salmo monótono!… Há um risco inerte
No papel da carta, que eu não escrevinhei.
Tudo é silêncio cego de escuridão…

Um mosquito sonâmbulo me inquieta.
Pobre bicho! que bastante solerte
Soletra a cartilha verde, que eu sonhei
Nos tempos de menino… Grã solidão

Com os livros de Monteiro Lobato
Em minhas mãos de calos e assíntotas!…
Sento-me ao lado do lustre astômato

Da sala de estar. Eu já não sou mais eu,
Sou uma breve figura (cara torta)
Em porta-retratos… Manhã, céu aliseu!…

8-8-2010.

Pulcro Talhe

Edigles Guedes

Usuário das horas arqueográficas…
Prossigo por ingentes pensamentos.
Há um túnel na estrada reprográfica
Dos sandeus – longobardos sentimentos.

Pulcro talhe de mulher desabrocha
Na linha do horizonte geodésico.
Quem vem lá? Já vem bela flor em concha
De vestido farfalhante – belisco

Nos olhos ariscos da tarde insossa!…
Pulcro talhe de mulher desengrossa
O hábito das estrelas tão cadentes

Quanto de fervores amanhecentes!…
Ó talhe de mulher sem escrúpulos!
Que me encanece, qual gato aéreo pulo…

7-8-2010.

Dia dos Pais

Edigles Guedes

Meu pai, pego da pena para exaltar,
Hoje, a tua paciência para comigo!…
Eu (um obtuso imperfeito) que a peraltar
Nos teus braços, ombros e torso amigos

Vivi desde menino bem franzino,
Venho nesses versos, tal qual mendigo,
Pedir a tua bênção, meu papai alvino!…
Pois, eu sou pequenino do tamanho

Do alevino. E agradeço a mão que sigo
Por me guiar guarnecido, sem acanho,
De carinho enobrecido. Neste dia,

(Enaltecido por muitos) declaro,
Em salto de bom tom, nossa melodia,
Como pássaro na chuva serôdia.

7-8-2010.

Peixe sem Dentes

Edigles Guedes

Por que a pedra no meio do meu caminho
Não é igualzinha a pedra do vizinho?
Preciso aprender a fazer das pedras
Uma fortaleza ou forte, que medra

No imo. As pedras que jogaram em mim,
Com o tempo faleceram em jasmim,
Tornaram-se um canto – entrave de cisne,
Tornaram-se meu titubeante tisne.

Fugiu em mim um fôlego de gota
De chuva. Deságua cachoeira rota
Que pole a pedra triste, mocoronga.

Hoje, chora em meu peito transparente
Essa dor rente de peixe sem dentes,
De dor sem ferida, sem trapizonga.

5-8-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...