Álacre Amor Partiu

Edigles Guedes

Que ênfase nas pálpebras de onça pintada!
Num franzir de sobrolhos, aquela mulher
Pegou do trem do meio-dia, sem dizer nada,
Partiu; deixando-me uma carta pra colher

Navios, que passam em brancas nuvens. Carta
Escreveu-me ela, com sua bem caprichada
Caligrafia — frágil como rosa —, farta
De desleixação minha, que era fachada

O Amor que deveras existia. Ela não me
Disse adeus, simplesmente partiu; sem dizer
Um ai ou um ui, tão somente fugiu. Escapou-me

Feito pomba arredia. Não vá, meu álacre Amor!
As pálpebras dos minutos estão a coser
O tempo de hoje; o amanhã é fugaz como flor!…

1-4-2010.

Amor sem Alarde

Edigles Guedes

Sem alarde, chega o Amor de mansinho,
Como quem não quer nada, mas querendo
Raptar com esses olhos meu carinho.
Furtivamente, o Amor bate (torcendo

O nariz em sinal de birra) à porta
Do meu coração amante. Se me escondo,
Ele logo descobre o paradeiro
Meu; se me não escondo, meu derradeiro

Amor enxovalha-me e cara torta
Faz para mim. Amor que é marimbondo
De ferrão estrondoso: e arrebenta o fosco

Coração. Por isso, aos teus pés, eu faço
Essa declaração de papel tosco;
Eu torço pra que Amor dure como aço!…

1-4-2010.

A Tarde Gorjeia

Edigles Guedes

Locomotiva de pássaros
(Azuis da cor do mar) trafega
O oceano de nuvens. Cântaro
De chuva cai; cai e não me nega

A bênção de pingos minguados.
A tarde gorjeia seus cânticos
De sol em lumes dissecados;
As nuvens em sons diuréticos

Navegam meu íntimo, tal como
O barco voa sobre as mil vagas
Do aquário sem peixe, sem tomo.

Frevo de pássaros límpidos,
Nuvens onívoras e aladas,
Tarde de abril co’aminoácidos…

1-4-2010.

Lâmina voz

Edigles Guedes

Lâmina voz sussurrante ao pavilhão do meu ouvido,
Ilustrações tetraplégicas de pernas frementes,
Em frêmito de bambus ao galope arrependido
De ventos brandos. Geografia dos mínimos diamantes

Múltiplos incomuns de teus beijos colotecáceos!…
Caminhos os meus dedos pelas pérolas de teu umbigo,
Perambulo meus pés em teu bom ombro liquenáceo,
Teu corpo de violão, eu dedilho em meus dedos ambíguos.

Há uma navalha de voz que ceifa a minha vontade
Própria; voz que me rendo, deponho minhas espadas;
Voz de canário atilado no poleiro confrade…

É assim a voz dessa mulher avoada — confrange-me
A alma suas lisonjas atmosféricas, consentidas
No inverno de minhas mãos em seu úbere seio, que geme!…

1-4-2010.

Coração Passarinheiro

Edigles Guedes

Páginas de espáduas em que escrevo os meus versos
Com beijos pálidos, em mui destrambelhados
Beijos. A língua — esse ser minúsculo, terso,
Mas que faz grandes estragos — eu, tresmalhado,

Trago-a comigo em deslize de louco afago
Por tua pele de pantera sem melanina,
Albina, neve de branco gelo, de grado
Bom, de fogo candente. Ah! cútis, cantarina,

De morena em libido afogado por mares
Dantes não navegados, faz-me marinheiro
De ti, de tua pele: que me despoja os ares!…

Empacoto a minha língua no teu pescoço,
Minha cantatriz! Coração passarinheiro
Perde-se (encontra-se) em teu corpo de colosso!…

1-4-2010.

Desejos Furtados

Edigles Guedes

Ó doces sandálias! que fervem no seio maculado
De aurora. Meu Amor trançado entre pernas de carente
Mulher sedosa! Há canto mavioso de sabiá aguado
Na cama de hotel fajuto. Estou arrebatado; ciente

Da minha pequenez diante da rosa, que Amor mostra
Com as coxas entreabertas para mim; desabrochar
De flor no jardim da matemática, que demonstra
O quanto sou um ignóbil mortal de mim a debochar!

Reles sandálias, cujos quadris perfazem cínicas
Curvas na cama gemebunda — em cio da madrugada,
Calada por gritos e uivos de prazer. Que clínicas

Horas da anatomia do teu ser em mim. Quantos sonhos
Sonhados por entre os dedos de tua sandália abada!…
Quantos desejos furtados em logros seios castanhos!…

1-4-2010.

Noite de céu Eletromagnético

Edigles Guedes

Esta noite afoba-me como um jaguar
De desabafo. Não sei se quintilha
Quis despertar o amanhã (que não chegou);
Ou se a roríflua rosa quis desprezar

O meu amor, só por curiosidade?
Sei que, nesse instante tão brevíssimo,
Há o sopro longínquo da brisa lassa
Pelo céu eletromagnético — espaldar

De estrelas acrisoladas por nuvens
Errantes. Um pirilampo queima-se
Em sua fosforescência de fósforo

Com caixa arreganhada. Um grilo tosco,
Acrípede, deu um espirro com pernas:
Quase que a noite padece de susto!…

31-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...