Noite de céu Eletromagnético

Edigles Guedes

Esta noite afoba-me como um jaguar
De desabafo. Não sei se quintilha
Quis despertar o amanhã (que não chegou);
Ou se a roríflua rosa quis desprezar

O meu amor, só por curiosidade?
Sei que, nesse instante tão brevíssimo,
Há o sopro longínquo da brisa lassa
Pelo céu eletromagnético — espaldar

De estrelas acrisoladas por nuvens
Errantes. Um pirilampo queima-se
Em sua fosforescência de fósforo

Com caixa arreganhada. Um grilo tosco,
Acrípede, deu um espirro com pernas:
Quase que a noite padece de susto!…

31-3-2010.

Fernando Pessoa

Edigles Guedes

Teus olhos de gênio oblíquo, perdidos
Por entre óculos anafados. Tidos
Por espectros de sombra de tua face
Fácil, esguia, lânguida, adelgaçada.

Nariz aquilino, travessão oblongo.
Andar esquipático, mocorongo.
Teu cérebro engendrava, num enlace
Descomedido, a sina da algraviada

Co’o sensacionismo de tuas equações
E o interseccionismo de tuas digestões
Na tu’alma, num cansaço de tristeza!…

Perene é o espaço da acre cirrose
Hepática, que comeu o teu bigode
Tão distinto: triângulo de beleza!…

31-3-2010.

Toalha em Banho

Edigles Guedes

Corpo inerte estendido no varal,
A secar pelo vento de angústia
Matutina; vento que em mi’adorna
O azul fornido de madrugada!

Flâmula febrífuga ao balanço
Do arame farpado, que dançava
A incúria do meteorológico
Tempo; ora chove, ora nostálgico

Faz sol, num veranico húmus de maio.
Acenos de mãos em tão cândidos
Adeuses; às vezes, desmantelos

De apelos sem voz ou gestos caros,
Ou olhar sobranceiro. Toalha em banho
De sol: quanto descontentamento!…

1-4-2010.

Pernas em Canto de Sereia

Edigles Guedes

Que cálculos esquizofrênicos em frenéticas
Pernas são esses? Pluviais pernas, que ablaquecem quebrantos
De meus polutos gritos; carnívoros ouvidos
De mulher fumegante em cama de lençóis lúbricos!…

Que lua ocídua reluz no céu atônito? Que venusta
Estrela resplende, no azul da noite, suas lágrimas
De cristais, que se eivaram pela madrugada? Cismas —
De insônias maldormidas — aquecem pernas astutas,

De tanto vagabundearem em casa patética!
Pernas pteridófitas ceifaram almos prantos,
Acalentaram-me o cansaço dermatológico

Do dia azedo que nem limão azedo. Que canto órfico
Maculou minhas pernas gralhas? Canto prazenteiro
De sereia: cantas comigo debaixo do chuveiro!...

24-3-2010.

Coração Despedaçado

Edigles Guedes

Coração despedaçado não te preocupe!
Eu hoje recolho os teus pedaços, cacos de mim,
Que estou aos pedacinhos — tão diminuto! Trupe
De malabaristas sequestraram o jasmim,

Que coloria a minha vida destrambelhada!…
Coração despedaçado salta! pulando
Pela minha boca, e diz àquela trigueira
O quanto te quero, minha flor de amendoeira!…

Eu tenho andado ensimesmado, atabalhoado;
Mas, jamais me esqueço da minha flor de jasmim...
Ela tem encantos mil, ela me faz feliz!…

Coração, vivo com a cabeça agrilhoada
Nesse lenço de cheiro, que ela deixou. O beliz
Lenço — ao sorvê-lo, sinto-me co’ este frenesim!…

27-3-2010.

Monólogo com um Palito de Dentes

Edigles Guedes

Palito de dentes, o que estás fazendo
Aí, dentro do paliteiro? Resignado
Estás com tua magreza? Mui bem, decerto
Algum bicho carpinteiro, guapo, aguado,

Pintou o sete contigo. Meu precolendo
Amigo, me não tenhas por um decreto
Desazado!… Eu sou tão carente de amigos
Verdadeiros, tal como pena ao escrutínio

Deitada. Palito, eu vou passear contigo.
Quem sabe assim esquecemos o infortúnio,
Que nos abateu tão de supetão. Amargo

Fado o nosso! O teu: de viver enjaulado…
O meu destino: ela prometeu-me largo
E deu-me estreito viver abandalhado!…

27-3-2010.

Augusto dos Anjos

Edigles Guedes

Foi enxuto, meu desditoso contentamento!
De um macérrimo esquálido ímpar. Violáceas
Olheiras deformavam o cavo retrato
Dos olhos de vizinho, ave sem fareláceas

Asas! Somente imaginação ele portava
Com asas de estro virente, bem comparável
À lua em seu passeio noturno. Perambulava
Com sua clavícula arqueada — de indefensável

Gado desmamado — pelos vãos de Pau d’Arco.
Seus sapatos puídos tagarelavam. Corpo
Quebrantava-se em sua omoplata; estrumes parcos

Alegravam seu viver. Que pena! a matéria
De verme, que eras tu, findou-se! Metacarpos
Tornaram-se lixo, em petição de miséria!…

28-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...