Senhora com Blandícias

Edigles Guedes

Coração estouvado, estou triste pela noite —
Que cai no chuveiro de pingos roríferos
Da aurora — no campo de pensamento. Açoite
Do guizalhar dum grilo vergasta alífero

Ser: a minh’alma, presente divino! Oblíquo,
Olho para fora do tarro em que coabito
Co’a Natureza das horas. Um flexíloquo
Regougar de coruja espavoriu (súbito)

As corujinhas em seu grabato entanguidas.
O tempo flui lentamente pela ampulheta
Do relógio cuco na parede estúpida!

Minha melancolia vai riscar de felícia;
Pois, o dia já vem e a noite, à boa-fé, não aguenta
O fulgor de minha Senhora com blandícias!…

28-3-2010.

Pés Apopléticos

Edigles Guedes

Pés pancreáticos pisam em partidos
Pontos pândegos; pômulo pomposo
Paira no pascigo — pasto impávido
Com perigos perdidos. Prestimosos

Pés, pábulos, perambulam pacatos
Por primores de apriscos. Pés, pálidos,
Passeiam por puberdade de tal pato
Pateta. Céptico épico proibido!

Pés apopléticos perturbam parvos
Painéis de patrícias palmas! Paródia:
Pedro Primeiro, príncipe protervo!

Pés plácidos, pardos (panegíricos
Crépidos), pobres palermas! Paciência
Em papel de pânico pacífico!…

28-3-2010.

Rosto de Rodofícea

Edigles Guedes

Rosto rúbido: raro ramo rico
De rabdovírus; rubro romântico,
Que raiva em roda-viva rutilante,
No rocio reptante e resfolegante!

Rosto a rabavento no rodomoinho
Rochaz, robusto, ríspido, risonho;
Romance rústico de riólitos rios,
Que ringem seu ribaldo regalório!

Rosto de réptil roçando (revoa rua
De revindita) reverbério; recua
Sua régua — recobro recomendado.

Rosto de rodofícea recolhido,
Roaz; rima rija, ridente rinorreia.
Recrudesce o rosto em ruda ritmopeia!…

28-3-2010.

Face Flamifervente

Edigles Guedes

Face frívola, formas famélicas,
Fugidias figuras, florão fluídico!
Fulgura fanática, fantástica,
Em flor-seráfica. Fã fatídico?

Face facunda, efêmera; foguete
Fogoso, faceiro, foi fulminante
Por folhetim facínora; fachuda,
Folgazã: faceirice foliaguda!

Face em fôlego fru-fru, forte, foito,
Fogaréu foge-foge, fagócito
Formoso, farândola refulgente.

Face — fortim do fortuito; flâmula
Flamipontente com flamifervente;
No fula-fula, fugace fábula!

28-3-2010.

Remoinho de Fosso

Edigles Guedes

Embevecido estou por tua beleza
Estonteante, parece mulher-dama
Em dia de frios beijos e sol de pernas,
Entre almofadas de veludo e cama

De amores aturdidos. A lanterna
Acesa no armário da natureza
É assim a tua pulcritude. Septênfluo
Riacho do Mondego, que minha canção

Não soube divulgar o Amor lucífluo
(Faz-me trêmulo em meus ossos). Coerção
De sentidos ancípites — ambíguos

Em mim. Beleza — essa tua! — como posso
Esquecê-la ou negá-la? Conspícuo
Rosto que me atrai em remoinho de fosso…

28-3-2010.

Desdita de Amor

Edigles Guedes

Brandas ribeiras, quanto estou contente...
Cláudio Manuel da Costa

Lamuriosas ribeiras, por quem choras?
Que lágrimas em rio rugido tornas?
Tuas lágrimas formosas, aos cântaros,
Fluem de tua face de tez alva; cantos,

D'água mole em pedra dura, retinem
Nos meus ouvidos cheios de cera, que nem
Ecoam as estalactites nos ecos
Da gruta calcária, minada em ticos

De pedra bruta. Ó pastor de humanos
Tratos! Onde se escondeu tua lágrima
Por doce Nise? Coração serrano,

Se não fie em lágrima absorta, árida;
Pois mor prova de Amor há: essa desdita,
Que sofremos longe de Nise linda!...

26-3-2010.

No Horizonte da Minh'Alma

Edigles Guedes

Alma desdita, quanto Amor folgaste
No íntimo ser de minha amada Nise?
Em teu seio (melão maduro), em bela haste
Eriçado, descanso da labuta

Do dia enfadonho. Na tênue próclise
De tua boca, eu calo-me em beijo — luta
Ferrenha dos teus lábios meus grudados.
Acenos de mãos sutis lançam dardos

Inflamados do mais estreme nardo!
Teus gestos, de gazela gris, eivados
Desse sentimento torto: saudade

Da minha Dama que naufragou pontes
E rios, no meu coração. No horizonte
Da minh'alma está a formosa beldade!...

26-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...