Encardido Coração

Edigles Guedes

Encardido coração, onde plantaste a rosa
De Amor ensurdecido? Ah! foi no Mar? enjoo
De mulher grávida, ou de primeira viagem
Marinheiro. Ah! foi na Terra? que penosa

Chora de lágrima sôfrega, quando voo
De falcão em rapina, corpo de engrenagem!
Ah! foi no Ar? onde se concebe por moeda
A atmosfera em música de nitrogênio!...

Encardido coração, por que em mim pelejas?
Pugnas afanosamente, com telescópio
De mãos, contra a minh'alma de sofreguidão!...

Que admirável é esta minha tribulação?
Jamais sonhei que Amor gasto, peregrino,
Brotasse assim: que nem furacão benigno!...

24-3-2010.

Paradisíacas Pernas

Edigles Guedes

Pacatas pernas em panaceia prostrada
Ao pé do pacóvio polvo em palácio;
Páramos pródigos em prol prascigosa
De princesa; pensamentos pancrácios!…

Paremíacas pernas: pane no pando
Peito em panegírico de pécora;
De pecilotermo pulcra peçonha;
Pata pedante de um pio paladino!…

Pandemoníacas pernas encrespadas:
Encapelada pecúnia pechosa;
Pedra-ímã em pêndulo procrastinado!…

Paradisíacas pernas: plúmbeas pombas;
Prófugas páginas profiláticas;
Pélvis profícua em proeza profética!…

Mar de Delíquio

Edigles Guedes

O mar — de marinheiro atroz tugúrio
Luso, refulgente logomaníaco! —
Deságua em si mesmo seus espúrios
Versos de vagas: bastante elegíaco!…

O mar: estropiado marujo a calhar,
Sabe o quanto de a fitoplâncton flutuar
Existe na água flamívola do mar;
Sabe com quantos pingos se faz o amar!…

Não são pingos de “ii”, nem pingos de chuvas;
Mas sim pingos de dessossegos árduos,
Pingos como vexilário altíloquo!…

O mar (sábio pescador de delíquio)
Conhece o quanto lhe apetecem uvas
De seios púberes em boca de elóquio!…

24-3-2010.

Amor Quisto

Edigles Guedes

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.
Como corda e caneca, nós dois seguimos caminho
Por igual, juntos, de mãos dadas. Passeamos por bosque
Com árvores frondosas e serpenteantes arbustos!

De repente, topamos com um prisco salgueiro, que
Na sua sabedoria de eras remotas, do seu ninho,
Disse-me: — Poeta, quem é esta que levas de mãos dadas?
— Eis que é a minha sina, senil amigo, de longas datas…

— Se é tua sorte, então, por que choras por entre árvores?
— Choro, porque a minha sina é sofrer de Amor partido!…
— Poeta, que triste fado de Amor não correspondido

É o teu! Amar como quem ama o Amor que se devota;
E, portanto, ao se dedicar o Amor — ele devora
O ser amante das cousas de Amor quisto, por dote!…

Sopro Arcaico

Edigles Guedes

Um fôlego de água no meu existir
É o teu sorriso pulcro para mim!…
Sou tão carente de sentir, assim,
As tuas mãos com cinco sentidos a ir

De mim, a refulgir no meu corpo
De pipa empinada nas boas tardes
De março. Teu corpo lunar, carpo
De verriondez, o meu pasmo carpe!

Quantos dentes de paleontóloga
Tu usaste no sorrir para mim?
Ah! foram dentes do jurássico!…

Ó dentes de pernas pedagogas,
Ensina-me a velejar no jardim
Das oliveiras, num sopro arcaico!…

20-3-2010.

Olhos Liquefeitos

Edigles Guedes

Constrange-me teus olhos maduros
Fitos em minha língua caduca.
É noute de flavo desespero
No meu ser moído, dor que trabuca!…

Torno-me nitente em teus róxidos
Olhos flamejantes, que me chamam
Para o conluio no teu colo avindo.
Olhos teus umbrosos, que mendigam

A quididade do ser dos olhos
Meus. O que há no âmago (esse seio esconso)
Dos teus olhos? Pérolas — que as colho

No mar de asas frondosas e íncola
Do meu peito brando — são destroços
Dos teus olhos liquefeitos, donzela!…

20-3-2010.

No Sofá

Edigles Guedes

Engrunhido no sofá da sala de estar,
Deixo-me sopitar pelo bom cansaço
Do dia; quando, surpreso, um lindo rouxinol
Põe-se na janela da varanda a cantar!…

De súbito, seu chilreio coloca laço
De chita no meu pensamento de urinol,
Velado debaixo da cama. Sórdidos
Sentimentos de asco nublam a minh’alma!…

Revolvo-me no sofá, turbado, ávidos
Olhos de Lídia, débeis, condoem-me. Calma,
Digo de mim comigo, são pesadelos

Apenas, você cochilou, volte a dormir!…
Lídia foi-s’embora, este rouxinol belo
Restou-me por prêmio. Já ouço su’alma carpir!…

20-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...