Hoje é Tarde

Edigles Guedes

— É já tarde começar a viver hoje:
O sábio começou ontem. — Alega um bardo
Antigo, em língua latina. Epítome
Que carrego no alforje, que bastardo

Segue meus pensamentos. A metagoge
De que a vida é premente, sem subterfúgios.
Não há uma vírgula de tempo própole
A perder. É mister viver no tugúrio

Do hoje, como se estivéssemos com pais
Carismáticos: o hoje não nos pertence.
É como areia na ampulheta que se esvai;

É como a tinta deleitosa no papel:
Lúbrica, desvanece, enquanto carece
De ontem. Ó sábio! Vamos à ontem para o céu!…

7-3-2010.

Morcego

Edigles Guedes

Quiróptero, pousas com teu corpo (adágio
Do implume homem que vivo) nos caibros sóbrios
Da noite. Estou a ver-te, assim, quase de soslaio.
Tangível criatura: nariz de astrolábio;

Boca, solitária, de quimera iníqua;
Olhos foscos, rotos, tortos; mãos oblíquas,
De quem quer pegar algo, mas escorrega
O algo por entre os dedos; uma formiga,

Íncuba, de garras a suportar peso.
E que peso? Os teus ombros, gravidade
Que suporta o mundo. E curvo, pouco teso,

Depois elástico. Libertam-se, calmas,
Tuas asas do corpo hirto, alteridade
De tua grandiloquente e famíger’ alma!…

6-3-2010.

Flébeis Flamas

Edigles Guedes

Flâmulas flamas febris, fãs de frêmitos,
Franziam fráguas fraqueiras e faniquitas.
Frágeis flamas fantasmagóricas, fatos
Físicos farejados por fisiocrata…

Flor flutua: flébeis flamas fisiológicas;
Fora, cá, fáceis figuras fleumáticas!…
Friacho flexua: fluidas flamas folclóricas,
Flavípedes, frangem flechas fanáticas!…

Fugífugas flamas folíparas foram
Fofocar, frívolas, fofas; fenestraram
Fachada, fremebundas; flãs, flertam felpas…

Flutívagas flamas fiúsas: feito fina
Felugem, feito formosas e franzinas
Fístulas: flautas, folículos, folipas…

6-3-2010.

Máscara

Edigles Guedes

Es schweigt die Seele den blauen Frühling.
Georg Trakl

Desperto-me do sono anômalo da noite gelo.
Despeço-me da madrugada de nariz adunco
E empertigado. A cama geme seu gemido tolo
E derradeiro. Espelho, fosco, cicatriza-me; asco

Da manhã febril que raiou azul. Silente primavera
Co’alma de criança e seu trebelho. Arredei-me, pulo
Acrobático, do meu modo de dormir. À vera
Ou à brinca, vou jogar a toalha no banheiro. Açulo

O cão de caça-mantença. Estou com fome, o café
Quentinho descansa na mesa posta. Apostato a fé
Nas sandálias de domingo. Escanhoo a face da nua lua

De sol. Quem se barbeia no espelho?A briosa máscara
(Que se cobre o rosto) é parecida contigo... Amoras
Bombardeiam tu’alma. Singra a máscara, Tejo, na falua!…

5-3-2010.

Brasume

Edigles Guedes

Que dano há no meu peito galante?
Não é dano; é Senhora refulgente…
Que pano há com minhas mãos plangentes?
Não é pano; é lenço resplandecente…

Que pálio há no teu semblante corso?
Não é pálio; é desgosto de tanto amar!…
Que prélio há nos teus pés ao descanso?
Não é prélio; é desventura a aboleimar!…

Que labéu há no teu rosto... comigo?
É o desdouro do ombro quase amigo,
Que pagou fel por mel, e molestou-me…

Que sirte há no Amor, que manietado,
Mantém-me refém de ti? Brinquedo
Abobalhado, fiquei: brasume!…

5-3-2010.

De Barca na Madrugada

Edigles Guedes

Cinjo-me de madrugada,
Como se cinge a Senhora
De sol, torpe, na alvorada;
Como o pingo d’água, agora:

Espelho d’alma, seguro
Pelos cabelos impuros
Da noite, oclusa, no brunir
A pia. Teu pintinho a tinir

Tranquilo, nos lençóis níveos
De encomenda. Onde estará o véu
Desta madrugada branca?…

Vagueio — vácuo vazio d’alma!…
Vagueio — cru, desço na calma
Escada da limpa barca...

5-3-2010.

Vida Oeste

Edigles Guedes

A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Fernando Pessoa

Quão breve… A vida, extasiada,
Voa de alegria pueril; extravio
Que, do rastilho de pavio,
Esvai-se!… Estorvo: partida

Ao ponto de chegada, ao léu!…
De ter não tenho — que nada!…
Porque de tanto ter, do Céu
Recebi o dom da inventada

Poesia; ainda que tardia!… Este ser
(Que sou) é viúvo de estultices;
A minh’alma desfalece…

Na brevidade do nascer,
Crescer e falecer: medra
A vida Oeste como pedra!…

5-3-2010

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...