Errabundo Desenho



Edigles Guedes

Desenhei teu rosto numa folha de papel:
Não havia cravos ou espinhas para desmanchar
A tinta nanquim e teus contornos de céu.
Tu estavas límpida, qual carpinteira a rachar

Meu coração de madeira com duro enxó
De prata, por mãos tão curtas, curvas e frágeis.
Abraço-te com braços mansos: longo amplexo
Hercúleo!… Oh! meus braços, decerto menos ágeis,

Há muito sonhavam!… No momento em que me vias,
O Sol sorria amarelo, assim meio carrancudo;
E tudo era flores, girassóis e cotovias!…

Mas, desperto-me do sono surdo e profundo…
Procuro-te por quatro paredes tão vazias,
E encontro-me contigo: desenho errabundo!…

29-7-2012.

Sansão em dor


Edigles Guedes

Em lá chegando aos braços de Amor, almeja
Minh’alma, que combaliu as tuas esquivanças!…
Depois de renhida peleja por tuas tranças
De Rapunzel, sobeja o tão grave assim seja!…

Em acolá aportando em tentáculos de Amor,
Desejo usurpar o trono dos ósculos teus,
Como a mais sedutora Dalila e filisteus
Surrupiaram grandes forças de Sansão em dor!…


Maniatados pés por tranças longas, contigo
Galgarei castelos infandos, à procura
De antídoto para Amor: doença com secura!…

Cego e reprimido por atrozes imigos,
Assim é o homem sojigado por mãos ferozes
Da Bela a quem ama: vítima e seus algozes!…

25-3-2012.

Arqueiro Cego e nu

Ó crudelíssimo arqueiro cego e rústico!…
Que se disfarça em criança angelical com asas;
No intuito de engambelar o incauto acústico,
Que anda de Amor desatento, longe de casa…

Eis quando desperta do sonho inusitado —
Que é amar sem ser amado, sem nada em troca
Almejar por Amor pérfido e figurado...
A Desilusão — fiandeira sem fio ou roca

Nas mãos — tece-me tragédia de erros, engodos…
Logo, tu, arqueiro nu e vil! desfralda-me golpe
Sagaz de tua flecha tão malcriada e sem modos!…

Se, hoje, ó sofrida Alma! despeço-me a galope
Dos braços tredos de Amor é porque denodos
Não demovem esse lobo em pele de míope!…

24-3-2012.

Reles Corrente sem Elos



Edigles Guedes

De manhã, céu com luz de Sol grávido
Rompe os grilhões da escuridão noturna.
Insensato, nefando mundo ávido,
O qual devora a música soturna

Dos pássaros melodiosos, sonoros.
Debuxa os ventos prodigiosos quadro
De pintura inédita sem esquadro;
Cai — tal qual luva em caixa de fosfóros —

Perfeitamente bem vossos cabelos,
Engrinaldados de flores maviosas.
Enquanto eu, mavórtico, sigo ciosas

Asas da borboleta azul, mimosas:
Que sois vós — reles corrente sem elos,
Doces livros que não saíram dos prelos.

24-3-2012.

Caiu Argueiro no Olho Cremoso?


Edigles Guedes

Névoa ditosa pairava salgada;
Neblina ambígua desagua na anágua;
Neve alada sem pena ou dó, nem mágoa;
Nódoa aquosa suja a mão desatada.

Nebulosa de Andrômeda distante;
Necedade de palhaço sem circo;
Néctar sem sabre: destripei só mico;
Nó górdio na garganta sem diamante.

Nuvem vã flutua como semblante
Nunca dantes visto em mar navegante:
Novo voo do albatroz desengonçado.

Nu artístico esboçado no quadrado;
Nuance desvelada aos cílios clínicos —
No olho cremoso caiu argueiro ou cisco.

24-3-2012.

Garças Arlequíneas



Edigles Guedes

As garças voam por sobre o céu finito

De águas guelras e tímidas. Não minto,
Quando afirmo: que ando farto e faminto.
Tanto verme pensamento ou detrito

Quanto cloaca sentimento ou sentido...

Aflige-me o transe de tão treslido
Destino, que sem tino — assaz ladino —,
Afugenta-me lídimo sino hino!

Mácula de pernas tão longuilíneas

Pousa no coração da tarde suave.
O mádido Sol medra as curvilíneas

Asas vórtices e vívidas de ave!

Sinto-me as garças cores arlequíneas:
Chave sem vão, fechadura sem trave.

23-3-2012.

Bem-aventurados Fingimentos



Edigles Guedes

Oh! bem-aventurados fingimentos,

Que, nesta ausência, tão doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!
Luís de Camões

Oh! bem-aventurados fingimentos,

Que fazeis de Amor esses doces enganos;
Embora sejam tristes pensamentos
Que me enredam sutis teias, duros danos!

Oh! bem-aventurados desenganos,

Que fazeis da felícia vis lamentos;
Embora sejam as lágrimas de anos
Que me enxugam os olhos desatentos!

De tanto procurar o Amor insano,

Achei danos duros nos sentimentos
Humanos de sincero, brusco lhano!

De tanto catar felícia, lamentos

Encontrei no melífluo desengano:
Oh! viver é tortura de tormentos!

22-3-2012.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...