Belo Monte, a Hidrelétrica do Xingu



Edigles Guedes

Demito-me do existir burocrático,
Dessas horas burras: jumento senador
Que vota, em plenário, leis democráticas
Do regime de águas hidrelétricas, mor

Impacto ambiental na floresta e ribeiro.
Desastre anunciado da morte – cratera
Vulcânica de terror às palafitas,
Que se penduram nas margens, onça e fera,

Do rio caudaloso, já extinto de antemão!
Índios, posseiros, fazendeiros, grileiros,
Seringueiros: povo viaja na contramão

Da história escrita à dor e sangue, típico
De  brasileiro – américa veia latina!
Consórcios, acorrentados: que latrina!

18-9-2011.

Filtro d’Água


Edigles Guedes

Ora, que água potável a escorrer líquido
Vapor condensado em minha castanha boca!…
Desenhado por mãos de barro, da substância
Barro é feito a embalagem, ou invólucro, ou toca

De pombo-correio, que anuncia (audaz mensageiro)
Mensagens de boas-novas: a água imprescindível
Ainda jorra do filtro inconsútil; errância
De pingos e respingos de tão combustível

Alimento, que sagaz percorre montanhas
E vales do meu ser finito, enquanto dure
A minha existência de hiena, por entre entranhas

De gentes nocivas e sorriso sofrido…
De gota em gota, o filtro fura-olho que fure
O barro ingente por dentro da alma-celeiro…

18-9-2011.

Catar Estrelas


Edigles Guedes

Outrora, ouvi Estrelas, cujas belezas
Transcendiam o arrebol – lume lúcido.
Eram tão travessas que as Incertezas
Tomavam chá de sumiço sórdido.

Elas comigo brincavam de esconde-
Esconde, de tonturas de Amor à luz
Do luar, de cantiga de roda, conde
Ou condessa no castelo de Andaluz.

E, quando a Noite pegava sua mala,
Com intento de partir, eu inda sorria,
Amargo, para minha insigne sala

De estar, donde vinham estrelas belas.
Hoje, é apenas um retrato essa história
De catar estrelas; por onde estão elas?

17-9-2011.

Não Reparas…




Edigles Guedes

Púrpura tarde que se esvai no horizonte, além
Do infinito, e mais palpável do que a louvável
Imponderabilidade do ser moldável
À filosofia vã do Amor rude e gredelém…

Não sou pastor, como Dirceu, para salmodiar
Com doce lira os teus pruridos, já esquecidos
Em nosso leito soez de prazer; tempos idos,
Que ignorávamos dor, pois eis no peito a vadiar

Alegria inconfessa e felicidade agreste…
Eu, perdido nos teus braços de corça ávida,
Carrossel a girar veloz arco-celeste…

Tu, achada em meus braços de olíveo cisne alciôneo,
Não reparas na tarde ástrica, que se finda;
Não reparas no pejo do meu ser etéreo…

17-9-2011. 

Apaga a Magra Loisa



Edigles Guedes

Escanhoa-se a face com muita perfeição
A contrapelo; pela segunda, a pele
Ecoa o espumar congruente da lâmina
Em atrito fundo do imo, que repele

A sujidade dos pelos semidoutos.
Barbeador torna-se vassoura de gari
– Nobre cavaleiro de facalhaz fina,
Mãos calejadas por pimentas cumbaris –,

Instrumento cirúrgico de incisivo
Corte no lixo das ruas e d’ almas coisas,
Que sobrevivem ao dilúvio dativo

De químicos dejetos e sua poluição.
Escanhoa-se qual se apaga a magra loisa,
De giz riscada, por lápis armidouto.

16-9-2011.

Lâmpada



Edigles Guedes

Cospe de sua fagulha o fogo incessante que
Incendeia de paixões canavial dos amantes,
Na praça enluarada por vaga-lumes guapos.
Dragão ou monstro moderno, avante, assim como antes,

Indomável, bipolar: de noite, príncipe;
De dia, feioso sapo, que carece de beijos
De uma princesa para desabrochar o ser
Que é, esconso na armadura rugosa. Pão e queijo,

Ou goiabada e queijo, saem os dois, casalzinho,
A passear pelo reinado em cavalo branco.
Lâmpada de Aladim ou gênio, de mansinho,

Arquitetando três desejos inconclusos?
A carruagem elétrica, aos sãos solavancos,
Percorre caminhos luminosos e lusos.

16-9-2011.

Amores de Dirceu



Edigles Guedes

Ruge, de palmo em palmo, o leão ferocíssimo,
Enjaulado em grades camonianas, sintaxes
De um domador com seu fiel banco, escudeiro, e som
De chicote voraz, azorrague de praxes

Ferinas… O estalido da garra sem mimo
Evoca bastantes arrepios na coluna
Vertebral dos ouvidos… Nem tapa-orelhas, com
Carinho, seria de serventia… Sequer duna

Fecharia o Sol com sua peneira de fina areia…
Domesticado, ameaçado chico das dores,
A fera pula círc’lo de fogo; fome feia

Esconde de farto público… Espetáculo
De graça e desgraça no picadeiro… Amores
De Dirceu sem Marília de sustentáculo!…

16-9-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...