A dor que Amor Deveras Sente


Edigles Guedes

Deitei aquela palavra enigmática
No papel almograve, que nem seda.
Um sobgrave estourou flautas olvidas.
Uma dor fomenta e lamenta sua cor

Furibunda no meu peito ferrabrás.
Olho para os lados; perscruto a porta;
Espio da janela; espreito a casa
Vizinha e esmerilo a Ilíada e a Ática.

Procuro entre estrelas por Andrômeda
Bela; debalde, procuro fornidas
Palavras para explicar como faz flor

Na dor que Amor deveras sente. Zás-trás!
Quebrou-se o lápis; apagou-se a torta
Linha pelo mordaz rato sem asas!

6-9-2011.

Amar é...


Edigles Guedes

Amar é cansar-se da nau Solidão?
Depois de persingrar os vastos mares,
Marinheiro regressa diante olhares
Vagos, como os vagos azuis da Amplidão.

A viagem, no dorso do homem que se fez
Ao mar, é mera miragem: deserto –
Cujo oásis, tal qual selo perniaberto,
Chora à espera de chuva e sua esplendidez.

O Sol castigante; os pleniabundantes
Peixes, errantes heróis navegantes;
Moluscos com músculos guantes de aço.

Pois bem, Amar é viagem serelepe
Que fazemos qual Saci, púnico pé;
Porém regressemos lassos de passos…

6-9-2011.

Lençóis Fanhos


Edigles Guedes

Recorta-se na lagoa azul
A silhueta feminina
Da belíssima Senhora,
Que cativa adolescente

Coração, tal qual carona
Em automóvel estranho.
A sombra, à sombra, descalça
O corpo sutil, tênue, êxul.

Beijo de penicilina…
Braço anil: que atroz penhora
Levou consigo… Decente

Decola o canto sanfona…
Ao quebra-luz, lençóis fanhos
Falam de malas sem alças.

5-9-2011.

A Cadeira e a Terra do Nunca

Edigles Guedes

Sinuosa, com brandas curvas,
Ondulando braços, dorso
E sela - tomada a corso:
Capitão Gancho de turvas

Barbas e papagaio gaiato.
Eh! aquele assentar átono
Da fada Sininho, em sono
Gramatical, dieta de hiatos.

Wendy tem graça nas ancas...
Quando se assenta, o costume
Das mulheres vence o lume

Da Lua cheia de Amor e branca.
Oh! cadeira alada que voa
Para a Terra do Nunca à toa.

1-9-2011.

A Mesa



Edigles Guedes

É sólida de solidão
Descontente; sua aparente
Formosura é rio demente
Sem lágrimas de comilão.

Glutona por lápis, papéis,
Clipes, borrachas, copinhos
Descartáveis, mil carinhos
De carimbos, vários pincéis

Coloridos e tesouras.
Nas entrelinhas da folha,
A mesa devora rolhas.

Um balão infantil estoura
A bexiga azul ou anil:
Coitada da mesa flébil!

1-9-2011.

A Bola

Edigles Guedes

Redondamente borracha
Ou de couro legítimo,
Ela dança no pé, em ritmo
Alucinado de racha.

Tolinha, adeja suas velas
De jangada aeronáutica…
Peripécias acrobáticas
De mimética aquarela?

Sim, a bola faz círculo
Anatômico, cômico:
Arco do Triunfo atômico.

Agógicos passos lassos
Orquestram canto e compasso
Das pernas, bola e cálculo.

31-8-2011.

Soneto a Monteiro Lobato

Edigles Guedes

Bom dia, Lobato! cumprimento-o pela noite
Bastante agradável, na companhia de seres
Notáveis, que são teus personagens de ficção
Infantil: Visconde de Sabugosa; Emília,

A boneca de pano; Rabicó, à sonoite,
Reinando lambanças; o Pedrinho, célere,
Desvendando os sete mistérios da enganação;
Narizinho, pássaro implume, com família

Numerosa e fantástica do grão Príncipe
Do Reino das Águas Claras a torcer nariz
Arrebitado; Dona Benta, bonachona,

Recebe o Peter Pan, voador, no videoteipe;
Tia Anastácia mexe o caldo e sorri da variz.
Quanto é gostoso o Sítio na tevê e poltrona!

31-8-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...