A Senha

Edigles Guedes

Um lenço de dama bela
Cai no atoleiro da bacia
De algodão doce!… Eu recolho-o
E guardo-o junto comigo.

Contudo, minha donzela,
Percebo que sua ventania
É de Amor por esse abrolho
De sentimento mui ázigo!…

Oh! não vês que ele não te ama…
Oh! não vês que ele desdenha
Da rosa que lhe quer tanto

Bem… Choras, porque te acalmas!…
Enquanto eu recolho a senha
Para o teu coração ingrato!…

21-10-2010.

Pingos Tênues

Edigles Guedes

A chuva cai e canta, pasma,
O seu canto de pio sabiá,
Dependurado na gaiola,
Defronte ao chuveiro… Que asma

É essa de quem sequer sabia
Da respiração da viola?…
De seus medos a dedilhar
De chuva e Amor este meu ser

Tão pequeno e tão prudente…
Sinto-me como pimpolhar
De pingos tênues… Ah! tecer

As madrugadas sem dentes,
Tal qual ouvir de são ouvido
Canto de quem vai bem-ido!…

20-10-2010.

Esse Jardim com tuas Prosas

Edigles Guedes

Não se pode queixar de mim!…
Por que eu não sei do tanto
Que tu te queixas no jardim?…
Se há tantas rosas… e quantos

Cravos há à porta desse ente
Querido… Quem sou eu para
Duvidar de teu presente,
Amor?… Se vivo de aparas

Da minh’alma desgastada!…
Se eu respiro do próprio ser,
Quem sou, essa minha frustrada

Viagem ao interior da rosa
Ou do cravo!… Ah! Quiçá hei de ter
Esse jardim com tuas prosas!…

20-10-2010.

Beijo e sua Enxabidez

Edigles Guedes

Envio-lhe um beijo com a mão…
Tal como um aceno turvo
De lágrimas sem sossego,
A escorrer pelo rosto em vão!…

Por conseguinte, eu me curvo
Perante essa dor de cego
Desespero da saudade
Infinita no meu peito!…

Sinto-me estranho: desejo
De partir contigo, árcade
Amor, que me acalma… Afeito

Coração que nem entejo
De mulher e sua gravidez…
Que beijo e sua enxabidez!…

20-10-2010.

O Amor Trancou-se

Edigles Guedes

Estou cansado da vida...
Ela quer-me a alegria finda
De barco de papel, que inda
Persiste em navegar de ida

Sem vinda, sem volta à roda
De mim!... Não sei se a estibordo,
Eu finco-me; ou, se a bombordo,
Eu largo-me, como moda

De canção sem belo refrão...
Se trinco há nesse soneto,
É porque a porta do patrão

(O Amor) trancou-se na prisão
Do meu coração... Discreto,
Eu vivo-me dessa ilusão!...

20-10-2010.

Amor que se Combate

O amor cessa se não há combate.
Sören Kierkegaard

Edigles Guedes

Meus olhos de ave de rapina
Devoram-te, de sobremesa!…
Teus olhos, doce purpurina,
Festejam os meus brios à mesa…

Meus ouvidos clamam, afoitos,
Pelo murmúrio de tua língua!…
Teus ouvidos: poema de introito
À minha vida… Oh! vivo à mingua!…

Meus lábios grossos convidam-te
Para esse baile sem máscaras,
Que é o meu coração empedernido!…

Teus lábios de fel, encardidos,
Causam-me dor de águas amaras!…
O amor cessa se não há combate!…

19-10-2010.

Fogosos Ruídos

Edigles Guedes

Ouço ruídos de quem anda a passear com salto
Alto ou como quem passeia de quebra insana
Da rocha na borrasca do mar, linda sereia!…
Ouço ruídos aluados: sapatos no asfalto?

Ou simplesmente o som inaudível da cana
De açúcar a partir-se no canavial? ou areia
E água atlântica, que entraram nos meus ouvidos
Sem pedir-me permissão ou benção com a mão?…

Ouço ruídos… São juvenis ruídos?… Latidos
De um latim extinto, mas que tão bem vivido
Está em nossa memória rara e imaginação!…

Ouço ruídos… Porquanto assim eu tenho crido…
São fogosos, como o sussurro ao pé calado
Do seu sorriso… São os beijos dos apaixonados!…

19-10-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...