Beijo e sua Enxabidez

Edigles Guedes

Envio-lhe um beijo com a mão…
Tal como um aceno turvo
De lágrimas sem sossego,
A escorrer pelo rosto em vão!…

Por conseguinte, eu me curvo
Perante essa dor de cego
Desespero da saudade
Infinita no meu peito!…

Sinto-me estranho: desejo
De partir contigo, árcade
Amor, que me acalma… Afeito

Coração que nem entejo
De mulher e sua gravidez…
Que beijo e sua enxabidez!…

20-10-2010.

O Amor Trancou-se

Edigles Guedes

Estou cansado da vida...
Ela quer-me a alegria finda
De barco de papel, que inda
Persiste em navegar de ida

Sem vinda, sem volta à roda
De mim!... Não sei se a estibordo,
Eu finco-me; ou, se a bombordo,
Eu largo-me, como moda

De canção sem belo refrão...
Se trinco há nesse soneto,
É porque a porta do patrão

(O Amor) trancou-se na prisão
Do meu coração... Discreto,
Eu vivo-me dessa ilusão!...

20-10-2010.

Amor que se Combate

O amor cessa se não há combate.
Sören Kierkegaard

Edigles Guedes

Meus olhos de ave de rapina
Devoram-te, de sobremesa!…
Teus olhos, doce purpurina,
Festejam os meus brios à mesa…

Meus ouvidos clamam, afoitos,
Pelo murmúrio de tua língua!…
Teus ouvidos: poema de introito
À minha vida… Oh! vivo à mingua!…

Meus lábios grossos convidam-te
Para esse baile sem máscaras,
Que é o meu coração empedernido!…

Teus lábios de fel, encardidos,
Causam-me dor de águas amaras!…
O amor cessa se não há combate!…

19-10-2010.

Fogosos Ruídos

Edigles Guedes

Ouço ruídos de quem anda a passear com salto
Alto ou como quem passeia de quebra insana
Da rocha na borrasca do mar, linda sereia!…
Ouço ruídos aluados: sapatos no asfalto?

Ou simplesmente o som inaudível da cana
De açúcar a partir-se no canavial? ou areia
E água atlântica, que entraram nos meus ouvidos
Sem pedir-me permissão ou benção com a mão?…

Ouço ruídos… São juvenis ruídos?… Latidos
De um latim extinto, mas que tão bem vivido
Está em nossa memória rara e imaginação!…

Ouço ruídos… Porquanto assim eu tenho crido…
São fogosos, como o sussurro ao pé calado
Do seu sorriso… São os beijos dos apaixonados!…

19-10-2010.

Passeio de Bicicleta

Edigles Guedes

Tu estás montada a cavalo na bicicleta.
É-me lindo ver-te os cabelos ao vento…
Inopinadamente, ouço o cálido assento
Ranger ante o peso de tuas pernas de atleta;

Teus musculosos braços aéreos, de ginasta
Olímpico, agarram-se ao guidom da máquina
A vapor de tua força; o teu short me alucina,
Entorpece-me a vida, que me brada: — Basta!…

Eu, porém, persisto com meus olhos ávidos
Por enxergar-te mais lânguida ave ao deslizar
Nas nuvens de asfalto, desse orvalho plácido…

Cedinho, de manhã, eis que eu me refestelo
Contigo, em pista de ciclismo, a civilizar
Tuas nádegas suaves de sentidos no prelo!…

18-10-2010.

Entoada Dúvida

Edigles Guedes

Ah! que dúvida eu sinto: não sei se é Amor,
Que guardas no teu coração de piegas;
Ou se finges tão bem que Amor carregas
Na cesta de Chapeuzinho Vermelho…

Ora coalhas em mim essa rude dor
De prisioneiro da alcova sem grades;
Ora apinhas em mim benigna fraude
De Amor em meu peito de escaravelho…

Porventura, eu sou algum Lobo Mau, grosso
De modos, com seus dentes de colosso,
Sua voz enfadonha de vovozinha?…

Quanto é dúbio esses olhos de andorinha!…
Em mim se aninha essa entoada dúvida:
É-se Amor ou finges na cama álbida?…

17-10-2010.

A Falta que o Armário me faz!…

Edigles Guedes

No armário do meu escritório estão postos
Alguns papéis avulsos, que eu teria
Jogado fora, se me houvesse em mão
Um cesto de lixo; ou isqueiro, solto

E fácil, para tocar fogo e chamas
Nessa papelaria da minha histeria;
Ou (quem sabe?) um requietório assaz caixão,
Para enterrar a desdita na lama…

Mas, de fogo, nem sequer jovial pavio
Eu encontro-o, quanto mais as chamas ditas!…
De lixo, o porteiro esse aviso prévio

Deixou-me à porta para recolhê-lo…
De lama, resta-me esse que me espreita:
O armário que me faz falta, por tê-lo!…

17-10-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...