Passeio de Bicicleta

Edigles Guedes

Tu estás montada a cavalo na bicicleta.
É-me lindo ver-te os cabelos ao vento…
Inopinadamente, ouço o cálido assento
Ranger ante o peso de tuas pernas de atleta;

Teus musculosos braços aéreos, de ginasta
Olímpico, agarram-se ao guidom da máquina
A vapor de tua força; o teu short me alucina,
Entorpece-me a vida, que me brada: — Basta!…

Eu, porém, persisto com meus olhos ávidos
Por enxergar-te mais lânguida ave ao deslizar
Nas nuvens de asfalto, desse orvalho plácido…

Cedinho, de manhã, eis que eu me refestelo
Contigo, em pista de ciclismo, a civilizar
Tuas nádegas suaves de sentidos no prelo!…

18-10-2010.

Entoada Dúvida

Edigles Guedes

Ah! que dúvida eu sinto: não sei se é Amor,
Que guardas no teu coração de piegas;
Ou se finges tão bem que Amor carregas
Na cesta de Chapeuzinho Vermelho…

Ora coalhas em mim essa rude dor
De prisioneiro da alcova sem grades;
Ora apinhas em mim benigna fraude
De Amor em meu peito de escaravelho…

Porventura, eu sou algum Lobo Mau, grosso
De modos, com seus dentes de colosso,
Sua voz enfadonha de vovozinha?…

Quanto é dúbio esses olhos de andorinha!…
Em mim se aninha essa entoada dúvida:
É-se Amor ou finges na cama álbida?…

17-10-2010.

A Falta que o Armário me faz!…

Edigles Guedes

No armário do meu escritório estão postos
Alguns papéis avulsos, que eu teria
Jogado fora, se me houvesse em mão
Um cesto de lixo; ou isqueiro, solto

E fácil, para tocar fogo e chamas
Nessa papelaria da minha histeria;
Ou (quem sabe?) um requietório assaz caixão,
Para enterrar a desdita na lama…

Mas, de fogo, nem sequer jovial pavio
Eu encontro-o, quanto mais as chamas ditas!…
De lixo, o porteiro esse aviso prévio

Deixou-me à porta para recolhê-lo…
De lama, resta-me esse que me espreita:
O armário que me faz falta, por tê-lo!…

17-10-2010.

Homem que se faz de Pedra

Edigles Guedes

Sou de pedra: noventa e nove por cento
De areia, de pó, no sangue verde de barata!…
Sem qualquer brecha, eu me ergo, como essa lápide
Tumular… Que secura de seus sentimentos!…

Aqui, no almocávar da minh’alma, eu medito
Um cadinho sobre mim — criatura cordata…
Pois bem, no papel ofício, uma tangetoide
Eu traço, procurando o fio fraco e abscôndito

De união ao rés da pedra, que me desperdiça…
Ah! Que sangue de pedra!… Tropeço e carniça —
Eu sinto-me que sou; mas, há muito que penar!…

Por isso, faço-me de pedra exemplar, sem par
Na face da terra, que de vício e vaidade,
Vive-se divagando sem identidade…

17-10-2010.

Cartilha de Amar

Edigles Guedes

Pesadas pálpebras de sono socorrem-me
Dos sonhos malfadados dessa realidade,
Que me circunda sem aparente motivo…
É madrugada seresteira e tão disforme

É essa ostra de Flaubert, que me escondo todo o dia!…
Há uma peleja sorrateira na cidade
Dos meus pensamentos à socapa, sem crivo
Ou liberdade de evasão muscular… Tardia

Lembrança — que me faz prostrar diante do sono
Amigo — recebe-me em rudes aposentos
Com quatro pedras na mão… Eis, sim (paroxítono

Pássaro que sou), como poderia me enganar
Com sonhos de Amor venturosos?… Se lamentos
São letras fortunosas na cartilha de amar…

17-10-2010.

Marionete Pícara

Edigles Guedes

De repente, tal qual elefante que agarra
Certo objeto de estimação pela tromba,
Eu lancei a ti o meu olhar comprido e pernas bambas…
Quedara-me da cadeira de balanço,

Quando percebi que teu braço franco amarra
O cadarço de teu lábio ao sapato atroz
De meu beijo!… Ah! eis que me senti tão veloz
Passarinho a correr frívolo em teu encalço…

Assim, pruridos de pensamentos estivos
Invadem-me a alma cativa de teus olhares…
O que fiz para merecer favor esquivo

De tua benevolência, de tua atenção para
Comigo?… Ah! quem me dera que pernas hílares
Tuas fizessem-me uma marionete pícara!…

16-10-2010.

Colher Cabelos

Edigles Guedes

Colhi os teus cabelos na palma da minha mão…
Eles eram tão suaves plumas, que adejaram
Serelepes; eis se vão, sem me pedir perdão…
Perdão de quê?… Logo, todos me perguntam.

Perdão por me machucarem com esperanças,
As quais — como onda de mar aberto — levam
E trazem saudades de Amor perdido… Crianças
Peraltas e traquinas são os teus cabelos!…

Ó cabelos rubros e ruivos! que me raivam
Com tuas plumas esvoaçantes, ao escarnecerem
De mim, nesta tarde de olhos brandos e belos!…

Ó cabelos! que os colhi com bastante zelo
Na palma da minha mão!… Eis que ao alvorecerem
Os tênues anos jamais verão igual anelo!…

16-10-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...