Dipsomaníaco Coração

Edigles Guedes

Desventura de mãos capitulares
Em corpo transcendente de si mesmo.
Desafortunadas pernas ciliares
Na constelação de abléfaro orgasmo.

Desbloqueados olhos que me olham glaucos,
Como chuva em curta curva elíptica.
Penumbra que sonha pés mamelucos,
Indo e vindo por caminho tarouco!…

Desmemoriada gangrena de outrora;
Putrefato tempo, que freme, agora,
Seus irremediáveis aços de calma!…

Amor: palhaço do dipsomaníaco
Coração, embriagado pelo ambrosíaco
Perfume, que se evola da isógama!…

10-4-2010.

Tarde Verrugosa

Edigles Guedes

Debruçado na janela do quarto,
Vejo um carro de boi a vagar estrada
Da hora. É meio-dia e o calor, ingrato infarto
De suores no intermúndio de mim, com zoada

Escaldante, chama-me para a sesta!
Aceito o convite de bom grado. Azo
De bate-papo na varanda. Fresta
De descanso em meio ao ramerrão frustrado…

O calor como sempre nada fala,
É silente tal qual ébria fornalha
Temulenta, espigaitada. Amígdala

De voz incongruente, a rede enjoosa
Balança-me nos braços em migalha
De sono, nesta tarde verrugosa.

10-4-2010.

Mãe: Amor Inviso

Edigles Guedes

Mãe, o teu ventre foi campo fértil para
O embrião — que era eu. Campo de batalha crua,
Milhões de espermatozóides em seara
De competição abléptica: casa nua

De carne e óvulo, pequeno Polegar
Sem botas de sete léguas… Teu ventre
Foi concha quentinha, que me fez esgar
De pássaro em noite sessiliventre!…

Mãe, o que posso dizer a ti? Clipes
De ideias sésseis e tão voláteis quanto
Esse alvorecer entre herpes e dropes!…

É tão bom o teu colo de sorriso
Anil, que nem céu de estrelas em pranto!…
Mãe: colcha de interciso Amor inviso!…

10-4-2010.

Copo em Têmporas

Edigles Guedes

Copo, corpo torto, de matéria ovo;
Cuja gema é a molécula de essência
Surda: não ouve os bastidores do polvo
De dores alheias, não ouve a vítrea ciência

D’alma das coisas, animais e flores;
Cuja clara é a célula de aparência
Máscula das horas instáveis, sabre
Das areias movediças, indecência

Do umbigo da cor branca, fungo leso.
Copo, corvo ao pó despojado, lado
Bê da vida em vinil de vidro. Obeso

Jogo entre impúbere céu arcaico e chuva
De abril temporão; em têmporas de assado
Tempo na frigideira que se curva!…

9-4-2010.

Maçã de Espelho

Edigles Guedes

Minha benquerença por ti é comparável
Às turquesas mãos derretendo-se em fogo
De língua hematita, acrisolada. Arável
Coração de crisocola!… Catálogo

De mim, fico enlevado, olhos de tigre
São os teus. Não sei se minto ou digo a verdade,
Quando afirmo: — Ah! Amor de boa avença!… Milagre
Da boa esperança!… Amor de adiposidades

No tato da pele turmalina. Adaga
De quartzo são os teus pés: encanto de áspides!…
Louco papa-léguas (eu sou) da fadiga

Do amanhecer entre lençóis e ametistas
Coxas… Ágata muscínea, amarílides
Beijos em tua maçã de espelho aforista!…

9-4-2010.

Sete Cítaras

Edigles Guedes

Sete cítaras septibrânquias: sede
De sedas surrupiando o cálcio suco
D’alma do ser septíssono!… Alípede
Vento de som sitibundo, aqualouco!…

Sete cítaras septívocas cantam
O chalrear de inequívocas piritas!…
Lápis-lazúli de coração tam-tam,
Expedito, sopra a flauta chedita!…

Sete cítaras em louvaminha — foz
De cataratas do Níagara solta
Em baque de queda de cutelo algoz

Sete cítaras em cólica de tom
Camaleão septicolor… Giravoltas
De obsidianas nuvens de puído ultrassom!…

9-4-2010.

Peixe-Mulher

Edigles Guedes

Labirinto de Minotauro que me
Desfiei o fio da meada. Como Perseu
E o Jasão (agro cnidário) eu culatreei meu
Destino; se fado houver de azedume

Tal qual este, o meu. Não sei por que a fama
De Medusa é de mulher invejosa?…
Ela não sabe que é muito chorosa
A lágrima de peixe ígneo na cama!…

E de peixe ferrugíneo é que se faz
O Amor mítico das pernas femíneas!…
E que peixe icteríneo, segue atrás

Da fila indiana das horas em conchas
De pérolas lilacíneas e lígneas!…
Ah! Peixe-mulher que me medusa, anchas!…

8-4-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...