Peixe-Mulher

Edigles Guedes

Labirinto de Minotauro que me
Desfiei o fio da meada. Como Perseu
E o Jasão (agro cnidário) eu culatreei meu
Destino; se fado houver de azedume

Tal qual este, o meu. Não sei por que a fama
De Medusa é de mulher invejosa?…
Ela não sabe que é muito chorosa
A lágrima de peixe ígneo na cama!…

E de peixe ferrugíneo é que se faz
O Amor mítico das pernas femíneas!…
E que peixe icteríneo, segue atrás

Da fila indiana das horas em conchas
De pérolas lilacíneas e lígneas!…
Ah! Peixe-mulher que me medusa, anchas!…

8-4-2010.

Fátua Donzela

Edigles Guedes

Cabeçalho de tarefa de casa,
Asa de andorinha passarinheira,
Pécora pulcra que nem boi na brasa,
Pérola áspera sem beira nem eira!…

Tua rosa… perfume evola-se acerba
Pele de nariz febril. Termômetro
De paixão violenta, que a quilômetro
De distância inflama e queima; soberba

De pernas em bateria de exército
Amigo da infantaria de agres coxas
Em cio de briófitas, em cio ciófito!…

A noite dilacera suas estrelas
De sentimentos tão cógnitos!… Roxas
Orquídeas vicejam… fátua donzela!…

7-4-2010.

Hidrângeas Coxas

Edigles Guedes

Tropel de sentidos fluidos: os mares
(Em faúlhas de água e sal) espalmam terras
De muitos anos-luz. Eia, vaivém de ares
E vagas!… Gasosa escuma — que erra

Pela fenestra do vento indômito!…
O urro de sol na areia da praia no prazer
De corpo desvestido, calmo ábdito
Das horas de outrora. Noite de lazer

Dos lumeeiros que luzem suas lanternas…
Lago de Amor é o teu regaço, aberto
Para os meus braços de ingentes apertos!…

Ovelhas mãos, délias mãos de cisternas!…
Anêmonas pernas, que viçam jasmins!…
Hidrângeas coxas que se rojam em mim!…

7-4-2010.

Meros Espasmos

Edigles Guedes

Debalde, procuro entender as flores;
Mas não sou algum botânico, em contramão
Da taxonomia dos almários seres!…
É inútil a filosofia: meu pulmão

De pensamentos. Viver não se rende
Ao charme da razão crua e nua dalgum Kant.
Viver ultrapassa a rede que prende
O intelecto à emoção dum canto. Cante,

Meu amigo, esse momento, porque existe
O momento independente de você
Querer ou não. Este momento em que riste

De mim, não precisa do teu sarcasmo
Para existir; ele existe veloce
E trivial!… Nós somos meros espasmos!…

7-4-2010.

Fulminívomo Mortal

Edigles Guedes

Sempre entre risos, há uma lágrima,
Que rola pela blandície da tez
Rubicunda. É pouca essa palidez
Das horas, quando estou nesta cama

Contigo, minha cálida amada!…
Não me cansarei a correr perigos
Por te amar; como ágil herói ázigo,
Sofro venturas bem abreviadas.

Por que choras por mim?… Eu sou teu, assim
Como a lua pertence à noite, como
Molly Bloom no feudo canto de sim!…

Não chores! meu bem, a noite já vem…
E eu, estátua de mim, fulminívomo
Mortal, enfrento a borrasca-nuvem!…

7-4-2010.

Retrato Rasgado

Edigles Guedes

Retrato rasgado não se emenda.
Por que há em teus olhos de tigresa
Tanta raiva raiando em rios? Tremenda
Fúria por uma boba magreza

De vaso, que acidentalmente caiu
Do terceiro andar da estante, cheia de
Bibelôs sem valia. Rosto descaiu
O teu; tua cútis de aurora — rede

Que pescou meu coração — desfez-se
Em apuro de vermelho seco!…
Por que a tua face pesa sobre mim?…

Não se ire! meu benzinho… Olha: desse
Chove e não molha, é melhor bravo eco
Soar de Amor e compaixão, meu jasmim!…

7-3-2010.

Mulher Aulétride

Edigles Guedes

Abrupta, ela chega com sua bolsa
De camurça (linda de dar dó!). O sol
De meio-dia, deixou na varanda de
Casa, junto co’as sandálias broncas!…

O seu vestido dança essa valsa
Vienense, como débil girassol
A seu bel-prazer, à sua vontade…
Acolá: a lua — adormecida — ronca

Suas mágoas de namorada traída
Pelo sol com as estrelas. O mundo
De noctiluzes, de lampírides,

Percebe-se que é sob encomenda
Para o seu busto: colo infacundo,
Pudibunda mulher aulétride!…

7-4-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...