Chaga de Amor

Edigles Guedes

Quem fez essa chaga de Amor no peito
Meu? Que mão torta desenhou tal chaga?
Foi a tua mão que apunhalou de jeito,
Meu Amor, o coração ingrato! Praga

De Amor pega, e infecciona os rins d’alma.
Se não fosse assim, por qual motivo
Você chora? Sim, chorar limpa a lama
Tábida do coração taxativo.

Nesta noite de março, mosca reles
Pousou na sopa, estragando-a. Ventania
De sopro tépido tange que tangia

A mosca intrépida. Tanta dor dura,
Mais forte dói: mosca em chaga vã e imbele!
A chaga do Amor, quem a faz a sara!…

16-3-2010.

Que Dores

Edigles Guedes

Que dores são essas, que me sinto?
Dores que doem a minh’alma, salvo
Aquele lídimo sentimento!…
Dentro do pensamento alusivo

Ao meu ser, existe a querela:
Do ser outro de mim (eis que minto)
Ao ser que me perco, de mi’ amigo.
Que dores são essas, que me sinto?

São dores de amores, que navegam
A minh’alma — naufraga comigo
Da nau de mim. Vagas, puídas, vergam

Inóspitas procelas. As velas
Páticas enxergam a bonança
Serôdia, no alvorecer da esp’rança!…

15-3-2010.

Perto do meu Jardim de Delícias

Edigles Guedes

Que dano há em meus olhos a de ver?
O mesmo dano que há em a não ter
Perto do meu jardim de delícias.
As tuas víscidas mãos em carícias.

Os teus beijos tépidos, úvidos,
Vívidos, ao pé do meu ouvido…
Causam-me dano por tê-la a palmo
De minhas mãos. Tocá-la por viola

Plangente nos meus braços. Eu, calmo,
Sigo tateando sua tez. Cautela,
Tal qual Pablo Picasso em pintura

Cubista de suas mulheres. Dano
Não há na tela em que o vil dorso dela
Repousa. Amor, que Amor meridiano!…

15-3-2010.

Alma Treda

Edigles Guedes

Por enquanto, Senhora, quis Amor que me amasse;
De tal maneira que Amor vicejasse na terra
Do meu peito; semeado por boca prisca, que erra,
Roçando os meus pelos eriçados. Tal como se

A água do Mar bebesse, e por mais que salgado
Fosse, mor era a sede de bebê-la por doce
Água; tal como se findasse o dia, antes márcido,
Num céu toldado, e gota de chuva perfurasse

O horizonte infinito e curvo de sua máquina
Do mundo. Ah! gota de chuva, que leva consigo
Essa tórpida máquina do mundo! Lancinas

Em mim essa dor voraz, por quem a treição muda
Meu semblante olvido. Amigo, coração trêfego,
Se não deixes velhaquear por alma leda e treda!…

15-3-2010.

Mosca

Edigles Guedes

Uma mosca de asas frígidas,
De pernas bastantes róxidas,
De bom paralelepípedo
Reto na pachorrra. Róxidos

Olhos: bárbaros e compostos;
Que se felicitam nos postos,
Na vanguarda do rosto imberbe.
As patas geram hecatombes

Por bactérias nocivas. Danos
Obnóxios aos de trato humano.
Fosco corpo paquidérmico.

Pneumotórax de voz. Nanico
Inseto, vento de volição,
Volve matéria de afobação!…

15-3-2010.

Nau Tosca, Ventos Ilesos

Edigles Guedes

Desvencilhei velas pandas,
Adornei leme ríspido.
Enfunou vento tórrido
Os fiapos de velas findas...

A embarcação mui flutuava
Pelo mar de desgrenhados
Cabelos. Ventos salgados,
Nefandos, que a nau empurrava.

Esta nau Fado é. Férvidos
Ventos são teias, quando Parcas
Indômitas tecem Fado.

Que Fardo é esse? Que peso
Nos ombros! Nas mãos: Noé de arca?…
Nau tosca, ventos ilesos!…

14-3-2010.

Beijo de Fada

Edigles Guedes

Um beijo legítimo nunca vale tanto como um beijo furtado.
Guy de Maupassant

Apraz-me sentir em meus lábios
Os lábios teus, assaz jungidos.
Eis que por sentir este sábio
Labro ao meu — logo, galardoados

Por pruridos indescritíveis —
Eu, casto, almejei a tua tórrida
Pele calada em susceptíveis
Beijos furtados. Em venida

Por mim, cá, a tua boca rendeu-se:
Vencida por um curto ósculo.
Meus olhos nos olhos teus, doces

Flamingos pairavam na escada
Do colégio. E fiquei trêmulo,
Por aquele beijo de fada!...

13-2-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...