Enquanto Escovavas os Dentes

Edigles Guedes

Tu escovavas os dentes por entre espumas
Dalgum dentifrício. E, enquanto escovavas,
Deixavas transparecer no vidro d'alma
O teu sorriso. Ah! manhã que se louvava...

Teus olhos garços, no espelho translúcido,
Rumorejavam o alisar da água verde
Na pele da pia matutina. Roupido
Em meu roupão azul-marinho, a septicorde

Mãos minhas naufragavam em tua cernelha.
Esgarcei uma carícia na minha ovelha
Benquista. Tu me olhavas languidamente.

A água (como riacho cândido, que inerte,
Mira no horizonte da cachoeira) troou:
— Beijas esses dentes alvos, senão eu me acamboo!...

13-2-2010.

O Amor é Cínico Cego

Edigles Guedes

Leixei-me quedar num abismo escuríssimo,
Como Excalibur — certa espada armipotente
Do valoroso rei Artur — foi jogada (no istmo
De sua morte ao seu mito) num lago; e os candentes

Braços duma Senhora acolhera-a em seu regaço.
Agora, neste claustro, cumpro pena em lugar
Do réu — meu coração! —, que clama pelo laço
De perdão da Dama amada. Vida: a subjugar

Meus desdouros flamantes de Amor, consumidos
Pelas mágoas dos olhos teus. Vivo, portanto,
A pelejar contra sentimento dorido,

Que me abisma sua incisão na descabida
Alma. Amor é cínico cego que vê o visto,
Mas cala-se a boca cérida e comovida!…

13-2-2010.

Pétalas de Amor

Edigles Guedes

Isaque, uma vez pretérito de dias,
Cego caminhava no seu atro leito;
Quando mandou seu filho Esaú de peito
Túrgido, co' aljavas e arcos ir, por via

De floresta ou campo, atrás duma caça
Para guisado sápido. Foi-se Esaú,
Tigrado; veio Jacó, de tratadas baú,
E por caça, lentilhas de sopa assa.

Jacó de conluio com Rebeca of'rece
O manjar a Isaque, que já perece.
Jacó: regou logro, colheu pérola.

Assim, Senhora, finges Amor me dar;
Quando, em verdade, sofro eu co' este penar
De Amor não colher sequer as pétalas!...

13-2-2010.

Atei-me a mim

Edigles Guedes

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui.
Fernando Pessoa

Atei-me a mim só por um breve momento,
Como quem amarra aos laços os sapatos.
Não sei que Amor se compraz ou dor imberbe
Em me enlear aos braços bastantes, alforbes

De amores. Então, por Amor cerzir meu imo
Aos pedaços; teci sobremanhãs, teso,
Nas espáduas, no colo de Amor vindimo!...
Enfastiado dia! Meu coração contuso

Quer o ósculo da donzela, que graciosa
Baila no campo em flor. Um beijo cúpido
Na cútis da serrana bela, amaviosa.

Eu, zagal râncido, por campos róridos,
Turbo-me ao ver Amor plangendo, castiço,
Seu aljôfar, em campinas, graúdas, de enliços!...

12.3.2010.

Quem Olha

Edigles Guedes

Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.
Carl Gustav Jung

Quem olha para fora, voa e sonha;
Porque sonhar é sem fim, ventura;
É a pujança que brota em candura
Dos olhos que soam. Címbalo em fronhas

A quem se ama: os pombinhos ciumandos.
Voam, assim, os sonhos caprichosos,
Dos arrebóis. Sonhos co' asas certas.
Quem olha para dentro, desperta.

Tateio as paredes de dentro em mim
E encontro o grifo, cá, acorrentado,
Como Prometeu inglório, sonhoso,

Angustiado por águia em jardim
De aflições. Logo, o despertar partiu
Sua procura em mim; quem lhe repartiu?...

12.3.2010.

Alma Decorativa

Edigles Guedes

Deus fez da minha alma uma coisa decorativa.
Fernando Pessoa

Deus fez um jardim da minh'alma
De crisântemo, flor singela
Que emudece o colibri, calma
Bonançosa, mui magricela...

Se minh'alma é decorativa?
Eu creio que todas são: ou de vasos
Em cacos, ou de ânforas vivas...
Destarte, chovendo olhos rasos

No jardim de minh'alma, lassa,
De labutar contra a tormenta
Do Mar rubicundo. O Mar assa

Suas asas na areia da praia sonsa.
A alma frustrada assaz se lamenta
Tinge-se de sereias, loas mansas...

12.3.2010.

Água Corrente; Amor

Edigles Guedes

Uma cousa que tanto anda
E nunca chega aonde quere…
Dizem as línguas benditas:
É a água corrente, líquida.

Já eu digo que é peraltice
De Amor; que, com lança, fere
A alma lúrida, interdita…
Ilíquido Amor, que pasce

O Mar de cama, lúbrico;
O Mar em casal lírico
Co’a Rocha: coral de palor!…

No frigir dos ovos, o olor
De Amor rescende por toda
Parte. Que vápida vida!…

11-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...