O Vento Pascia as Nuvens

Edigles Guedes

O Vento — de cor azul e lasso —
Dobrou o páramo esquálido,
Na manhã que folgança de março.
Vento insólito e combalido!…

Nuvens aurifúlgidas e infractas,
Ao sabor do pincel de Verlaine,
Amalgamavam o céu. Transactas
Nuvens deambulavam, tais aerofones.

O Vento pascia as Nuvens plácidas!…
Eu regozijei-me co’a Pastora
Do meu Coração. Com mãos dúlcidas,

Ela cerziu paixão no tórax são
De mim. Eu declamei a gaiata Aurora:
Há Amor que se jubila o Coração!…

8-3-2010.

Paisagem Marítima

Edigles Guedes

A vaga do Mar violentou desassossego
Do Rochedo; as escumas culminaram, sonsas,
Em glória de existir por um breve fôlego
De vida; as bolhas salgavam a tarde alonsa;

Anêmonas acaracolavam guarda-sóis;
As conchas encaramujavam-se moluscos;
As algas encaranguejavam-se girassóis;
As estrelas do mar caçoavam tentáculos;

O plâncton estava abundoso, intransponível…
A onda goteja suas escumas, que alarida!…
O vaivém choraminga o lixo descartável.

O vento boqueja seus lamentos nas águas.
A areia tão vítrea, tão fulgente, tão aborrida,
Deixa-se lavar por minhas álbidas Mágoas…

7-3-2010.

Autorretrato

Edigles Guedes

Teus são esses óculos furibundos;
Tua camisa de botões, mangas curtas;
Tua calça comprida, de vestimenta;
Teus olhos flácidos, meditabundos;

Teus sapatos negros, com graxa álgida;
Tua pele castanha, gáudia, de anfíbio,
Inebria tua tarde luada, lânguida;
Tua sensatez, que te cinge de brios;

Teu rosto inube, que, sem mácula,
Sofre aleivosia da mulher amada,
Tolera o blefe dos amigos da onça;

Joeira em tua índole a pequena trela:
Que o Amor te pungiu co’ adaga alada
Por trás. Eu que careço de querença!…

7-3-2010.

Que Fazer?

Edigles Guedes

O que fazer?
Mulher largou,
Frio cortou-se,
Bonde calou.

O que fazer?
Doce acabou,
Rio findou-se,
Leite coalhou.

O que fazer?
A isca logrou,
O trem foi-se,

O ovo gorou.
Madrugada
Sem escape!...

7-3-2010.

Ontem foi Cedo

Edigles Guedes

Ontem foi cedo para conhecer a vida,
Que lancina no regaço da Poesia. Agora,
Sobejou-me saber a Poesia na virada
Da canoa da vida. Ela, com resbordo, marca

Registrada do alvorescer, que (sara?) tarda
A florescer do novelo das horas. Tudo
É tão infinito quanto alma, que (felizarda)
Golpeia, bruta, no coração dilacerado

De dor. Por quem choras esse aljôfar em gotas,
Minh’alma? Choras por mim? Quem sou? Não mereço,
Sinceramente, não mereço!… Sou tropeço

No sendeiro dos outros, como a pedra basta
No caminho de Drummond. Bem, resguardas
O teu pé para não tropeçar, resignada!…

7-3-2010.

É mais Fácil Evitar o Amor...

Edigles Guedes

É mais fácil evitar o Amor, quando inda se não tem;
Que deixá-lo, quando existe. Mas, eu sou demasiado
Incomensurável, quando te amo!… É como se o pardo
Mar, que há dentro da caixa de pensamentos, num pentem

Olvidasse um piolho de memória assaz devastada.
Antes, eu não tivesse exp’rimentado do estrépito
Amor, essa Dama cálida. Sagazmente apito
Para a carruagem do Amor: Pare!… Respeite a balada

Em trânsito do meu Coração, flechado por uma
Hedionda seta de Cupido infausto. Naquela
Manhã, que sorriste para mim; e eu sorria a ti, alguma

Cousa fisgou-me pela atmosfera, cá, perniciosa
De ventos. Não foram teus feromônios… Ah, com gula
De devorar-me!… Era o Amor: a deixá-la adulteriosa!

7-3-2010.

Amor que Azulece

Edigles Guedes

A emenda saiu pior do que o soneto.
Eu juro que tentei, porém frustrei
Todas as minhas fúrias. Deserto
Estou de mim. Pálido, aviltrei

Uma solução para o mal de Amor.
Sabes qual é? Desvencilhar-me de
Ti. Minha Dama não escuta o clamor
Do meu talhe infante. Juventude,

Que fonte eu não compraria? Por um triz,
Que me afogo no Oceano, vassalo
De tuas madeixas. Perdoe-me, auletriz,

Por meu ciúme obsessivo. Calo-me,
Eu morro que padeço de zelo
Por ti. Amor que azulece meu abdome!…

7-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...