Amor Escreve-me

Papel de aço no peito para suportar
Agruras sem fim!… Tragédia grega outra
Que sucumbe no íntimo de mim!… Ah! partir
Como se parte as duas partes da mesma ostra!…

Parto-me, divido-me em vis tentáculos
Num mar insidioso… Sou criança em biciclo…
Eu pedalo por ladrilhos imáculos…
Eu buzino em guidom da cor de caboclo…

E o Amor escreve-me: — Cabelos sem caspas,
Panelas sem canecas, moscas sem sopas,
Cordas sem tampas, pensamentos sem aspas:

Assim é você e sua alma sem ósculos
Da Dama de Vermelho!… Crus epiciclos
De sentimentos roem carnes e músculos…

21-3-2012.

Caríssimo Aljofre



Edigles Guedes

Espreitei caladamente a tua foto,
Deitada em mesa de carinho e afeto…
Dói-me! e como me dói! dor de dente e afta
São teus perfumes de mulher com nafta!…

Então, num longo e desgracioso gesto,
Responde-me com desdém sobre um isto
Ou um aquilo vagamente… De resto,
Olho-te furtivamente o benquisto

E lhano olhar teu, quando tem por fulcro
Teu olho de ametista — cofre sem lacre:
Como fosse luto ganho sem lucro!…

Eis que pinga em mim caríssimo aljofre
De teu rosto angelical, que me fere!…
Eu triste toco meu pequeno pifre …

20-3-2012.

Jardineiro


Edigles Guedes

Jardineiro fui de um jardim sem rosas:
Colhia somente espinhos e esquecia-me
A flor que verdejava nas más horas!…
Grudei meus olhos fidos em seu talhe

De princesa lúbrica com mil dotes…
Ao andar, seu talhe espetala as calçadas…
Seus olhos fúlgidos (que me não olhe!)
Fuzilam-me a minha acidífera alma…

Alíferos seus beijos que voluteiam
Nos céus da cor azul com tórrida e feia
Lua, navegando seu branco em bandeja

Argêntea… Passeia entre cravos — ela…
Seus pés de jasmins evolam perfumes
Suaves de luzes, que estrelas reluzem!…

20-3-2012.

Cerca Inútil



Edigles Guedes

Cerca inútil que planto no jardim de
Minh’alma, temendo que algum bandido
Roube de mim esse Amor deslambido!…
Ah! se ela tão somente me fugisse

Dos meus pensamentos tão libertinos,
Isso já era o bastante p’ra sossegar
Meu coração temente!… Mas o ofegar
De minhas mãos e nossos desatinos

Provocam-me a sensação descontente!…
Pulou-me a cerca o teu coração fugidio,
De um pio salto saiu pelo mundo erradio…

Piedoso salto de acrobata do Amor
Que me libertou da estranhíssima flor
De sentimentos, ó jardineiro ente!…

19-3-2012.

Fútil Cerco


Edigles Guedes

Em cada ambívio — que passei — topei
Com a figura mansa de minha
Carne dolorida… Ó minha Sina!
Cujas entrelinhas reli e tresli…

Mas, nada, simplesmente nada sei
Da fogueira das vaidades que arde
No meu peito de pedra de jade!…
Sigo — como tinta desinfeliz

Dessa caneta esferográfica
No papel dúplex… Onça maligna
Que se afoga em seu próprio vômito!…

Ó meu corpo! por demais sofrido:
Tenha pena de mim, pois me perco
Em cada encruzilhada — fútil cerco!…

19-3-2012.

Dinamite crua



Edigles Guedes

Madrugada opaca dentro de mim…
Não sei se o navio da Desilusão
Resolveu partir do meu vil jardim
De frustrações mil!…Ando salvo e são

Dos meus pensamentos agônicos,
Por enquanto… Amanhã, a depressão
(Doença dos Desencantos fônicos)
Fará de mim um feto sem ventre!…

Sinto-me tal como mais um dentre
Milhares de corpos tardios, cuja
Gula — ou pecado pútrido — suja

A alma carente de luz e explosão!…
Sou uma dinamite crua sem pavio:
Perco-me em cada noiva de atavio!…

19-3-2012.

Um Reles trem e Fêmea Fumaça



Edigles Guedes

Um trem veio que veio: fumaça chegou.
A gare superlotou de mimos,
Paletós ambulantes, sorrisos
Transeuntes, cheiro forte de cobu!…

Um trem descarrilhou sua fumaça.
Narinas – civilizadamente
Sujas – limpam-se aos lenços. Desgraça
De trilhos que não passam: demente!…

Um trem e sua fumaça de maria.
Perfume que se evapora. Nuvens
Negras em branco dia: um quê sem ira!…

Um reles trem – só máquinas nas veias –
E fêmea fumaça de felugens
Rompem a manhã de teias tétricas!…

10-3-2012.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...