Jardineiro


Edigles Guedes

Jardineiro fui de um jardim sem rosas:
Colhia somente espinhos e esquecia-me
A flor que verdejava nas más horas!…
Grudei meus olhos fidos em seu talhe

De princesa lúbrica com mil dotes…
Ao andar, seu talhe espetala as calçadas…
Seus olhos fúlgidos (que me não olhe!)
Fuzilam-me a minha acidífera alma…

Alíferos seus beijos que voluteiam
Nos céus da cor azul com tórrida e feia
Lua, navegando seu branco em bandeja

Argêntea… Passeia entre cravos — ela…
Seus pés de jasmins evolam perfumes
Suaves de luzes, que estrelas reluzem!…

20-3-2012.

Cerca Inútil



Edigles Guedes

Cerca inútil que planto no jardim de
Minh’alma, temendo que algum bandido
Roube de mim esse Amor deslambido!…
Ah! se ela tão somente me fugisse

Dos meus pensamentos tão libertinos,
Isso já era o bastante p’ra sossegar
Meu coração temente!… Mas o ofegar
De minhas mãos e nossos desatinos

Provocam-me a sensação descontente!…
Pulou-me a cerca o teu coração fugidio,
De um pio salto saiu pelo mundo erradio…

Piedoso salto de acrobata do Amor
Que me libertou da estranhíssima flor
De sentimentos, ó jardineiro ente!…

19-3-2012.

Fútil Cerco


Edigles Guedes

Em cada ambívio — que passei — topei
Com a figura mansa de minha
Carne dolorida… Ó minha Sina!
Cujas entrelinhas reli e tresli…

Mas, nada, simplesmente nada sei
Da fogueira das vaidades que arde
No meu peito de pedra de jade!…
Sigo — como tinta desinfeliz

Dessa caneta esferográfica
No papel dúplex… Onça maligna
Que se afoga em seu próprio vômito!…

Ó meu corpo! por demais sofrido:
Tenha pena de mim, pois me perco
Em cada encruzilhada — fútil cerco!…

19-3-2012.

Dinamite crua



Edigles Guedes

Madrugada opaca dentro de mim…
Não sei se o navio da Desilusão
Resolveu partir do meu vil jardim
De frustrações mil!…Ando salvo e são

Dos meus pensamentos agônicos,
Por enquanto… Amanhã, a depressão
(Doença dos Desencantos fônicos)
Fará de mim um feto sem ventre!…

Sinto-me tal como mais um dentre
Milhares de corpos tardios, cuja
Gula — ou pecado pútrido — suja

A alma carente de luz e explosão!…
Sou uma dinamite crua sem pavio:
Perco-me em cada noiva de atavio!…

19-3-2012.

Um Reles trem e Fêmea Fumaça



Edigles Guedes

Um trem veio que veio: fumaça chegou.
A gare superlotou de mimos,
Paletós ambulantes, sorrisos
Transeuntes, cheiro forte de cobu!…

Um trem descarrilhou sua fumaça.
Narinas – civilizadamente
Sujas – limpam-se aos lenços. Desgraça
De trilhos que não passam: demente!…

Um trem e sua fumaça de maria.
Perfume que se evapora. Nuvens
Negras em branco dia: um quê sem ira!…

Um reles trem – só máquinas nas veias –
E fêmea fumaça de felugens
Rompem a manhã de teias tétricas!…

10-3-2012.

Meu Coração Duro


Edigles Guedes

Despeço-me do monstro marinho
Sem lenço na mão para acenar-lhe
Um adeus de longuíssima data!…
Não trago comigo esse carinho

De infância perdida ao saltar pipas,
Brincar de esconde-esconde… Fiz tripas
Meu coração duro, empedernido…
Eis que nem martelo com rugido

Quebra-lho em fagulhas!… Oh! desata
Esse cálice de mim na calhe
Que sigo por entre pulcras pedras!…
 
Quanto me pesa um adeus não dito!…
Levo na bagagem o olho fito
Na muralha: que pedras! mais medra!…

10-3-2012.

Esse rio


Edigles Guedes

Ah! esse rio – sem cabeçalho
Ou rodapé – atravessou-me
Braços largos o bandalho
Do homem que sou!… Entristeceu-me

Deveras. Frio e caudaloso
Rio que trafega no vácuo,
Que há fora de mim… Sinuoso
E frio, o rio assoma que inócuo!…

Eu não sei que névoa anuvia
Meus olhos – pavios tão cegos!…
Mas sei que o rio segue por via

Jamais vista na pradaria…
Moles, míticos morcegos
Sobrevoam rio, frio, calmaria!…

9-3-2012.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...