Ao Olhar o Guarda-Roupa



Edigles Guedes

Ó guarda-roupa imaturo! em que vestimentas
Se amontoam no pouquíssimo espaço sideral
Entre as colunas de madeira… Ser vegetal
Que nada sabe das quantas mil blaus tormentas

Sofri meu estilo frutiluzente de vestir
Adjetivos, quando só substantivos chegam
Na garganta ínvia; os verbos, inócuos, que negam
Esse estranhamento de balmaz sem assentir

Do parnasiano martelo, um quê modernista
De mistura com radical simbolista…
Portanto, no acento circunflexo das horas

Que passo, abismado, a olhar esse dicionário
Ou gramática – cais de vestes –, o incendiário
Poeta na máquina de lavar joga amoras!…

18-9-2011.

Solitário no Vaso


Edigles Guedes

A escova de dente dorme tão sossegada
Quanto aéreo aeroplano em voo de ave musical…
Descansa curva contra coluna cervical.
Suas cerdas cervicórneas… Cala abodegada

Sereia da higiene bucal – as cáries, imigas
Do esmalte e da dentina, apavoradas, cerram
Os dentes de ácido ódio lático e desferram
Sua cólera insubmissa em rapsódias, cantigas…

Bactérias, suas fermentações da sacarose,
Fazem festa de arromba com broto frutose.
Enquanto isso, acolá, no moço sanitário

Soergue-se um santuário de dores virulentas;
Pernoito no vaso plantado por violentas
Agonias sem aleluias – homem solitário!…

18-9-2011.

Reflexão de Formiga



Edigles Guedes

Incansavelmente, a formiga
Indicava: – Prossiga em frente!
O inverno desastroso e amiga
Cigarra (preguiça demente)

Seguem à vanguarda da gente.
Avante! de folha por folha,
Colho suprimento presente.
Tudo é mera questão de escolha?

A causa e efeito que suscita
Pergunta entre primos e crivo
De Eratóstenes escomunal.

Ser ou não ser? Hamlet duvida,
Logo existe: finito e sido
Ele mesmo sem o desigual.

18-9-2011.

Belo Monte, a Hidrelétrica do Xingu



Edigles Guedes

Demito-me do existir burocrático,
Dessas horas burras: jumento senador
Que vota, em plenário, leis democráticas
Do regime de águas hidrelétricas, mor

Impacto ambiental na floresta e ribeiro.
Desastre anunciado da morte – cratera
Vulcânica de terror às palafitas,
Que se penduram nas margens, onça e fera,

Do rio caudaloso, já extinto de antemão!
Índios, posseiros, fazendeiros, grileiros,
Seringueiros: povo viaja na contramão

Da história escrita à dor e sangue, típico
De  brasileiro – américa veia latina!
Consórcios, acorrentados: que latrina!

18-9-2011.

Filtro d’Água


Edigles Guedes

Ora, que água potável a escorrer líquido
Vapor condensado em minha castanha boca!…
Desenhado por mãos de barro, da substância
Barro é feito a embalagem, ou invólucro, ou toca

De pombo-correio, que anuncia (audaz mensageiro)
Mensagens de boas-novas: a água imprescindível
Ainda jorra do filtro inconsútil; errância
De pingos e respingos de tão combustível

Alimento, que sagaz percorre montanhas
E vales do meu ser finito, enquanto dure
A minha existência de hiena, por entre entranhas

De gentes nocivas e sorriso sofrido…
De gota em gota, o filtro fura-olho que fure
O barro ingente por dentro da alma-celeiro…

18-9-2011.

Catar Estrelas


Edigles Guedes

Outrora, ouvi Estrelas, cujas belezas
Transcendiam o arrebol – lume lúcido.
Eram tão travessas que as Incertezas
Tomavam chá de sumiço sórdido.

Elas comigo brincavam de esconde-
Esconde, de tonturas de Amor à luz
Do luar, de cantiga de roda, conde
Ou condessa no castelo de Andaluz.

E, quando a Noite pegava sua mala,
Com intento de partir, eu inda sorria,
Amargo, para minha insigne sala

De estar, donde vinham estrelas belas.
Hoje, é apenas um retrato essa história
De catar estrelas; por onde estão elas?

17-9-2011.

Não Reparas…




Edigles Guedes

Púrpura tarde que se esvai no horizonte, além
Do infinito, e mais palpável do que a louvável
Imponderabilidade do ser moldável
À filosofia vã do Amor rude e gredelém…

Não sou pastor, como Dirceu, para salmodiar
Com doce lira os teus pruridos, já esquecidos
Em nosso leito soez de prazer; tempos idos,
Que ignorávamos dor, pois eis no peito a vadiar

Alegria inconfessa e felicidade agreste…
Eu, perdido nos teus braços de corça ávida,
Carrossel a girar veloz arco-celeste…

Tu, achada em meus braços de olíveo cisne alciôneo,
Não reparas na tarde ástrica, que se finda;
Não reparas no pejo do meu ser etéreo…

17-9-2011. 

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...