A Cadeira e a Terra do Nunca

Edigles Guedes

Sinuosa, com brandas curvas,
Ondulando braços, dorso
E sela - tomada a corso:
Capitão Gancho de turvas

Barbas e papagaio gaiato.
Eh! aquele assentar átono
Da fada Sininho, em sono
Gramatical, dieta de hiatos.

Wendy tem graça nas ancas...
Quando se assenta, o costume
Das mulheres vence o lume

Da Lua cheia de Amor e branca.
Oh! cadeira alada que voa
Para a Terra do Nunca à toa.

1-9-2011.

A Mesa



Edigles Guedes

É sólida de solidão
Descontente; sua aparente
Formosura é rio demente
Sem lágrimas de comilão.

Glutona por lápis, papéis,
Clipes, borrachas, copinhos
Descartáveis, mil carinhos
De carimbos, vários pincéis

Coloridos e tesouras.
Nas entrelinhas da folha,
A mesa devora rolhas.

Um balão infantil estoura
A bexiga azul ou anil:
Coitada da mesa flébil!

1-9-2011.

A Bola

Edigles Guedes

Redondamente borracha
Ou de couro legítimo,
Ela dança no pé, em ritmo
Alucinado de racha.

Tolinha, adeja suas velas
De jangada aeronáutica…
Peripécias acrobáticas
De mimética aquarela?

Sim, a bola faz círculo
Anatômico, cômico:
Arco do Triunfo atômico.

Agógicos passos lassos
Orquestram canto e compasso
Das pernas, bola e cálculo.

31-8-2011.

Soneto a Monteiro Lobato

Edigles Guedes

Bom dia, Lobato! cumprimento-o pela noite
Bastante agradável, na companhia de seres
Notáveis, que são teus personagens de ficção
Infantil: Visconde de Sabugosa; Emília,

A boneca de pano; Rabicó, à sonoite,
Reinando lambanças; o Pedrinho, célere,
Desvendando os sete mistérios da enganação;
Narizinho, pássaro implume, com família

Numerosa e fantástica do grão Príncipe
Do Reino das Águas Claras a torcer nariz
Arrebitado; Dona Benta, bonachona,

Recebe o Peter Pan, voador, no videoteipe;
Tia Anastácia mexe o caldo e sorri da variz.
Quanto é gostoso o Sítio na tevê e poltrona!

31-8-2011.

A Maçã e Outros Eventos

Edigles Guedes

A maçã vermelha, estrela e lustrosa,
Pipoca sua dor rediviva, vasta,
Na janela do meu quarto de casta
Luz solar, adentrando fulgurosa

No meu ser finito e efêmero, melro
Riso ou canto de ferrovia e abismo
De maria-fumaça sem modernismo,
Em linhas geodésicas: quero, quero

Tudo quanto é belo, loa, lero-lero,
Como papagaio cor verde-amarelo.
Oh, sim! a maçã resvalou o chinelo

Do menino Pinóquio sem esmero.
O numeral zero a maçã sobraça;
E os legumes, curiosos, acham graça.

30-8-2011.

Banana Deitada

Edigles Guedes

A banana, desbotada,
Sorri amarela do cesto
De frescas frutas e aladas;
Sequer se lembra do apresto,

Antes de se jogar ao mar
Do céu da boca e salivas
Gustativas de ondas e ar…
Banana – fruta auditiva?

Ou mera brincadeirinha
De roda ou parlenda antiga
Do tempo da Carochinha?

Pois deitada de ouro em berço,
Ela aguarda agra fadiga
De a devorarem um terço!

28-8-2011.

A Flor e o Cedro

Edigles Guedes

Lastima-se a Flor da sorte
Que tem debaixo do Cedro:
– Ó dor, que me consome!
Por que chorar pela forte

Chuva, se o Cedro imponente
Sorve os pingos valorosos?…
A árvore, galhos frondosos,
Retruca assaz complacente:

– A Natura bela sabe
O que faz conosco!… Sabre
Afiado devasta lerdo

Bosque tão singelo. Restou
A Flor queixosa. Arrastou
A Chuva o que viu por perto.

24-8-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...