Edigles Guedes
Assaltou-me aos olhos hórrida manchete:
Havia um bebê abandonado em tosco galho
De mamoeiro, dentro da mochila, aos frangalhos.
O umbilical cordão choraminga alfinetes!…
Entre incrédulo e indignado, deixei-me ficar
Na poltrona, atarantada com tamanha dor…
Indaguei-me, ensimesmado: – Por onde anda, Amor,
Que não vê agror do inocente, essa infância a minguar?…
Por onde anda, Amor, que não grita manifesto
Contra abominável descaso: que decreto
Gravado vil coração das gentes humanas?…
Amor, aborrecido, responde-me: – Caro
Poeta, não te espantes, pois ainda tens o faro
De teu cão a consolar tuas mãos tão amenas!…
22-8-2011.
Inspire-se. Surpreenda-se. Viva com leveza. Aproveite os sonetos. O romance. A desilusão. O amor. Leia e curta.
Amor em Xícara
Edigles Guedes
A anatômica Xícara,
Enxerida que só ela,
Diz que o bom é sorver, pelas
Narinas, a pícara
Fumaça do torto café.
Oh! Xícara assaz rude,
Bruta que nem grosso grude
Para pipa ou cafuné
De mulher tão perfumosa!
Ah! Xícara fogosa,
De cor marrom, cor de barro,
Terra massapé sem cana-
-De-açúcar, quase plana
De Amor esconso e tão raro!
24-8-2011.
A anatômica Xícara,
Enxerida que só ela,
Diz que o bom é sorver, pelas
Narinas, a pícara
Fumaça do torto café.
Oh! Xícara assaz rude,
Bruta que nem grosso grude
Para pipa ou cafuné
De mulher tão perfumosa!
Ah! Xícara fogosa,
De cor marrom, cor de barro,
Terra massapé sem cana-
-De-açúcar, quase plana
De Amor esconso e tão raro!
24-8-2011.
Pulcro Senão
Edigles Guedes
Rastros de Amor não deixaste,
Ao pisar na areia movediça
Do meu Coração!… Que preguiça
De alçar-te nos meus guindastes
Braços, e abraçar-te, pueril!…
Pés de lãs são os teus, minha Dama!…
De tão leves, soltos na cama,
Prenderam meu cavalo anil!…
Como Unicórnio que corre
Para os braços de fulva virgem;
Meu Coração, da alta torre
De Amor, despede-se de ti!…
Teu beijo é vértice, vertigem!…
Oh! pulcro senão que parti!…
23-8-2011.
Rastros de Amor não deixaste,
Ao pisar na areia movediça
Do meu Coração!… Que preguiça
De alçar-te nos meus guindastes
Braços, e abraçar-te, pueril!…
Pés de lãs são os teus, minha Dama!…
De tão leves, soltos na cama,
Prenderam meu cavalo anil!…
Como Unicórnio que corre
Para os braços de fulva virgem;
Meu Coração, da alta torre
De Amor, despede-se de ti!…
Teu beijo é vértice, vertigem!…
Oh! pulcro senão que parti!…
23-8-2011.
Laço Pardo
Edigles Guedes
Degusta-me como fruto
De teus beijos salientes…
Degusta-me como ardente
Canção de Amor enxuto…
Frustra-me o siso ferido
De apaixonada fera…
Frustra-me pernas de cera
E teu queixo escorrido…
Bailarina és, enquanto sou
Soldado roaz de chumbo…
Se valente em mim ficou
Tão fero de Amor leopardo,
Em ti restou qual cubo:
Coração, laço pardo!…
23-8-2011.
Degusta-me como fruto
De teus beijos salientes…
Degusta-me como ardente
Canção de Amor enxuto…
Frustra-me o siso ferido
De apaixonada fera…
Frustra-me pernas de cera
E teu queixo escorrido…
Bailarina és, enquanto sou
Soldado roaz de chumbo…
Se valente em mim ficou
Tão fero de Amor leopardo,
Em ti restou qual cubo:
Coração, laço pardo!…
23-8-2011.
Notícia de Jornal
Edigles Guedes
O que esperar de pensamento fugaz?...
Se a Noite é pequena, mas vasto é pensar!…
Ó Dama! esvai-se na ampulheta, a rodear,
A areia: minúscula, estreita, tão loquaz!...
À medida que escorre vidro na areia,
Deixa-se ruminar contentamento
Por Amor platônico – sentimento
De marinheiro por gástrica sereia!...
De tanto pensar, a Noite acorda
Bastante lânguida e dorme vãmente...
O Enforcado – pendurado na corda –
Servia como notícia roaz de jornal,
Porque ainda se morre docemente
Por pensar em Amor bruto e cordial!...
22-8-2011.
O que esperar de pensamento fugaz?...
Se a Noite é pequena, mas vasto é pensar!…
Ó Dama! esvai-se na ampulheta, a rodear,
A areia: minúscula, estreita, tão loquaz!...
À medida que escorre vidro na areia,
Deixa-se ruminar contentamento
Por Amor platônico – sentimento
De marinheiro por gástrica sereia!...
De tanto pensar, a Noite acorda
Bastante lânguida e dorme vãmente...
O Enforcado – pendurado na corda –
Servia como notícia roaz de jornal,
Porque ainda se morre docemente
Por pensar em Amor bruto e cordial!...
22-8-2011.
Abelha
Edigles Guedes
Como abespinhada abelha-macha,
Mordes de febres mil o atrevido
Amor seresteiro, que se agacha
Para colher a flor mel adido…
Tu eras malandro ser cifozoário,
Desassossego, cega devoção…
Tu eras brevíssimo corolário,
Que não deitava sua demonstração:
Caravela nau sem astrolábio;
Sobrevoo de sopa sem moscardo;
Caduquice de velho coroca…
É mister aprender com os sábios,
Já que dizia popular brocardo:
Cochilou, o cachimbo cai da boca!…
21-8-2011.
Como abespinhada abelha-macha,
Mordes de febres mil o atrevido
Amor seresteiro, que se agacha
Para colher a flor mel adido…
Tu eras malandro ser cifozoário,
Desassossego, cega devoção…
Tu eras brevíssimo corolário,
Que não deitava sua demonstração:
Caravela nau sem astrolábio;
Sobrevoo de sopa sem moscardo;
Caduquice de velho coroca…
É mister aprender com os sábios,
Já que dizia popular brocardo:
Cochilou, o cachimbo cai da boca!…
21-8-2011.
Despedida de Outono
Edigles Guedes
O Vento assoviava navalhamente…
As Folhas farfalhavam sorrateiras,
Bailavam moles Boleros de Ravel,
Ciscavam a Lua e as estrelas belas…
O Outono incendeia cores fluorescentes
Na Floresta de ferro, derradeira,
Aço e concreto… Bênção inestimável
De circuitos integrados, e ruelas,
E válvulas, e porcas mecânicas,
E biônicas mãos com sua tecnologia…
Que mundo de peças eletrônicas
E aparelhos eletrodomésticos
Criamos!… Enquanto pássaros, em orgia
Acústica, despendem-se, acrósticos…
21-8-2011.
O Vento assoviava navalhamente…
As Folhas farfalhavam sorrateiras,
Bailavam moles Boleros de Ravel,
Ciscavam a Lua e as estrelas belas…
O Outono incendeia cores fluorescentes
Na Floresta de ferro, derradeira,
Aço e concreto… Bênção inestimável
De circuitos integrados, e ruelas,
E válvulas, e porcas mecânicas,
E biônicas mãos com sua tecnologia…
Que mundo de peças eletrônicas
E aparelhos eletrodomésticos
Criamos!… Enquanto pássaros, em orgia
Acústica, despendem-se, acrósticos…
21-8-2011.
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