Rosa Rubra

Edigles Guedes

Ah! Rosa Rubra mastiga
A dor mais que indigesta!…
O Cravo diz que a amiga
Não sabe contar a gesta.

Rosa Rubra, então, recita
“O Cravo brigou co’a Rosa”.
E salteado de cor, dita
Sua façanha toda prosa!…

O Cravo, jumento bravo,
Escouceia!… Eis que esbraveja!…
Tal qual moeda de centavo,

Espoja-se no duro chão.
Rosa Rubra, lhana, adeja…
Eh! ri que ri do sabichão…

20-8-2011.

Ela, à Porta

Edigles Guedes

Ela bate à porta, atarantada.
Os nós dos dedos doíam, frenéticos,
Mas não se cansavam de bater… Co’unhas
E dentes vis, incansavelmente,

Ela batia à porta, tresloucada.
Os braços erguidos, patéticos,
Suplicavam; e eram testemunhas
Da súplica por uma demente

Gota de Amor no oceano de Mágoas.
Ela baterá à porta… Risos
De desdém sairão – tal muitas águas

Do rio Capibaribe, zombando
Das ribeirinhas casas e lisos
Caranguejos trelosos, aos bandos…

18-8-2011.

Tarde Estética

Edigles Guedes

A da foz tarde desaguou em mim…
Sem Riacho fronteiras, que desmama
A faceira novilha na cama…
Cachoeira de pó com pirlimpimpim,

Tão que só quanto o barco de papel…
A luz do arrebol tange o vermelho
Para pradarias ou praias de artelhos
Ventos, areias, castelos, e tropel

De crianças, e basbaques brinquedos…
A laranja cala magnética
Acolá, longínqua, no penedo…

A de costura máquina do dia
Finda-se, bela numa estética
De James Joyce, o qual me parodia…

18-8-2011.

Ao Páramo

Edigles Guedes

Que teria podido induzir-me a vir a este páramo senão o desejo de ficar?
Franz Kafka

Oh! chegaste ao páramo deste meu coração,
Induzidas não pelo desejo de acampar!…
Escondes em tua carcomida face intenção
De odiar-me às despregadas janelas, de par

Em par… Porém, a tua fogosa mão cala-te
A boca e coração furibundos; pois sempre
Maior temor há em cobertos planos teus. Ágate
De panela fundo com falso é teu lábio… Apre!

Serpente, caída das tão bíblicas páginas,
Pasces teus luzidios olhos em minha Selva
De aberto peito, tal qual ave de rapina

À caça de seu prato eleito – fatal presa!…
Enquanto urdes tua rede, à espreita, a suave Relva
Alerta-me de ardilosa cumbuca tresa!…

17-8-2011.

Memória de pó

Edigles Guedes

Ah! escuto a mesa em que habito…
Ouço o rangido feérico
Da caneta em seus deveres…
Que sonhos – sussurro – são esses?…

A mão – máquina indômita
De lavrar poemas – sua ginga
Cumpre sem delongas. Fere
Um adjetivo; de adrede,

Escarnece da vírgula…
Selvagem sintaxe (que urra)
Escorrega rente, acolá.

Em lapsos de febre entorta,
O valente papel seda,
De pó esta memória: que erra!…

15-8-2011.

Chã de Lama

Edigles Guedes

O estrambótico gel dental
Sorri enigmático na pia.
A pia, informe, de frio metal,
As metáforas, arrepia.

A água – salobra e tão morna –
Desterra tantos pesares.
A inundação, agora, adorna
Meu coração cheio de ácares.

São ácares essas pústulas
Abertas: Amor indolor!...
São ácares essas pílulas

De microscópica color,
Que me sente na minh’alma
Tão demente – chã de lama!...

14-8-2011.

A Sala

Edigles Guedes

A sala respirava opressa, adormecida.
Clarice Lispector

A sala partida, sem meio
Ou começo e fim, desata
Melancolia – sua desdita!…
Eu perco-me em breve recreio

De alma e amargura… Que pejo
É esse na maçã que brota
Do rosto!… Oh! física e torta
Linha de harpa com arpejos

Anis!… Por que dilata nó
Em mim?… Se está nos cafundós
De mim essa voz, que rouca

E desafinada, evoca
A ti – cruento e desleal Amor!…
A vida é temor, só tremor?…

13-8-2011

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...