Dama sem Apólices

Edigles Guedes

Eis que a Dama se achega, bonita e empertigada,
Com seu vestido de chita rodada; prendada
Moça balança-se ao colo de zéfiro — vento
Que passa em seu caminhar de cágado bem lento…

Que lufada é esta, a qual se introduz de supetão no
Tecido alvo da cor da neve de minha Dama?!…
Ela enrubesce a face da bela lua sem dono;
O olho demais transparente, sem ação, inflama;

O seu andar de andorinha segue-se assaz ritmado.
Ó lufada sagaz!… Que se mostra astuta em luta
Corporal, face a face, co’o vestido mimado!…

Enquanto isso, eu (pobre homem de percalços e óbices)
Ensejo ser o zéfiro afável — que aeronauta
Desbrava os sete ares da Dama sem apólices!…

14-10-2010.

Presa sem Oferta

Edigles Guedes

Na realidade, estás farta de ouvir travessuras
De amores, como se o menino Cupido, brando,
Estivesse a debochar das flechas. Nessa altura,
Tu gargalhas às bandeiras despregadas. Pando

Ventre o meu ri de mim mesmo; afinal, palhaço
Eu fui, quando me deixei lograr pela beleza
De mulher madura. Quão tolo bicho no laço
Da fantasia de amar é o homem!… Sim, tenho certeza

Que há mais veneno na lábia duma mulher dama
Do que na garganta de políticos mesquinhos!…
Elas agem tal como serpente sem escamas:

Preparam o bote e enlaçam a vítima. E fartas,
Esguias, vão-se para longe do corpo e sequinhos
Ossos. Por isso, sorris: eu — presa sem oferta!…

14-10-2010.

Lábios de Lince

Edigles Guedes

Sentada ao pé da escada, como quem nada quer,
Deixas ficar tua destreza, linda donzela!…
Destreza de caçadora impiedosa a vencer
O bárbaro leão, convicto de suas mazelas;

Destreza de marinheiro co’a mão no leme
A enfrentar corajosamente mil procelas,
Furacões, tempestades, tufões, nada teme;
Destreza de fera: instintivamente aquela,

Que de um salto só ou rugido cadente, freme
Seu estrondoso grito, lépido de fascínio!…
Confortáveis, ao ouvido, estão as tuas mãos íngremes

A soletrar a letra miúda de um romance.
Teus olhos fulgem devagar; quando, ao declínio
Do sol, findas de ler os meus lábios de lince!…

14-10-2010.

A Lição de Ulisses e as Sereias

Edigles Guedes

As sereias — que atentaram Ulisses, o grego
Perspicaz — mudas ficaram, pois encantadas
De Amor pelo astuto guerreiro, renderam-se!…
O segredo de Ulisses era as cordas atadas

E a cera nos ouvidos posta. Se favores
De Amor queres gozar na vida, aprende, ó mortal,
Com o sábio Ulisses: amarrem-se tais dores
Ao mastro da realidade, serena e frugal;

Não se aparte jamais por alameda dos sonhos
— Pois ela é a perdição do Amor dos marinheiros.
Depois, nem tudo que de Amor se diz ao ouvido

É para crermos, porque o Amor é trapaceiro:
Hoje, ele se enche de elogios e mil venturas;
Amanhã, ele se enfeza, e fala de amarguras!…

9-10-2010.

Tatuagem Inconcebível

Edigles Guedes

Lua sem sol, estrela sem carinho, bicho do
Mato sem toca ou ninho, nuvem sem pálido
Vento… Eu caminho sozinho com esse lodo
De angústia (por nome Amor), colado ou bem lido

Na testa do meu peito… O quê? Se me desato
A rir, serei tido e achado por crasso louco;
Se me desato a chorar, eu serie um exato
Misantropo sorumbático. Certo é: pouco

Sei de mim, pois no meu peito está desenhado
Essa tatuagem inconcebível, sedenta
Por tinta de Amor proscrito. Pássaro alado,

O qual bateu asas e voou, deixando-me a grita
De quem quer se libertar dos grilhões… Se assenta,
Porém, na rocha de Prometeu e sua desdita.

9-10-2010.

Desterrado

Edigles Guedes

Desterrado eu estou da pátria que beijos
Teus me afogavam de Amor cálido…
Tuas gentis madeixas cheiram a queijo
Bom de Sanharó, cheiro mádido…

Que naufrágio foi esse em que me perdi
Da razão de Amor por ti, minha Dama?!…
Em que recife a nau calhou solteira,
Deixando-me à deriva, com tábua

Por salva-vidas?!… Então, eu me abscondi
Na gruta do teu peito – lago em chamas
Inflamou em mim essa chã e alcoviteira

Alusão de desterrado sem trégua…
Marinheiro que peleja por Amor
Longe dos braços da amada e seu fulgor!…

8-10-2010.

Lhano Sorriso

Edigles Guedes

Custa-me crer em teu sorriso sincero,
Se tudo que me destes foi um coração
Quebrantado de dores de Amor. Eu quero
Sorrir contigo, tatear tuas gaiatas mãos…

Olhar para ti e ver os meus olhos fixos
A espelhar tua alma sem nódoa, sem mágoa…
Como eu quero escalar montanha de lixo
De teus pensamentos fugazes… Ah! Água

Do riacho, que bebi em teus beijos insanos,
Vem inebriar-me com os cabelos soltos
Dessa fingida mulher camaleão. Lhano

Sorriso teu, o qual me custa a crer… Diga-me:
Por que vives a espantar esse absolto
Espantalho (que sou) desse teu ditame?…

7-10-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...