Meros Espasmos

Edigles Guedes

Debalde, procuro entender as flores;
Mas não sou algum botânico, em contramão
Da taxonomia dos almários seres!…
É inútil a filosofia: meu pulmão

De pensamentos. Viver não se rende
Ao charme da razão crua e nua dalgum Kant.
Viver ultrapassa a rede que prende
O intelecto à emoção dum canto. Cante,

Meu amigo, esse momento, porque existe
O momento independente de você
Querer ou não. Este momento em que riste

De mim, não precisa do teu sarcasmo
Para existir; ele existe veloce
E trivial!… Nós somos meros espasmos!…

7-4-2010.

Fulminívomo Mortal

Edigles Guedes

Sempre entre risos, há uma lágrima,
Que rola pela blandície da tez
Rubicunda. É pouca essa palidez
Das horas, quando estou nesta cama

Contigo, minha cálida amada!…
Não me cansarei a correr perigos
Por te amar; como ágil herói ázigo,
Sofro venturas bem abreviadas.

Por que choras por mim?… Eu sou teu, assim
Como a lua pertence à noite, como
Molly Bloom no feudo canto de sim!…

Não chores! meu bem, a noite já vem…
E eu, estátua de mim, fulminívomo
Mortal, enfrento a borrasca-nuvem!…

7-4-2010.

Retrato Rasgado

Edigles Guedes

Retrato rasgado não se emenda.
Por que há em teus olhos de tigresa
Tanta raiva raiando em rios? Tremenda
Fúria por uma boba magreza

De vaso, que acidentalmente caiu
Do terceiro andar da estante, cheia de
Bibelôs sem valia. Rosto descaiu
O teu; tua cútis de aurora — rede

Que pescou meu coração — desfez-se
Em apuro de vermelho seco!…
Por que a tua face pesa sobre mim?…

Não se ire! meu benzinho… Olha: desse
Chove e não molha, é melhor bravo eco
Soar de Amor e compaixão, meu jasmim!…

7-3-2010.

Mulher Aulétride

Edigles Guedes

Abrupta, ela chega com sua bolsa
De camurça (linda de dar dó!). O sol
De meio-dia, deixou na varanda de
Casa, junto co’as sandálias broncas!…

O seu vestido dança essa valsa
Vienense, como débil girassol
A seu bel-prazer, à sua vontade…
Acolá: a lua — adormecida — ronca

Suas mágoas de namorada traída
Pelo sol com as estrelas. O mundo
De noctiluzes, de lampírides,

Percebe-se que é sob encomenda
Para o seu busto: colo infacundo,
Pudibunda mulher aulétride!…

7-4-2010.

Telefone Toca

Edigles Guedes

Telefone toca. Eu, prontamente,
Atendo - esperançoso de meu Amor!
Infelizmente, não é essa demente
Mulher que me apaixonei! Aquela flor

Esquecida no jardim... Macieira,
Que encanta meu coração pedante!...
Ah! Como eu sou essa boa cafeteira
Mergulhada na mesa carente

De manhã. Pois ela não quer saber
Da dor alheia, somente quer sofrer
A dor do bule quente de café!...

Telefone toca. Já a esperança
Se vai... Sonho que é ela... Minha herança
É essa sina que há em mim, de fé em fé.

7-4-2010.

Solo da Paixão

Edigles Guedes

Estou atreito com esse claustro; é certo
Que cedo ou tarde o meu Amor vai deambular
Por aqui. Aguenta só um pouco!… Decerto,
O Amor não tarda; e se adiar, não é de burlar

As leis do torcedor fiel da boa poesia!…
Preste atenção, o Amor é jogo da velha:
Ninguém perde, e ninguém ganha. Afronésia
De minhas faculdades teatrais. Telha

Vã, que caiu do telhado do meu juízo —
É assim o amor. Abscônsia alma, deveras,
Sabes que batalha naval, prejuízo

De meus parcos recursos — é o Amor. Solo
Da paixão incrustada em mim, como vera
Criança sem vê no aniversário o bolo!…

6-4-2010.

Endereço do Coração

Edigles Guedes

Qual o endereço do meu coração?
É necessário um discurso franco
Com ele. Desenxavido, loução,
Meu coração — foge a saltimbanco

Da palavra cruzada do terno
Amor. Corre pra longe do falso
Amor. Ele não te entende!… Inverno
De dura geada, ele é. Cadafalso

Para os teus pés célebres — é o dito
Amor. Se conselho fosse bom, não
Se dava, vendia-se na quermesse

Da esquina. Mas, eu dou-te, contrito
Coração! É que não quero errar; senão,
O Fulano sofrer que se apresse!…

6-4-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...