Edigles Guedes

Estou só e azul é a noite noctâmbula;
Há um pio perdido de coruja comigo,
Guardado a sete chaves, como bula
De remédio de tarja preto. Pródigo

Pio, semeado no solo de mim. Sequioso
Pelo amanhecer, oiço co’os meus ouvidos:
— Tarrenego, tesconjuro! Rio bramoso,
Que corta a noite em faca sem gume, vindo

Das entranhas do meu ser em forma de pio,
A corvejar em meus pensamentos fúteis!…
Hora sem razão para certo cardápio

De filosofia indigesta; pois, a noite
Existe, e brumas indúcteis, inconsúteis,
Perpassam o pio do meu ser tão somente!…

20-3-2010.

Ingratos Olhos

Edigles Guedes

Ó quão ingratos são os teus de sorvete olhos!
Que me deixam como estou: largado de Amor,
Claudicando por entre as esquinas dos meus
Pensamentos desconexos. Se ferrolhos

Prendessem, algemassem punhos de calor
Por teu langue Amor... certamente que do céu
Não desceria em mim este fulgor claro,
De coração apaixonado. Eis que declaro:

— Meu Amor, por mercê, deixa a dos olhos teus luz
Entrar pelas portas dos olhos meus, em rios
Caudalosos, retumbantes, gastos a flux.

Luz: luminar meu coração, dolorido,
Por te amar, querer, sim. Estou com incêndio
Em minh'alma; estou com ímpeto contido!...

21-3-2010

As Nuvens e a Chuva

Edigles Guedes

As nuvens passam, mas a chuva fica.
Neste mundo de mudança constante,
Eis que vemos muitas nuvens, embora
De algodão macio ou de ferro atro, bruto.

Nuvens de hórrida e fera tempestade;
Nuvens de bonança por tempo afora;
Nuvens que sorriem da minha desdita;
Nuvens que abraçam o fortúnio fruto.

De raro em raro, é que cai magna chuva...
A chuva cai, como cai da caneta
A tinta no papel calvo, seu alarde

Não faz, inda que se esvaindo por turva
Noite; silente, tal saci perneta,
A chuva chia lágrimas sem disfarces!...

21-3-2010.

As Linhas com que se Cose

Edigles Guedes

Cada um sabe as linhas com que se cose.
Penélope, por exemplo, com seu tear,
Fuso e roca, teceu co'ardil tecido
De Amor legítimo por seu marido,

O destro Odisseu, de Tróia do cavalo!
Adão foi dormir e Deus lhe concedeu
Mulher sonsa, por nome Eva, que torce
A palavra bendita, mero serpear

De sintaxe. Por Deus quase esquecidos,
Por causa da vil serpente do engodo,
Adão e Eva geram Caim e Abel, filhos

Amados. Mas Caim, por inveja de Abel,
Chega a matá-lo. Nesta de fel vida
Come-se muito, p'ra vomitar o mel!...

21-3-2010.

Medíocres

Edigles Guedes

É-me custoso ouvir de teus lábios
Certas palavras medíocres, ditas
Por ímpeto de pena! Ressábio
Que amarga acerba e cruenta lida!…

Palavras, querida, são figuras
Aladas, como flechas da aljava
Ao saírem, por hígido arco lançadas!…
Elas ferem de peste e candura

O peito néscio do ser amante.
Deveras, após voarem da boca
Dão-nos as costas por paga. Antes

Houvesses calado o bico do que
Ao abrir, dizer asneira. Tolas
Palavras, vulgívaga de araque!

20-3-2010.

Que Mercê Carece o Vosso Coração?

Edigles Guedes

Que mercê carece o vosso coração, minha Dama?
Se for para escalar os céus, como afoito alpinista;
Eu (o mais ominoso dos homens) assim o galgarei,
Por mais altura que houver entre céu e terra. O tetragrama

Das estrelas cadentes tomarei por emprestado,
Como prova inconteste do meu Amor de pugilista
Por ti, pois te amar provoca-me descoroçoamento
De sentidos deslustrosos. Que mercê, Dama, acharei

Que tal suceda em vosso coração, frenesi e dano?
Se for descer ao mais profundo mar fatídico e vil,
A tal ponto perder-me entre rochedos escabrosos

E em peleja com monstros ciclópicos e tormentos…
Assim o farei, lograr-me-ei vencedor, perto de ti!
Mas só não me deixe longe, coração maquinista!…

20-3-2010.

Braços Pulvéreos

Edigles Guedes

Braços desnudos, tais fiambres cômicos,
Deslizam que nem corda de enforcado
Por meu pescoço; braços afônicos,
Que sufocam as lágrimas; legado

Do milagre do tartamudear mudo
De coração prisioneiro; grão lago
Em que cisnes navegam rudes muros
De mágoa silente; braços amargos

Que aquece impávido beijo varonil
Até arrefecê-lo em lençóis etéreos!…
Braços daninhos, que me embaçam; anil

De tarde ancha de si, tal porco-espinho
Bravo, ao ser acuado; braços pulvéreos,
Purpúreos, constrinjam-me em vosso ninho!…

19-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...