Jogo de Amor

Edigles Guedes

A ganhar se perde, a perder se ganha:
É assim o jogo de Amor, mal guardado
No coração doméstico, que assanha
Em flagrante delito de Amor doado!...

Ofélia e pinto, da Legião Estrangeira.
O pinto falece por obsequiado
Amor. Ofélia, coitada, se esgueira
E sai na pontinha dos pés cândidos

Do apartamento de Clarice — besta,
Como um tamanduá-bandeira. Fúlgidas
Farpas de Amor magoa Ofélia co' aresta

De quadrado lerdo. Ah! Ofélia, você
Não sabia que Amor é agulha querida:
Que quanto mais fere, mais entontece!...

19-3-2010.

Amor Canarinho

Edigles Guedes

Canarinho sem alpiste não canta.
Meu coração sem Amor mui bendito
É passarinho que não gorjeia, falta
Por fome e sede de Amor, qual me fito.

Fito meus olhos lúgubres no alpiste
Derramado na gaiola. Canarinho
Preso, abespinhado, não come! Triste
De suas penas, à vista do meu ninho

De pensamentos: ave golpeia-se contra
As grades de seu cárcere. Na cadeia
Do meu Amor por ti, donzela, aqueloutra

Grade de pensamentos ata-me ao fútil
Beijo teu. Vai, pastora linda, incendeia
Esse Amor que é chama perene, inútil!...

19-3-2010.

Segredo

Edigles Guedes

Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.
Jean Rostand

Que segredo é esse que se diz na boca?
Que provoca eflúvios latinos na língua.
Doce dilúvio de águas que andam à míngua
Por entre a minha e a tua boca socrática.

Que arrebata à socranca fúteis suspiros.
Falta de ar, que faz coração, endoidecido,
Disparar a galope: centauro tido
Por Quíron em seu brincar com a Cariclo,

Ninfa bela, a fluir por manso rio e floresta!
Que segredo frugal não se diz no ouvido?
Que evoca delírios de Cassandra em fresta

D'alma ponderável. Meus olhos grávidos,
Cravados em teus olhos civilizados,
Desatam os laços do beijo: segredo!...

18-3-2010.

Urubu - Uburu

Edigles Guedes

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Augusto dos Anjos

Ah! Um urubu albergou-se no meu fado!…
De tal sorte que o verme vil, que me rói
O corpo fétido, sorri do amargo
Ser aruá que sou! Um arroio, presto, se foi

Tão ab-rupto quanto aqui chegou. Fadado
Arroio: que era a minha sorte! Intrépido,
Permeou montanhas e vales olvidos.
Ah! Um urubu pernoitou no meu fado!…

Fazia escuro de noute negra, quando
Urubu pousou no galho da minha
Existência sutil, tal como gato

Entretido com novelo. Caminha,
Abstruso, urubu de grão desagrado!
Ah! Um urubu hospedou-se no meu fado!…

18-3-2010.

Moço Beijo, Beijo Estrelado

Edigles Guedes

O beijo é uma estrofe que duas bocas rimam.
Coelho Neto

Que estrofe é essa que rimam duas bocas?
Que música de ave aguada por gotas
De chuva é essa? Gosto de pasmado
Estilo literário, de maníaco

Por léxicos clássicos. Gosto escasso!
Dois patinhos na lagoa… como remam
Os gondoleiros em Veneza. Passo
A passo, dois lábios se desencontram

Da face, para colarem tatuagem:
Cada qual por si no outro. Do pescoço
À ponta do pé: calafrio, miragem,

Arrepio. Beijo estrelado no frigir
Da frigideira; estatelado. Moço
Beijo que se vai tão cedo, sem reagir!…

18-3-2010.

Medo Bruto

Edigles Guedes

A Mulher, a mais sagaz das criaturas,
Foi ver do fruto apetecível. Lado
A lado, deixou-se engodar por serpe
Fementida, que lhe convém branduras.

Eva, entorpecida, of’rece proibido
Fruto a Adão. O pobre, sonso, desentope
A boca para pecar co’ árvore
Desejável. Comem ambos do fruto

Agradável aos olhos, mas fajuto
À alma humana. Na viração, passeava
O Onipotente. Adão ouve a voz, corre

Da presença de Deus. Eva salteava
Por entre as árvores do jardim. Medo
Bruto brotou: fruto do atro pecado!…

16-3-2010.

Afeição e Ausência

Edigles Guedes

Outrora, eu cantava teus beijos de bem-te-vi; íntimos
Versos, que cindiam o meu coração em gomos partidos
De laranja da manhã. Hoje, procuro, e não acho os tomos
Do livro de insônia, em que padeço de Amor. Lúcido,

Caminho por uma rua ínvia, como ínvio são os meus tratos
Para co' olhos teus, tão distantes, em terras longínquas...
Por que partiste, amada minha? Se tão encarecido
Eu mendiguei que fincasse tuas garras mais propínquas

Do meu peito refece. Fere-me afeição ingrata, ata
Na minha fronte o teu ácido sorriso, retrato
Lato em minhas mãos tangíveis. O entardecer dilata

Essa lágrima, em que tarda a ausência dessa trova
De Amor terno: urdidura de Penélope em tecido.
A verdadeira afeição, na longa ausência se prova!...

17-3-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...