Atônito Abdômen



O fascínio deste castelo dura por séculos a fio
De navalha, corta em pedaços maduros o fruto do frio,
Reflexão das
dúcteis correntes, que abrem as portas do castelo
E seu fosso, visto que lama
olorante e esgoto (de tão tolo!)

Navegavam já por aquelas bandas, uns tantos vomitados.
Cravejava o Sol as pelúcias de suas luzes agonizantes.
De manhã, solfeja um canário, perdido nesses horizontes.
Enquanto isso, vejo um mané-magro, raquítico, demitidos

Os esgares tardos de ordinária tartaruga, com seus rogos,
E caçado as benevolências e benfeitorias da ruga;
Pois, restou-me vastos os mares da consciência, que me cega!


Longe, ao longe, ruge alguns ventos destemidos por um pascigo,
Sinto a relva-grude-e-fantástica assenhorear-se de mim

Neste agora, justo agora, lembro-me que sou atônito abdômen!


Autor: Edigles Guedes.


Você Suporta



No Livro Santo está escrito,
Sim: “Suportai-vos uns aos outros”.
Ah, Deus! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
E eu que não suporto um sorriso

De gato ou sequer um latido
De cão? Se alguém me olha de lado,
Atravessado, qual fiofó
De calango, sou bem capaz

De irromper a Terceira Guerra
Mundial, só pra ver o cabra
Se borrando de medo, ali!

Mas, você? Suporta esse mundo,
Como um Atlas sustenta o mundo
Em seu dorso
— a mais tão divino?

Autor: Edigles Guedes.


Amor e Segredo



O lido segredo,
Que cuido, me agrada…
A estante coxeia…
A dúvida, em cachos,

Viceja: — Secreto,
Por quê? Se descrito,
Me vinga uma rédia!…

Da aljava, Cupido
Recolhe uma flecha;
O dedo, raspado,
Atira, com fléxil

De braço: o aturado
Amor, por mais árido
Que seja tal rédea!…

Autor: Edigles Guedes.


Pai que Sonhei



O quepe, na cabeça, a mimar.
O sabre descostura com a mão.
Tapete, que sondava cafuné,
Agora, decretava um revés.

O sonho que retém o caminhar.
As nuvens, no terraço, pipocar.
Bigode inquieto… Outorgar
Uns ares de fidalgo… Desmentir

Desenho de cachorro ardiloso.
E, presto, arrebento o sorriso.
Estendo as mãozinhas ao longevo

Idoso. Gratifica gargalhada.
Com riso, circunscrevo abobada
Palavra, que me leva, buliçoso.

Autor: Edigles Guedes.


Flor de Cloro



Desperto, em plena
Manhã, com planos
De ler um livro

Fugaz, que lavro
De mui pequeno,
Em dia quínio


Contém na caixa:
Dilúvio, setas,
Detido coxo.
E tu, que hesitas,

Desfazes riso,
Sentires dores,
Pensares
flor
De tanto cloro!


Autor: Edigles Guedes.


O Licorne e a Espada



O livre licorne
Surfava por raios
Argênteos da Lua.

A tarde: de carne
E poços; de arreio
Soberbo; sem freio.

De
pranto, passava
O lívido; sova
Estruge na salva
De palmas, no silvo

De
próprio ninguém.
Espada de gume
Agudo e sem lei
Resvala
fio frio

Autor: Edigles Guedes.


Incômoda



A líquida Hora, coagulada no ferver do bule,
Me põe tão cabisbaixo, por pensar no verso líquido,
Que não vige por páginas e páginas além!…

Mas, antes, fica embatumado na garganta, sem
Saída por cano ou por linguagens distintas… Físicos
Sentidos, por obséquio, sua Morte nefasta pule!…

Os lânguidos gemidos do meu cérebro confrangem

As tísicas moléculas da fervura no bule,
Com água desperta às três horas da manhã de agosto…
Prossigo na tarefa ingrata de muito rancor…

Me causa palor nas faces túrgidas, de proposto
Depósito de amarguras, que me ferem e rugem…
A mosca, incômoda e formidável, minhas mãos tangem;
A dita, contudo, insiste: putrefatos de amor!…


Autor: Edigles Guedes.


Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...