Carrossel



Cavalos que giram
Em torno do eixo.
Os olhos que miram
As luzes e queixo.

Destranco as mãos;
E elas se vão
Em voo sarcástico.
Sorrir de ginástico

Sorriso. Monárquico
Me sinto. Anárquico
Menino de asas.

O peito em brasas.
Primaz diversão,
Em terno verão.

Autor: Edigles Guedes.


Bem-te-vi — Dois



Bem-te-vi, ó meu bem-te-vi!… Por que choras assim?
Eu sou teu irmão de bico e cântico, repito,
Pois, as mesmíssimas palavras frequentemente;
Não me assombro com isto, ao contrário, desencanto

Varre o meu íntimo, em cabal tristura; suplanto
Tudo com sorriso sonâmbulo pelos dentes
Da boca, adormecida pelo meu canto tão fácil…
O canto não é ledo, nem triste; antes de tudo,

É somente sóbrio, como sóbrio são as manhãs
De Primavera no Sertão adentro ou afora;
Maiormente, sóbrio e seco; tão seco, que amarga

A língua do dizente, expondo o retirante
Ao risco de viagem renhida para longes
Terras, tão distantes do lar e do meu cantar!…

Autor: Edigles Guedes.


Bem-te-vi — Um



Bem-te-vi, ó meu bem-te-vi!… Por que choras assim,
Repetindo as palavras fúteis, trombeteando
De mim? Dando notícia de quem jamais te quis
Bem ou mal. Ó passarinho! que cozinhas o tempo

Com língua de portas abertas ao mundo, farto
De injustiças e outros infortúnios pessoais.
Quem me dera sonhar com um planeta melhor,
De ventura e de paz infindas, longe d
a guerra

E seus rumores, longe dos azares em dança
De sina, longe dos lances de dados ou jogos
De força bruta, só pra ver quem é o mais forte,

Longe da destruição em massa das florestas,
Longe, muito longe, daqui, tão longe daqui,
Que sou capaz de alcançá-lo num simples pulo.

Autor: Edigles Guedes.


Febre — Quatro



Tenho febre. Tenho febre. Febre
Com pintas de tais letras maiúsculas,
Capaz de rilhar os dentes. Fome
Finita veraz febre lateja…

Janela veio bradando por febre…
E tenho as mãos amargas, os pés
Tão tristes de febre, que me arde
Na boca, na língua, nos devassos

E vãos olhos, na velha e tardia
A tez, na fronte de paquiderme.
Confesso que gosto de escrever

Com febre; todavia, o que se escreve
Com febre, quando se está são,
Não vale sequer tostão furado..

Autor: Edigles Guedes.


Febre — Três



Nesse torto instante, tenho febre.
Não sei se existo; para que existo?
Se a Existência me contamina
Com febre hidrófoba, ciciando

De febre curva na minha vida…
Esta febre que, com depressivo
Olhar, me bota em canto de quarto,
No aguardo possível de um surto

De cólera ou será de loucura?
Já não sei o que sinto, sentido;
Já não sei o que penso, pensado;

Já não sei se minto, quando calo
A voz piedosa do coração.
Ah! o elixir que me deixa são!…

Autor: Edigles Guedes.


Febre — Dois



Soa-me leve a frase febril: — Febre!
Nesse instante, tenho febre. Febre,
Não levem ao hospital; aliás, médico
Algum poderá curar-me… Cura,

Pra quê? Se anticorpos demais saram
As feridas pútridas, as chagas
Vorazes. Vivência tão humana…
Com faltas irrepreensíveis; vago

Modelo de bipolaridade,
Que se perde divido entre isso
E aquilo, discórdia raivejando

Dentro de mim, o Inconsciente
Mais que consciente me devorando,
Como a Esfinge de Édipo brando.

Autor: Edigles Guedes.


Febre — Um



Tenho febre. Tenho febre. Febre.
Nesse instante, tenho febre. Febre.
Nesse firme instante, tenho febre.
A febre de todo o mundo basta?

Basta-me a febre incessante, muda,
Que tenho — galopante cavalo
Que corre, corcoveia, ao passo,
Ao trote, sem rédeas ou bridão,

Que carrego comigo no corpo,
Já cansado de tantos perigos,
Já cansado de tantos abrigos,

Desta vida de poucas palavras,
Deitadas num caderno qualquer,
Já cansado de soez desatino.

Autor: Edigles Guedes.


Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...