Manhãs



Amo as manhãs que tecem as plácidas nuvens no céu…
Amo o salgueiro imponente, embalado pela canção
Vã de ninar dos ventos sibilantes; tardo, pois não…
Amo as tardes sonolentas de brinquedos senis…

Quem escondeu o meu trenzinho de metal tão barato?…
Quem me ofendeu com sorriso desmazelado, sem tato?…
Quem me desceu a mão, com violência, fazendo-me triste,
Como triste é o canto da araponga?… Minto? Me riste?

Amo o tinir inexorável do ritmo do relógio…
Amo o frigir dos ovos numa frigideira qualquer…
Amo o pingar das águas no chuveiro, banho me quer…

Quem escondeu o meu queijo de Bodocó, desacato?…
Quem me ofendeu com esgares de palhaço?… Caminha pato,
Jeito de quem desengonçado repara o cós da calça…

Autor: Edigles Guedes.


Acerca de Girassóis



Os girassóis são satélites do
Sol;
Pois cada qual gira derredor do
Sol,
Por movimento contínuo do terreno
Coração — servo da sina tão serena.

Ah! eu, que não nasci girassol, engreno
A máquina silente, que me condena
A viver por esquinas e ruas sujas,
Nas sarjetas do Ser, nas valetas tortas

Do Nada; enquanto, claudicante, me fujas
D
as minhas mãos, que nem um rio de mortas
Nascentes! Tu, somente tu, vasto Amor!

És capaz de me pôr de espantos, quando,
Cá, assisto um girassol, em pleno calor
Do meio-dia,
ninar a terra, cantando.

Autor: Edigles Guedes.


Meu Filho



E fazia-me de cavalo crédulo, pelos prados
Da América; enquanto deleitava-me com as Horas,
A passearem por ruas mofinas — longas demoras!
Que infindas Monotonias partiam ao meio alados

Versos! Indignos de constarem numa ata de reunião…
O que dizer de constarem num livro aberto ao sol?
Brincávamos de esconde-esconde em terra imaginária…
Jamais a Terra do Nunca haverá de se comparar

Aos campos, viçosos e verdejantes, que nós sonhávamos…
Havia fartura e teimosia, como Outrora;
Porém, o mundo era mais justo e tínhamos teu sorriso

Para alegrar o tempo de sol-posto, no horizonte…
Meu filho, enxota, põe para fora os olhares duros,
Há tantas terras para desbravarmos jungidos, juntos!…

Autor: Edigles Guedes.


Mover Estrelas



As mágoas que esbocei, e os sonhos que sorri!
Não passa de sobejo a quimera almejada,
Na tarde de verão, rebuçado no alpendre
De minha moradia, infensa ao suprassumo!

Com botas da memória intensa, claudicante,
Repiso a vexatória estrada, que encontramos
O beijo de vitória, após a quotidiana
Peleja — transitória, ainda que tardia!

Ah! como gracejei de mim!… A mesma língua
Me pune com bocejo… E rimos, decorosos,
Da fina e conhecida história de vilão.

Delíquio — encafurno o ciúme caprichado.
Veraz, me enganaste? Ou lume das estrelas
Deixou-me tão soturno, a ponto de movê-las?

Autor: Edigles Guedes.


Covarde



O gáudio dos dias de Outrora,
Recorda-me o quengo demente,
Por esta cadeia docente:
— Quimera, por nome e batismo.

Cadeia temente de carnes
Que vagam por água sinistra:
Carbono e anágua registra,
Em túrbida vida, covarde!…

Confesse querença de sobra
Por Dama franzina, de modos
Apáticos, sonsa; mas obra

Calor demasiado, com pernas
Oblíquas de trêmulas, ternas
Palavras gaguejas, hibernas.

Autor: Edigles Guedes.


Verso Martela



Um verso martela
Na minha cabeça,
Não leva consigo
Balela, nenhuma.

Não traz o refúgio
Ao pé de si mesmo.
Avante prossegue,

Tal como paquete
Que singra o Oceano,
Por simples brinquedo.

Um verso martela,
Sem pé ou cabeça…
Conduz-me em abraços
Amigos, mas tardos…

Autor: Edigles Guedes.


Colo e Sina



Mui cuidado:
Colo e sina!
Brisa meiga
Queima rosto.

Chã canela
Deixa marca.
Mar parcela
O Eu por vários

Meses findos.
Há sorrisos
Lindos, bem-

Vindos! Colo
Rindo, gamo!
Sina, bramo!

Autor: Edigles Guedes.


Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...