Vencido



Porventura o soído de peito meu me entontece?
Por que a moça falsa me dera seu ferimento?
Se proscrito vago por ruelas, sem pagamento
Por serviços magros; divago, sem o se apresse.

Porventura o doído de jeito meu me arrefece?
Por que a moça sonsa me dera seu arrebique?
Diadema canta mistério seu e chilique.
Um lamento trova; alvoroço seu concedesse.

Que calor troveja em meu talvez peregrino!
Que clangor suspeita por seu algoz desatino!
Uma escada eleita capricha em pétreo castigo.

Os flagrados, mão na botija, pai com desgosto.
Os vizinhos falam à boca torta, opostos.
O vencido vinga, ao vencer por bônus amigo.

Autor: Edigles Guedes.



Fugitiva



Fugitiva dos braços meus, por que te calas?
Se conheces que não consinto dissabores?
Se atinas que não permito os horrores
De inhenho, que inda velho de bengala?

O cerúleo espaço atesta-me a surdez
Aos pedidos patifes, muito suplicantes.
Os ouvidos, fizeste-os moucos, delirantes.
O prezar por astuta e árdua sisudez!

Fugitiva dos laços meus, por que te escondes?
Me concebe tirano e túrpido. Abono
De amor desmereço? Estúpido carbono

De provenho. Perdi o bonde e visconde!
Mas jamais esqueci de tórridos conselhos,
Que me deste. Caçamos lúbricos artelhos!

Autor: Edigles Guedes.


Estima



Sojigado ao torso teu, um lago de amores.
Submergido ao peito teu, um pranto de dores.
O sustém dos lábios teus, contém pormenores.
O também de beijos teus, mantém dissabores.

A morgada palra tua, a rima de cismas.
A dengosa palma tua, os ricos odores.
Buliçosa mão debruada em tarde de flores.
Devastadas rosas floram, âmago abisma.

A loquela: valsa tua, opimos favores.
Compungido ao braço teu, oprimo fulgores.
Estorvado laço teu, exprimo toleima.

Enjeitar cantor que vem falar de jiboia.
Alumiar valor de quem calar a tramoia!
Esbulhar calor de quem te quer e estima!

Autor: Edigles Guedes.

Jaez



Calma tinha, gentil, que me feriste.
Não que sabes o ruir de coração.
Sigo absorto, pensares que se vão,
Tão vexado estou. Persuadiste

Minha Sorte a flanar despercebida.
Sou fronteira a findar, desenxabida.
Triste Sina, formosa, detentora
Meus de ais, que ulceram os ouvidos.

Perto, colho a chaga por partido.
Dói no busto a trama tentadora.
Quem de mim me flagela, sonhadora?

Fora ti, o ninguém me enfastia.
Peço pouco; reforce a garantia;
Meu jaez, de freguês metralhadora!

Autor: Edigles Guedes.


Travesseiro



Travesseiro, amigo benigno das horas,
Que detém claudicantes ensejos na porta,
Que nos leva ao paraíso dos seixos ignotos,
Que nos move fagueiros ao mundo medonho.

Pesadelos que deitam burguês calafrio.
O martelo que põe-me bonés e delírio.
A tenaz que comprime fingido escrúpulo.
O fajardo suprime fastioso percurso.

Me amofina por noite afora, adentro.
Descortina pedrês lobisomem, vampiro;
Situações de piloura, o fado incerto.

Consciência tolero de pulcros detritos,
Que me banha em banho de gris madrugada,
Que me sonha em sonho de noivo e grinalda.

Autor: Edigles Guedes.


Carrapateiro



Papa-bicheira, dentre o bico e os olhos
Forte laranja, sus! corisca. Os piolhos,
Mil carrapatos — caça a cota, incansável.
Papa lagarta, rói carniça intragável.

Sóbrio cupim destrói madeira já minguada.
Ave, pinhé devora o biltre à crua míngua!
Peixe trivial demonstra boca mui salgada;
Cava sabor na torta e triste sua língua.

Bicho rapina peixe, cumpre o desatino.
Gula que come fome, dor que nos destina.
Sanha assassina, torce os nós que me ensina.

Caro pinhém, também, decoro meu destino.
Pinto azul-celeste Céu e Amor por tino.
Tinjo de verde as mágoas, sortes más, cretino!

Autor: Edigles Guedes.


Carcará



Cor carijó, o peito enfunado no arame.
Cerca farpada arrepia, os de olhos ditames
Fitos. À caça vítima segue, silente.
Come lagartos, cobras, sapinhos, oxente!

Vil solidéu no quengo, à espreita, solerte.
Face vermelha, rútila; seta adverte.
Bico a cutelo ofende, molesta o cujo;
Lâmina adunca abala civil caramujo!

Dobra pescoço, em dorso mantém sua cabeça,
Solta cantares doídos, sustém um “cará”.
Tine cansável e moído, um som findará.

Deus que te cuide, pés com moleira que meça!
Livre o Amor, também, me persegue, oportuno,
Para gastar sossego, a rudo gatuno.

Autor: Edigles Guedes.


Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...