Abelha

Edigles Guedes

Como abespinhada abelha-macha,
Mordes de febres mil o atrevido
Amor seresteiro, que se agacha
Para colher a flor mel adido…

Tu eras malandro ser cifozoário,
Desassossego, cega devoção…
Tu eras brevíssimo corolário,
Que não deitava sua demonstração:

Caravela nau sem astrolábio;
Sobrevoo de sopa sem moscardo;
Caduquice de velho coroca…

É mister aprender com os sábios,
Já que dizia popular brocardo:
Cochilou, o cachimbo cai da boca!…

21-8-2011.

Despedida de Outono

Edigles Guedes

O Vento assoviava navalhamente…
As Folhas farfalhavam sorrateiras,
Bailavam moles Boleros de Ravel,
Ciscavam a Lua e as estrelas belas…

O Outono incendeia cores fluorescentes
Na Floresta de ferro, derradeira,
Aço e concreto… Bênção inestimável
De circuitos integrados, e ruelas,

E válvulas, e porcas mecânicas,
E biônicas mãos com sua tecnologia…
Que mundo de peças eletrônicas

E aparelhos eletrodomésticos
Criamos!… Enquanto pássaros, em orgia
Acústica, despendem-se, acrósticos…

21-8-2011.

Esquizofrenia de Açoite

Edigles Guedes

Restou-me o fel, com água e sal…
Meus olhos (quão cabisbaixos)
Lacrimejam peixe abissal,
Que sorri dos contrabaixos,

E rabecões, e violinos…
Quebrou-se a flauta, tão doce
Voz melosa, timbre fino,
Retórica de simploce,

Música endógena, sonho
Em sons flutuantes… Drapejam
As bandeiras dos pidonhos

Amanheceres, que almejam
Viver a insônia sem noite…
Oh! esquizofrenia de açoite!…

20-8-2011.

Rosa Rubra

Edigles Guedes

Ah! Rosa Rubra mastiga
A dor mais que indigesta!…
O Cravo diz que a amiga
Não sabe contar a gesta.

Rosa Rubra, então, recita
“O Cravo brigou co’a Rosa”.
E salteado de cor, dita
Sua façanha toda prosa!…

O Cravo, jumento bravo,
Escouceia!… Eis que esbraveja!…
Tal qual moeda de centavo,

Espoja-se no duro chão.
Rosa Rubra, lhana, adeja…
Eh! ri que ri do sabichão…

20-8-2011.

Ela, à Porta

Edigles Guedes

Ela bate à porta, atarantada.
Os nós dos dedos doíam, frenéticos,
Mas não se cansavam de bater… Co’unhas
E dentes vis, incansavelmente,

Ela batia à porta, tresloucada.
Os braços erguidos, patéticos,
Suplicavam; e eram testemunhas
Da súplica por uma demente

Gota de Amor no oceano de Mágoas.
Ela baterá à porta… Risos
De desdém sairão – tal muitas águas

Do rio Capibaribe, zombando
Das ribeirinhas casas e lisos
Caranguejos trelosos, aos bandos…

18-8-2011.

Tarde Estética

Edigles Guedes

A da foz tarde desaguou em mim…
Sem Riacho fronteiras, que desmama
A faceira novilha na cama…
Cachoeira de pó com pirlimpimpim,

Tão que só quanto o barco de papel…
A luz do arrebol tange o vermelho
Para pradarias ou praias de artelhos
Ventos, areias, castelos, e tropel

De crianças, e basbaques brinquedos…
A laranja cala magnética
Acolá, longínqua, no penedo…

A de costura máquina do dia
Finda-se, bela numa estética
De James Joyce, o qual me parodia…

18-8-2011.

Ao Páramo

Edigles Guedes

Que teria podido induzir-me a vir a este páramo senão o desejo de ficar?
Franz Kafka

Oh! chegaste ao páramo deste meu coração,
Induzidas não pelo desejo de acampar!…
Escondes em tua carcomida face intenção
De odiar-me às despregadas janelas, de par

Em par… Porém, a tua fogosa mão cala-te
A boca e coração furibundos; pois sempre
Maior temor há em cobertos planos teus. Ágate
De panela fundo com falso é teu lábio… Apre!

Serpente, caída das tão bíblicas páginas,
Pasces teus luzidios olhos em minha Selva
De aberto peito, tal qual ave de rapina

À caça de seu prato eleito – fatal presa!…
Enquanto urdes tua rede, à espreita, a suave Relva
Alerta-me de ardilosa cumbuca tresa!…

17-8-2011.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...