Magnéticos Olhos

Edigles Guedes

Magnéticos olhos fartos, enfarte
Da minh’alma, tal como esse desgaste
Na lâmina da faca cega e torta
Em seu amolar-se diário em pedra rota.

Magnéticos olhos gástricos, lince
Que se lança em caçada brutal, chance
Nenhuma para a presa, que indefensa,
Foge dali, pula daqui; propensa

A um mugido e ora sus! – a morte certa.
Magnéticos olhos cáusticos, como
Uma xilogravura descoberta

De homem rústico, rupestre, terrestre
Ser que se alegra co’a miséria – assomo
De tal solidariedade pedestre!…

22-8-2010.

Sargaço ao léu

Edigles Guedes

Noite sestra! … Submarino atônito
Na cavalgada da maré cética.
Eu escuto, de memória, as escumas sãs
Do oceano Atlântico com indômito

Amor, gemendo por rochas náufragas,
Sem cor. As algas como epilépticas
Pernas, desafortunadas cortesãs,
Fluem o fluxo e o refluxo das amargas

Águas. Salobro sal de ácido cuspe
Das horas magras, corais marítimos
Sem tons musicais, silêncio apócope

Do sargaço ao léu – tão estreito em sua casa
De lama e esgoto… A praia (poluída) escassa
De banhistas e lamentos bálsamos!…

19-8-2010.

Tosco Marulhar d´Água

Edigles Guedes

Uma equação sem solução aparente –
Assim é o Amor: cego que não vê um palmo
À sua frente. Cego guia de bengala –
Ausente. O Amor é lugar de tementes

Águas conturbadas por procelosas
Ondas sem sal… Mastigo eu, lasso, calmo,
A reminiscência em traje de gala
Da minh’alma. A vida é pernas dengosas?

Turista de minhas pupilas sem dor
De cotovelo para consolá-las,
Eu sigo avante por veredas sem cor!…

Há dias que a tristeza sela tamanduá
Em mim – bicho de dar nó nas estrelas
Gasosas? Ah! tosco marulhar d’água!…

18-8-2010.

Riacho Anil

Edigles Guedes

Tabela de preços sem valor próprio,
Ilustrações sem valia alguma, livro
Da última badalada da meia-noite,
Pensamentos dispersos na latrina!…

A vida no badalo com sorriso
De guizo: gato seio em telha vã, sem pio!…
Repousa na mesa esse marca-livro
Tolo, tão tolo quanto eu!… Artrocondrite

De sentimentos vagos a trafegar!…
Palavras balbuciadas em menina
Boca?… Coração estúpido a estortegar!

Por que a vida há de ser uma dor senil?
Olhos, os teus cabelos, que são bem lisos,
Morena. E eu me acho tal como riacho anil!…

17-8-2010.

Velha Ingrácia

Edigles Guedes

Rasga o verbo conosco. Corríamos
Pela cozinha de casa, brincando
De pique-cola. A gargalhar, sorríamos!…
Essa velha Ingrácia vociferando!

Ácido ascórbico em cápsulas alvas
Cheirando a roupa branca da saudosa
Negra Ingrácia. Ó quanta saudade fulva
Da negra Ingrácia!… Doméstica aftosa

Nos calos de meninos! E os seus doces?
Ela era doceira de mancheia!… Ímpares
Salgadinhos pulam na frigideira!…

Hoje, meus olhos passeiam bem veloces
Em casa, buscam os olhos ácares
Da velha Ingrácia. Por onde ela andará?…

15-8-2010.

Maré sem Chassi

Edigles Guedes

Sussurro duma brisa claudicante,
Murmúrio sem água potável, guapo
Peixe navegando a sirte do existir.
Doce páramo, lago aconchegante!…

Tarde sem verão de permeio, feio sapo
De cócoras em sua terra de fremir
O frio – que vem cavalgando esse monte!…
O mesmíssimo frio de pedra… Anteontem,

Uma estrela cadente veio “post mortem”
Passear na Terra, e escafedeu-se no mar.
A vida de astro é tão breve celeste

Quanto à morte da mariposa de Assis!…
Duro é recalcitrar co’agulhas, remar
Contra o ferro-velho – maré sem chassi!…

15-8-2010

Psiu sem Noite

Edigles Guedes

Um ventilador velho e vuco-vuco
Resfria o dia deitado na cama alada!
Um cansaço e bom relógio sem cuco
Discorrem sobre a álgebra da salada

De frutas na cozinha fantástica
De minha casa! Há um mundo prodigioso
Dentro da minha cachola rasa e esférica!
Um mundo de homem mudo e langoroso!

Um liquidificador persistente
Tritura as matérias (banana e maçã)
Em seu forno a jato e recalcitrante!

Um tetéu, na vigília do pernoite,
Canta seu cântico de ave ribaçã?
Tudo é abracadabrante psiu sem noite?

15-8-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...