Teu Corpo em Flores

Edigles Guedes

Inalo as flores da estufa e rendo-me
Ao teu cheiro de mulher carótida!…
Rosas são as tuas mãos: peixes em cardume
No meu aquário em mim, das horas grávidas!…

Boninas são as tuas pernas estrábicas,
Eis que malmequeres ou bem-me-queres!…
Margaridas são coxas auléticas
Tuas, em sussurro de suave cárcere!…

Cravos — escravos de Jó — são espáduas
Tuas, na manha de gatinha sedosa!…
Girassóis são tuas vergonhas divíduas,

Com odor de lírio sério, campestre!…
Teu corpo recende de mulher ciosa
A alfazema… Que você me sequestre!…

6-4-2010.

Que Malsim!...

Edigles Guedes

Eu sei: tu não tens contigo a tulipa,
Que te dei. Sinceramente, jogasses
Fora as seis pétalas tolas, sem aspas
Nas entrelinhas sonsas. Que benesse

Trouxeste para minha vida? A não ser
Esses meu pesar de mosca meio morta,
Meio lisa; ou talvez aquele adolescer
De gangrena aberta por ruas tão tortas

Da minh’alma de escafandrista. Estou alheio
Às ondas do mar; estou no escomunal
Navio do tempo presente. Eis que folheio

Um livro para distrair-me; porém, sim,
Persiste em meus pensamentos toda nau
De lembranças da tulipa. Que malsim!…

6-4-2010.

Doce Cafuné

Edigles Guedes

Tu és o ovo de chocolate com Páscoa
De recheio, meu benzinho. Que sereno
É este, que assopra seu fulgor?… Como ecoa
No coração zabumba o seu odor lhano!…

Eu sou manteiga derretida pelo
Charme de mulher bandida. Elegância
De ombros desconjuntados, banguelos;
Bala de prata co’aquela fragrância

De veneno. Mulher de sapato alto:
É um perigo de ascensorista — fatal…
Tu és meu brinquedo esquecido, em contralto

De estupendo coral de estrelas murchas!…
Tu estás soprano em corpo continental —
Doce cafuné!… Anjo, que me avalancha!…

6-4-2010.

Teu Retrato

Edigles Guedes

Teu retrato, tatuado no meu peito,
É sinal inequívoco de paixão
Surda, dentro da caixa de defeitos
Dos meus pensamentos em circunflexão…

Teu retrato (enlaçando-me a mim pelo
Peito) faz-me feliz no mudo aspecto
De teu beijo vagabundo. Eu que anelo
Por tua lua em loas lúbricas… Circunspecto,

Devoro o esmalte de tuas unhas — fera
A ferir-me de desejos, encantos
De porcelana chinesa. Pantera

De fêmea faceira, atada ao retrato
Da figura, sem sobressalto, de Amor
Fovente. Ó mulher, mercê de destemor!…

6-4-2010.

Língua Lamelífera

Edigles Guedes

Língua: lamento alífero de aluguel;
Alimento do lanoso e legível
Laurel de latim. Laúde sem limites,
Sem luvas de lavanda laurífera.

Lava-louça sem alarde, lealdado.
Leseirice — aluado lambrequinado!
Língua lúbrica com loucas lílotes;
A lheguelhé língua lamelífera.

Lavoura analítica prelibente,
Com loquaz sem lucro literalmente.
Lã de lambugem; lustro levirrostro.

Libélula libente: lastros lábios.
Língua em laço, lanifício luzidio;
Luar luxuriante de lamelirrostros…

6-4-2010.

Premência Parida

Edigles Guedes

Manhã de bule ao sol. Estou sentindo
O formigar dos mares de areia. Fecundo
A manhã com minha porosidade
De cansaço. Estou eunuco de tuas esgrimas

De pele, minha amada. A nau cegueira
Sucumbiu meu coração. Na algibeira
Dos meus pensamentos, há só ansiedade
Por tuas mãos em escorrego — lágrimas

De felicidades na epiderme
Dos meus sentimentos. A gata freme
Teus roufenhares de pernas lânguidas.

Na cama áspera, de espáduas desnudas,
Quadris sereiam tuas dádivas carnudas.
Mulher dardeja premência parida!…

6-4-2010.

Fezes Cópulas

Edigles Guedes

Eis que tudo são fezes: breves risos
Do humano transitório nesses guizos;
Guizos entre a ternura da loucura
(Que cerceia a lógica aristotélica)

E a razão cartesiana das emoções
(Jogo de suas marinheiras sensações).
Há nos guizos, que também são procura
E revanchismo de certa estética,

Maculada por íngreme sapato,
Fincado no chão (ácido firmamento),
Aqueles ares de negra pérola

Em desgosto de rosto desdobrado,
Na mansão de abril com mítico brado.
Guizos em risos de fezes cópulas!…

6-4-2010.

Aquário de Vida

À mercê dos favônios, Bisviver jigajoga, Bajogar a conversa, Retisnar os neurônios… Lida que se renova. Quem me dera essa trela… Fá...